Meu tio não vive sem café

É fácil passar um café: é só colocar o filtro, depois o pó e a água quente – falando basicamente.

Os mais eruditos, moem os grãos na hora, escaldam o filtro de papel para tirar o gesso, escaldam a xícara, pesam o pó e medem a água e, ainda, cronometram o processo.

Porém, não é todo mundo que sabe passar um café. É o caso do meu tio Chico, lá de Porto Alegre.

Ele sempre toma café na rua, na padaria, na conveniência do posto ou na lancheria (como se chama no RS).

Meses atrás, o prefeito da capital gaúcha intensificou as regras de isolamento social e o meu tio idoso ficou sem o seu @umcafezinho

“Só dá pra pegar um pão seco, no pacotinho, de passagem!”, disse ele, indignado.

Recebi um sinal, de que ele aparecia de surpresa na minha casa, a uns 700 km, para fazer uma visita(!). Fiquei de sobreaviso, ajeitei um quarto de hóspedes e, por sorte, eu estaria em férias.

Para que não ficássemos entediados, bolei um plano: o meu tio Chico Lamas tem um hobby muito específico, o de visitar estádios de futebol pelo mundo inteiro. Já conheceu mais de 2.800 estádios e tem cerca de 7.000 fotografias catalogadas.

Então pensei que pudéssemos fazer o seguinte: sair de casa atrás dos estádios da região, cuidando ao máximo para manter o isolamento social.

Ficamos uns cinco dias no ritual: saindo da garagem, indo até o estádio, fazendo a fotografia dele, em frente ao gramado, com as mãos na cintura, afinal se não tiver esse registro particular, aparecendo na fotografia, como ele vai provar os números citados no parágrafo anterior?

Leia também

Cumprimos praticamente todo o protocolo de segurança particular que fizemos, com algumas exceções:

Regra 1 – Não falar com ninguém! Mas tivemos que falar com uma senhora que veio nos abordar sobre o porquê de termos pulado o muro do estádio;

Regra 2 – Não desviar, nem parar no caminho! Porém, nas crises de abstinência, paramos em algumas cafeterias ao longo dos percursos das para visitas aos 13 (!) estádios. Iniciávamos o dia, com o ciabatta com manteiga e um espresso médio na padaria do Tio Carlinhos. Depois, rodávamos uns 50 quilômetros por dia. 

Marcelo Lamas/Arquivo Pessoal

Antes de ir embora, ele me confidenciou que alguns parentes fizeram corpo mole para a visita. Aqui, ele usava máscara até dentro de casa.

Azar daqueles que não receberam o “jovem disposto” de 73 anos e perderam a chance de ouvir um monte de boas histórias. Eu não desperdiço estas oportunidades.

Se você quiser conhecer mais sobre o tio Chico, é só digitar no Google: “Desbravador de estádios”. Se você quiser provar o inigualável ciabatta do tio Carlinhos, precisará vir aqui no interior catarinense e, nesse caso, pode chamar o cronista.

Marcelo Lamas é o autor de “Papo no cafezinho” (Design Editora), disponível em gratuitamente AQUI.

marcelolamasbr@gmail.com

@marcelolamasbr

Foto: Vincent Tom/Unsplash

Café descafeinado: como são os processos?

O café descafeinado é uma ótima saída para matar a vontade de mais uma xícara tarde da noite. Mas você já parou para pensar como são os processos utilizados para realizar esse feito? 

A cafeína é a responsável por nos dar aquela energia extra, mas, em excesso, pode causar ansiedade, insônia, tremores musculares e taquicardia.

Para quem deseja diminuir o consumo de cafeína durante o dia (ou durante a noite), sem abrir mão do seu cafezinho, pode recorrer ao café descafeinado.

Continue a leitura e você vai conhecer como são os processos para tirar a cafeína dos grãos e saber também sobre sua eficácia e segurança.

Leia também:

A história do café descafeinado

O café descafeinado surgiu por acidente. Foi em 1903, quando uma carga de café foi inundada pela água do mar, fazendo com que a cafeína dos grãos fosse liberada em um processo de dissolução química.

O alemão Ludwig Roselius, chefe da empresa Kaffee HAG, iniciou, então, um estudo para reproduzir o processo através de um método industrial.

Roselius cozinhou os grãos com vários ácidos até usar o solvente de benzeno e atingir seu objetivo.

Algum tempo depois, descobriu-se que o benzeno era um possível agente cancerígeno e novos processos precisaram ser desenvolvidos e implementados.

Foto Jeffrey Wegrzyn/ Unsplash

Processos atuais para o café descafeinado

Hoje em dia, pode-se dizer que existem vários processos para se chegar ao café descafeinado. E eles são absolutamente saudáveis e seguros…

Confira a seguir 4 processos:

1 . Solventes

Como em todos os métodos, aqui a cafeína é retirada dos grãos verdes, ou seja, antes da torra.

