4 anos, um cafezinho

Em 11 de maio de 2017 publicamos a primeira crônica da coluna “Papo no cafezinho”. Na época eu tinha mais de duas décadas de caminhada escrevendo textos em jornais, revistas e sites.

Toda vez que assumia um compromisso desses, escondia uma informação importante do meu currículo. Nas primeiras vezes que tive um espaço fixo de escrita, nunca passei de cinco crônicas. Os jornais e revistas quebravam, faliam, fechavam. Será que eu era o culpado? Só deixei de pensar nisso, quando uma coluna engrenou em um jornal de Santa Catarina e, quando saiu o sexto texto consecutivo, fiquei emocionado.

Também tinha na minha folha corrida a participação em uma revista ambiental, mas a minha função era fazer a coluna que quebrasse o gelo, falando de qualquer coisa que não fosse ambiental.

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Mas o desafio aqui era diferente. Escrever textos com a temática do café. Haveria tanto assunto assim? Fiz uma lista de situações vividas até então, para que tivesse a garantia de ter o que falar. Até hoje não a usei. Parece que o olhar fica mais aguçado quando se tem “a obrigação” de contar uma história de vez em quando, mesmo com as restrições da pandemia, porque com circulação livre por aí, os personagens aparecem do nada.

Percebi ao longo desses quatro anos que o nome acordado – entre a nossa editora Fernanda e eu – para a coluna Papo no cafezinho tinha mais do que a alusão ao café, tinha a essência do que procuro publicar por aqui: o papo no cafezinho é aquela conversa que surge enquanto degustamos a bebida; é aquela história que guardamos para compartilhar com o colega de trabalho na segunda-feira, mesmo que cada um esteja no seu home-office, pela tela do computador, mas com uma xícara ao lado – como faço com o Márcio, frequentemente. O papo no cafezinho também pode ser o comentário sobre a rodada do futebol, sobre a vacinação, sobre um filme ou sobre um livro.

Falando em livro, lá atrás quando começamos, eu não sabia se passaria do trauma de chegar na sexta crônica e nunca imaginaria que teria o privilégio de ter as minhas histórias dos arredores do café publicada em um livro com o nome “Papo no cafezinho”, distribuído nas escolas públicas e online gratuitamente, num país tão carente como o nosso.

Sou muito grato ao @umcafezinho, a minha – literária – família, aos personagens e aos leitores que nunca deixam o cronista aqui sozinho: “Marcelo quem era o cara daquela história, hein?”. 

Parafraseando Aldyr Garcia Schlee (1934-2018): Nós nos vemos nos outros. Nós somos nosotros. Nós somos nós mesmos nos outros.

Marcelo Lamas é o autor de “Papo no cafezinho” (Design Editora), disponível gratuitamente aqui abaixo:

marcelolamasbr@gmail.com

@marcelolamasbr

Photo by Priscilla Du Preez on Unsplash

Cancelamento

Ao longo da minha vida profissional trabalhei com vários tipos de perfis diferentes, sejam como colegas de trabalho, gestores ou os 28 estagiários que tive oportunidade de treinar. Poderia dizer: “trabalhei com todos os tipos de perfis”, mas a experiência diz que as possibilidades são inesgotáveis.

Um desses caras, era o Jorjão, sujeito criativo, caricato e rodado no mundo. De volta de uma de suas viagens, apareceu no escritório com uma máquina que fazia doses individuais de café, em uma época em que as “Nespresso” não eram conhecidas e tampouco acessíveis aos assalariados.

Uma vez pela manhã e outra à tarde, lá ia o Jorjão levar um café fresquinho para o nosso diretor. Os invejosos sofriam, sem chances de competição com aquele aroma.

Vez por outra, ele chamava um de nós para tomar um cafezinho. Um dia, colocou meio corpo pra fora da sala envidraçada e – sorridente – me chamou:

– Lamas! Hoje é a tua vez de tomar um café comigo!

