A jararaca

Há quem diga que eu era o neto preferido da Alice. Essa fama vinha da minha disponibilidade em aceitar os convites incomuns que ela fazia. Numa ocasião fui com ela visitar uma amiga. Ela tinha a intenção de “roubar” a receita de uns pontos de tricot, fazendo perguntas para a hábil senhora. Ouvi tudo, mas não sabia do plano.

Quando chegamos de volta em casa, a avozinha foi traída pela memória e não conseguiu repetir a sequência certa, enquanto tentava mostrar para minha mãe. Vendo sua ansiedade, tentei ajudar, sugerindo “uma laçada, um tricot, dois pontos juntos e um sem fazer tricot”. E – advinhe? – funcionou.

Os olhos azuis da velha – sobre os quais ninguém sabia a origem, pois era descendente de portugueses e africanos – brilharam e ela ficou impressionada com o acerto.
No outro dia, bem cedo, a Alice bateu lá em casa e disse a minha mãe: “Preciso do Marcelo!”. A minha mente infantil não entendia como uma criança de cinco anos poderia ajudar em alguma coisa.

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A mãe me vestiu com a única roupa de passeio e me despachou com ela. No caminho, me explicou que íamos na casa de outra amiga, a qual referia-se carinhosamente com uma alcunha: “Marcelo, nós vamos na casa da Jararaca. Mas tu chamas ela de Olga, viste?!”.

A Jararaca, digo a dona Olga, era a benzedeira da vila, a responsável pela medicina alternativa da época. Por exemplo, se a pessoa tinha dores nas costas, ia ao médico, fazia radiografia, tomava duas caixas de remédio, fazia massagens, mas o que as curava era a benzedura simultânea.

Minha avó passou o plano: “Vou pedir para a Jararaca te benzer. Tudo que ela te disser tu vais decorar, ouviste?!”. A Jararaca realizou o procedimento, falando alto e me afumentando. Eu quietinho tentando memorizar.

Mal saímos do portão gigante, que escondia a casa assombrada e sem cor, a Alice puxou uma caneta BIC verde e um caderninho da bolsa e anotou passo-a-passo a benzedura, não dando chances para o esquecimento.

A Alice passou a ser a benzedeira exclusiva da família e eu, pela primeira vez, me senti útil.

Parafraseando Luiz Toledo: “A saudade é a prova que estamos vivos e que tudo realmente aconteceu”.

 

Marcelo Lamas é cronista e vive anotando tudo para não esquecer. Na infância, acompanhava a avó Alice, em viagens às colônias pomeranas para vender roupas. A melhor hora do dia era a do café na casa da Sra. Renilda.

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Foto: Pixabay
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