Café em cápsula: a opinião de uma barista

Outro dia estava almoçando com uma amiga e, em uma determina hora, começamos a falar sobre café. O café em cápsula surgiu na conversa e ela se mostrou surpresa quando eu, barista, disse que tenho uma máquina Nespresso.

A máquina chegou em casa antes de eu entrar profissionalmente para o mundo do café, mas ela é usada até hoje, mesmo que com uma frequência menor. Confesso que durante um tempinho ela ficou meio esquecida, porque aquele gostinho de queimado começou a me incomodar um pouco, já que eu tinha começado a conhecer bons cafés e grande parte dos que eu comprava vinham com essas notas aromáticas ruins.

No entanto, se a gente comparar as cápsulas que temos disponíveis no mercado hoje com as de 5 anos atrás, vamos perceber o quanto esse tipo de bebida evoluiu em vários aspectos e ainda continua se desenvolvendo.

Café em cápsula: o que mudou?

Em uma matéria do Paladar (Estadão) de 2015, que falava sobre a queda da patente das cápsulas, a Nespresso disse que a concorrência é saudável e melhora a qualidade e as opções dos produtos no mercado, ou seja, quem ganha é o cliente.

Quase três anos depois dessa matéria, estava eu na Sirha 2018, vendo um painel da 3 Corações. No final, eles serviram um café em cápsula para quem estava ali assistindo. Gente, que surpresa agradável! Eu estava sem pretensão nenhuma sobre aquela xícara e, de repente, comecei a sentir acidez, doçura, um bom corpo.

Foi nesse exato momento que eu percebi o quanto as cápsulas evoluíram e, principalmente, que as grandes empresas entenderam que há uma parcela de clientes que também evoluiu o sensorial e está buscando mais qualidade em seus cafés, sem perder a praticidade.

Cápsulas de café e o impacto ambiental

As cápsulas se popularizaram principalmente por causa de sua praticidade. Porém, a principal crítica sobre esse produto é o impacto ambiental negativo. Lá no início não havia uma programa para reciclar as cápsulas, feitas de plástico e alumínio, mas hoje esse cenário já é um pouco diferente.

Apesar da reciclagem das cápsulas ser ainda um pouco confusa, dá para notar que as pessoas estão pensando nisso, sim. Além de programas desenvolvidos pelas próprias marcas, como Dolce Gusto e Pilão, a Orfeu, por exemplo, desenvolveu uma cápsula de bioplástico, que demora cerca de quatro meses para se desintegrar em processo de compostagem. Há também quem transforme cápsulas em objetos de decoração e até bijuterias!

Outra opção são as cápsulas reutilizáveis, como a desenvolvida pelo Eco Reciclos. Esse assunto, na verdade, é um pouco polêmico por dois motivos: muitas pessoas do meu convívio que provaram não gostaram do resultado e porque usar uma cápsula reutilizável faz com que o conceito de praticidade se perca.

Sinceramente, não acho que seja um trabalho tão grande assim encher e depois limpar uma cápsula, considerando que estamos fazendo algo bom para a natureza. Já no sabor, não posso opinar porque infelizmente ainda não tive oportunidade de provar café extraído a partir de cápsula reutilizável.

Preço

Quando a gente fala de café especial, é muito comum ouvir reclamação sobre o preço, geralmente vinda de pessoas que ainda não compreenderam o valor desse tipo de bebida ou simplesmente porque não ligam para isso.

No entanto, parte dessas pessoas consome café em cápsula. Isso significa que elas estão dispostas a pagar entre R$ 200 e R$ 400 no quilo de café em cápsula, mas não querem pagar R$ 156 no quilo do W1 Wolff Café, por exemplo, que é de origem, teve perfil de torra desenvolvido e é café de alta qualidade.

Até entendo que a pessoa pode estar pagando pela praticidade, mas arrisco a dizer que, na maioria das vezes, ela nem faz essa conta. Engraçado, né? É como pagar parcelado com juros. De pouquinho em pouquinho a gente nem sente.

Ok, mas café em cápsula é bom ou ruim?

Café em cápsula é uma realidade e, seja você profissional da área ou coffee lover, não dá para fugir disso. A tendência é que esse mercado continue crescendo com cada vez mais qualidade. Isso é muito legal, porque teremos bons cafés no conforto (ou na correria) do nosso lar.

Isso não exclui o café coado feito com calma, o trabalho do barista e nem a cafeteria. Cada um tem sua função e o momento adequado para serem consumidos. São mais opções a serem exploradas, o que vai fazer com que o consumidor crie mais repertório e amadureça, forçando um desenvolvimento da área do café como um todo, o que é normal e essencial.

No meu ponto de vista, o café em cápsula ainda tem espaço para se desenvolver mais, incluindo nas questões ambientais, como comunicar com mais clareza ao consumidor seus projetos e criar programas realmente efetivos que mostrem seus resultados.

Porém, falando de qualidade, hoje a gente já encontra cafés bem melhores comparando com alguns anos atrás e a ideia é que isso melhore. No entanto, qualidade aliada à praticidade tem um preço. Cabe a cada um de nós se disponibilizar a pagar ou não.

Vocês também acham que os cafés em cápsula estão com mais qualidade? Como vocês descartam suas cápsulas?

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Foto: Depositphotos

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