Era um dia quente, nosso ar condicionado era precário e eu estava bem atribulado, com prazo apertado para entregar um serviço. Nem tirei os olhos do monitor e respondi:

– Obrigado chefe. Se fosse uma Coca-Cola bem gelada eu “ia”!

E segui montando a minha planilha.

Na manhã seguinte, um colega que sentava ao meu lado me chamou pra almoçar:

– Cara, tu viste o que fizeste ontem?

– Eu!? O quê?

– O Jorjão te chamou pra um café e tu recusaste.

– Mas “tava” calor e eu não ia tomar café…

– Bixo, tu não percebes as coisas né?

– O quê?

– Ele só chama lá no aquário quando vai falar alguma coisa séria, pra passar um sabão, pra dar um feedback, como ele diz…

– Ah! Então eu fiz bem em recusar, né?

– Não, cara! O “galego” foi chamado lá pra tomar o cafezinho e era pra falar de promoção…

Por várias semanas fui trabalhar alinhado, arrumadinho, esperando por uma conversa que nunca existiu.

Nem posso reclamar de ter sido cancelado pelo chefe e por ter ficado sem aumento em um ano em que tive excelentes resultados profissionais. Afinal, o chefe me chamou pra conversar e pelo jeito, fui eu que o cancelei.

Parafraseando Millôr Fernandes (1924-2013): Quando você comete uma besteira e se sente um perfeito idiota está começando a deixar de sê-lo.

Marcelo Lamas é o autor de “Papo no cafezinho” (Design Editora), disponível gratuitamente AQUI.

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Foto: Andrew Neel/Pexels

A verdadeira classificação do café

A diferença entre uma pessoa que escreve e outra, que não escreve, é que a primeira precisa estar atenta a tudo que acontece ao seu redor.

Mas engana-se quem pensa que essa atenção seja com os grandes fatos. É preciso estar ligado aos pormenores.

Ontem, recebi uma mensagem que trazia uma explicação sobre a importância de se fazerem listas, que ajudam na organização e  na produtividade.

A pessoa que me enviou, seguramente, já me flagrou tomando nota, no meio de uma conversa. Com certeza algum “pormenor” que poderia render uma história para este cronista.

Já disse nessa coluna, que só assinei o contrato depois de ter uma longa lista de assuntos sobre café, para não ter risco de não ter o que contar. Até hoje – quase quatro anos depois – não precisei recorrer a minha poupança.

A escritora Martha Medeiros disse em uma live que sempre tinha uns textos inéditos na manga, mas com a pandemia, aquelas crônicas da gaveta ficaram fora de contexto.

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Há muitas situações em que não foram a minha observação cotidiana ou minha lista de assuntos por escrever que preencheram o espaço da coluna. Foram os leitores que me enviam coisas incríveis, que são praticamente a crônica pronta.

Horas atrás, meu ex-colega de faculdade, Evandro, me enviou duas fotografias de vidros transparentes com café dentro. Daqueles que usamos em casa. Elas tinham fitas adesivas coladas, com uns dizeres, e a explicação a seguir (sic):

– “Lamas, fui no meu sogro e na hora de fazer o café me deparei com essas marcações. Ele disse que era o selo de qualidade que  colocava a cada café tomado, para não esquecer marcava data e marca, de um lado os bons de outro os ruins! Primeira foto são os ruins. Na segunda são os bons! Segundo o paladar dele.”. 

E os adesivos colados traziam todas as informações acima, para que o Sr. Marcos, o sogro do Evandro, pudesse tomar os melhores cafés.

Não é a classificação da ABIC, mas é a que lhe é acessível e lhe garante o prazer de melhor apreciar a sua bebida predileta.

Vamos compartilhar a foto do melhor classificado, caso o leitor queira experimentar.

A sabedoria popular não tem esse nome de “sabedoria” à toa. Aprendamos todos com os sábios que estão por aí. 

Marcelo Lamas é o autor de “Papo no cafezinho” (Design Editora), disponível aqui gratuitamente.

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Foto de destaque: Elesban Landero Berriozábal/Unsplash