O (anti) isolamento social e o café

O meu pai, o seu Paulo, é uma pessoa extremamente social. Foi jogador de futebol e nunca deixou o hábito de andar uniformizado. Por conta disso, sempre tem alguém que puxa conversa com ele, para saber como anda o time.

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Ele tem uma considerável coleção de trajes no armário. Sempre brinco que minha mãe tem uma grande “vantagem” em relação as amigas da mesma geração: não precisar passar roupas!

As demais senhoras sexagenárias vivem passando camisas e calças sociais dos maridos, isso sem falar, no tempo de secagem, que é bem mais demorado.

Outro dia, ela rebateu meu comentário, dizendo que nunca falo da desvantagem, pois, tanto o meu pai, quanto as etiquetas dos fabricantes de roupas esportivas e os colecionadores de camisetas de futebol – que são muito mais do que se imagina – recomendam a lavagem à mão: “Não se lava camiseta de futebol na máquina!”, diz ele.

O isolamento social vem caindo assustadoramente. Eles medem através dos sinais dos celulares. Todos os dias, o seu Paulo pega a bicicleta e atravessa a cidade para fazer seu exercício diário.

Segundo ele, vai e volta sem falar com ninguém. Ontem perguntei como estava o movimento no Café Aquários, ponto tradicional no interior do RS, que costuma ter muitos idosos da idade dele: “Não sei! Não vou para aqueles lados. Se passar lá, alguém vai me parar para conversar.”.

Meu pai sempre teve (tinha) o hábito de visitar os parentes nos finais de semana. Às vezes a visita demorava e noutras era rapidinha.

Um dia descobri que naquelas casas que serviam café solúvel, ele não ficava o tempo suficiente para oferecerem alguma bebida, só cumpria a tabela pra não ficar mal falado na família e voltava pra tomar o seu café passado em casa.

O seu Paulo costuma fazer listinha para tudo, mas aquela das casas onde se tomam café solúvel ele tem na memória.

Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no Cafezinho, leia gratuitamente AQUI.

marcelolamasbr@gmail.com

@marcelolamasbr 

Foto Jeff Sheldon on Unsplash

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