Vou morrer!

O título desta crônica não é novidade para ninguém. O dia de cada um vai chegar, só que no meu caso, já sei o motivo. E não vai demorar. 

Explico. Minha mãe é da área da saúde, logo, desde criança não tive muita folga neste quesito. Para qualquer dor de garganta ou sintoma forte de gripe não tinha negociação: era uma injeção de Bencetacil 1200 UI. Justamente a mais temida – por ser a mais dolorosa. Hoje em dia o uso é restrito aos hospitais.

Como sou seguidor da hierarquia familiar, toda vez que minha mãe perguntava como estavam meus exames, lá ia eu fazer um check-up básico. Certa vez, resolvi organizar minha vida, fui juntar meus exames e percebi que tinha feito quatro exames de sangue em um ano, sem ter motivos para isso.

Por sorte, conheci um clínico geral que me aconselhou a fazer o check-up anualmente e no mês do meu aniversário, assim não teria como esquecer.

Em maio passado, fui para a consulta e o médico sugeriu fazer uma endoscopia, “só pra ver como está”, disse ele; não havia incômodos ou reclamações minhas sobre o aparelho digestório.

Fiz todos os exames e a tal endoscopia indicou sinais de gastrite. Comentei com meus amigos sobre o assunto – a sabedoria popular sobrepõe-se aos especialistas – e eles começaram a me alertar: “VAIS TER QUE PARAR COM OS CAFÉS!”. Como foram vários os comparsas sinceros comigo, conclui: Vou morrer! 

Vai ser de desgosto! 
E vai ser logo.

Em tempo: Antes da publicação deste texto, o cronista consultou uma gastroenterologista e a doutora recomendou não exagerar com café, chá preto, frituras, comidas pesadas e álcool. Ninguém proibiu nada e nem perguntou ao paciente sobre vícios cafeínados, colunas em site sobre café ou expedições em cafeterias.

Cápsula de @umcafezinho – O que eles disseram: “Não vou a médicos. Eles descobrem doenças na gente”. Nelinho Euzébio

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis.

@marcelolamasbr
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Lista de cafeterias

Uma das minhas autopromessas é fazer um levantamento de todas as cafeterias que visitei, sozinho ou na companhia da minha especialista em cafés particular.

Já fizemos viagens de todos os meios e tamanhos. Em uma delas, a viagem seria de carro, por 3 horas, para conhecer uma cafeteria bem avaliada. Na véspera, telefonei para garantir que a loja estaria aberta no sábado, só por precaução. O atendente confirmou. Partimos cedinho.

A especialista sempre começa as visitas pelo banheiro. Chegou à mesa assustada. Tudo bem, não perdemos o foco e pedimos os cafés.

Eu tinha uma prancheta na mão – provavelmente estava escrevendo alguma crônica – e a especialista um guia de cafeterias com um adesivo enorme e o nome dela impresso. Também tínhamos uma máquina fotográfica pouco discreta.

Enquanto o barista preparava as bebidas, o dono da cafeteria deu uma disfarçada e foi lá fora especular a placa do nosso carro – o único em frente à loja.

Quando viu que era de Santa Catarina, pareceu mais aliviado – pois falei que iria de SC para o PR, quando liguei. 

Ficamos com a impressão de que os nossos olhares observativos – e nossas parnafernalhas – fizeram o sujeito pensar que éramos avaliadores gastronômicos profissionais, tipo os caras do Guia Michelin. 

Ele veio trazer os cafés. Puxou conversa conosco, perguntou se eu era o sujeito da chamada, entre outras coisas.

Ele teve sorte, pois éramos somente pessoas atrás de um bom café. O ambiente estava muito quente e a limpeza longe de ser regular. Ficamos uma meia-hota e fomos embora.

Depois fizemos uma avaliação privada e mandamos para o proprietário. Tomara que ele tenha melhorado alguns pontos. A bebida que ele servia era muito boa e não merecia ser retirada da nossa lista – imaginária – de cafés preferidos.

Sempre pesquisamos as opções de cafeterias nos nossos destinos. Nas cidades maiores, andamos muito a pé, com um “mapa mental”, erramos muitas vezes os caminhos e damos de cara com lugares incríveis.

Temos a impressão que aqueles lugares que chegamos sem “maps”, sem pranchetas, sem expectativas foram os mais aconchegantes e, antes de tudo, foram os que serviram os melhores cafés. O dia que eu fizer a listinha com todas as cafeterias que visitei poderei confirmar a proporção. Por ora é só uma promessa.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”.
@marcelolamasbr

De costas para o café

Na empresa, a minha mesa fica de costas para o cantinho do café. Não é uma simples coincidência; antes, eu ficava de frente. Será que alguém percebeu minha distração antiga que era capturar histórias acontecendo ali nos arredores e sugeriu a mudança aos superiores? Talvez seja teoria da conspiração, só mudaram por mudar. Nunca saberei.

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Lá no trabalho os aniversariantes recebem um cartão corporativo. Como são muitas pessoas no mesmo ambiente, quando o envelope pardo passa para coletar os cumprimentos é um divertimento ler as homenagens, as declarações de colegas que viram amigos mais íntimos – ratificadas pelas redes sociais – e também é engraçado ler aqueles apelidos familiares carinhosos, que “vazaram” na empresa quando algum parente apressado telefonou e pediu para falar com a Nani, com o Degão ou com o Teló. Fazendo um mea culpa, lá em casa meu pai me chamava de Cheiroso, por causa da minha pouca proximidade com o chuveiro, na infância. Por sorte, esta informação (ainda) não chegou à firma.

Na semana passada, começou a circular um cartão que deu o que falar. UM colega fez uma declaração inusitada para UMA aniversariante. Conforme o cartão ia passando, as pessoas vinham me mostrar, alguns até sugerindo que a situação merecia virar uma crônica. Todo mundo comentando, exceto a homenageada, que estava blindada até que a data chegasse, mas estava na boca do povo, sem saber.

O escritor Ruy Castro disse que precisa esperar dez anos da morte de um biografado para pode escrever a história com fidelidade. Eu só precisava esperar que a história terminasse e aguardava por isso: Qual seria a reação da homenageada? O autor do texto também estava com medo do desdobramento, devido toda repercussão.

Ah! Sim! O que estava escrito? Consegui autorização para transcrever:

“Quem dera tirar uma cópia tua e levar para a minha casa!”.

Nesta segunda-feira após a “solenidade” de entrega, ela disse que foi a homenagem mais criativa que recebeu em todos os seus 17 cartões da firma. É possível que o sujeito já tivesse disto isso pessoalmente, ali no cafezinho. Só que o observador social aqui estava de costas.

Parafraseando David Coimbra: “Não posso contar tudo, causaria separações, destruiria reputações.”.

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Marcelo Lamas é cronista desde 1994. Para não se comprometer só escreve “Parabéns” no cartão de aniversário corporativo. Autor de “Indesmentíveis”, entre outros.

@marcelolamasbr

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Foto: Depositphotos