O café é embebido de água e depois fica de molho em um solvente, que pode ser o cloreto de metileno ou o acetado de etila. Essas substâncias se ligam às moléculas de cafeínas extraindo-as dos grãos.

Como o solvente nunca é completamente removido do café, seu sabor sofre uma pequena alteração, mas isso não compromete a segurança da bebida.

Os solventes utilizados são aprovados pela FDA (The Food and Drug Administration), a agência federal americana que regula remédios e alimentos.

Foto: The Lazy Artist GalleryPexels

2 . Método suíço

O segundo é o método suíco, que foi criado na década de 30 e foi o primeiro a não utilizar solventes. 

Os grãos ficam de molho em água, fazendo com que a cafeína se dilua e as moléculas de sabor boiem. 

A solução, então, passa por um filtro de carvão ativado que retém só a cafeína.

Em seguida, a água é devolvida aos grãos, que reabsorvem as moléculas de sabor.

Foto: Karolina Grabowska / Pexels

3 . Solução saturada

A solução saturada para o processo no café descafeinado é uma adaptação do método suíço.

Basicamente, os grãos são mergulhados em água quente cheia das substâncias químicas do café, menos a cafeína.

Como a solução está saturada com os mesmos compostos dos grãos, as moléculas de sabor não são absorvidas pela água, só a cafeína. Dessa forma, ela é dissolvida e, depois, descartada.

Foto cottonbro / Pexels

4 . Dióxido de carbono

O quarto método é o de Dioxido de carbono. Funciona assim: os grãos são embebidos e amolecidos em água.

Aí, eles são colocados em uma caldeira de alta pressão para a injeção de gás carbônico. O gás se liga às moléculas de cafeína, extraindo-as dos grãos.

O gás, enfim, é retirado e a pressão é reduzida. Depois disso, a cafeína é armazenada em uma câmara separada.

Como as moléculas com o sabor do café são maiores, elas são preservadas. A desvantagem desse processo, porém, é o seu alto custo.

Foto: Elle Hughes / Pexels

O café descafeínado é completamente livre de cafeína?

Mesmo com todos esses métodos para retirar a cafeína do café, é fato que nenhum deles consegue tornar a bebida completamente descafeinada.

Um café descafeinado tem cerca de 97% menos cafeína do que uma xícara comum. Ou seja, QUASEEEE…

Agora você já sabe como é feito o café descafeinado e conhece os vários processos existentes para isso. Se esse conteúdo foi útil para você, compartilhe. Talvez ele seja útil também para aquele seu amigo que ama tomar um cafezinho antes de dormir.

Marcia Kamijo é jornalista, feminista, amante de bons cafés, cinema, TV e cachorros.

Foto de Destaque: Coffee with Joshua / Unsplash

O (anti) isolamento social e o café

O meu pai, o seu Paulo, é uma pessoa extremamente social. Foi jogador de futebol e nunca deixou o hábito de andar uniformizado. Por conta disso, sempre tem alguém que puxa conversa com ele, para saber como anda o time.

Leia também

Ele tem uma considerável coleção de trajes no armário. Sempre brinco que minha mãe tem uma grande “vantagem” em relação as amigas da mesma geração: não precisar passar roupas!

As demais senhoras sexagenárias vivem passando camisas e calças sociais dos maridos, isso sem falar, no tempo de secagem, que é bem mais demorado.

Outro dia, ela rebateu meu comentário, dizendo que nunca falo da desvantagem, pois, tanto o meu pai, quanto as etiquetas dos fabricantes de roupas esportivas e os colecionadores de camisetas de futebol – que são muito mais do que se imagina – recomendam a lavagem à mão: “Não se lava camiseta de futebol na máquina!”, diz ele.

O isolamento social vem caindo assustadoramente. Eles medem através dos sinais dos celulares. Todos os dias, o seu Paulo pega a bicicleta e atravessa a cidade para fazer seu exercício diário.

Segundo ele, vai e volta sem falar com ninguém. Ontem perguntei como estava o movimento no Café Aquários, ponto tradicional no interior do RS, que costuma ter muitos idosos da idade dele: “Não sei! Não vou para aqueles lados. Se passar lá, alguém vai me parar para conversar.”.

Meu pai sempre teve (tinha) o hábito de visitar os parentes nos finais de semana. Às vezes a visita demorava e noutras era rapidinha.

Um dia descobri que naquelas casas que serviam café solúvel, ele não ficava o tempo suficiente para oferecerem alguma bebida, só cumpria a tabela pra não ficar mal falado na família e voltava pra tomar o seu café passado em casa.

O seu Paulo costuma fazer listinha para tudo, mas aquela das casas onde se tomam café solúvel ele tem na memória.

Marcelo Lamas é cronista. Autor de Papo no Cafezinho, leia gratuitamente AQUI.

marcelolamasbr@gmail.com

@marcelolamasbr 

Foto Jeff Sheldon on Unsplash