Cafezinho na biblioteca

Outro dia vi uma lista de passeios de férias de um conhecido. Na verdade era um plano minucioso, com horários de chegada e saída de cada lugar, assim como os tempos dos deslocamentos. A princípio o critiquei, depois cheguei à conclusão de que, fora a exatidão dos horários, faço a mesma coisa.

Toda vez que viajo, levo na mala pelo menos um exemplar do meu livro e assim vou espalhando minhas histórias por aí. Se fizer uma estatística na ponta do lápis, cerca de um terço de todos os livros que lancei foram doados. Por respeito aos leitores que compraram, faço as doações para bibliotecas, escolas, livreiros e multiplicadores de leitura. Já recebi mensagem de um rapaz que cuidava de uma tia no hospital e que encontrou o meu livro por lá. Ele me disse que encontrou algum conforto naquelas páginas. E ai pode estar um dos motivos pelos quais escrevo.

Quando estou em férias, procuro agendar horários em bibliotecas e, em contrapartida, fico conhecendo lugares fantásticos, como a Biblioteca Joanina, da Universidade de Coimbra em Portugal.

Recentemente estive na Argentina e depois de um dia de passeio fisicamente exaustivo atrás de cafeterias – da minha listinha – faltava fazer o tour guiado na Biblioteca Nacional Mariano Moreno no finalzinho da tarde. Fomos recebidos pela professora voluntária Sra. Susana Jurado, de 87 anos (!). A senhorinha nos conduziu por uma visita de três horas passando por todos os andares da riquíssima biblioteca. Foi uma aula de etimologia, historia e cultura geral. Até esquecemos do cansaço.

Na sala de pesquisas da BN existe um café. Sim, ali mesmo, na sala de estudos, pertinho das mesas. Acontece que em nenhuma BN do planeta você pode retirar os livros de lá. Na unidade Argentina – que funciona até às 23h – você solicita a obra, ela é trazida de um andar climatizado, sem acesso e sem iluminação natural para evitar as traças e a umidade.

Você recebe o livro em uma área restrita, onde pode fazer suas anotações, de posse somente de um caderno e de uma caneta. Então você pode voltar para as mesas maiores, onde as pessoas fazem trabalhos individuais ou em grupo, movidos a café. “Caso alguém vire o copo de café sobre os materiais, só vai prejudicar a si mesmo”, explicou a “maestra jubilada”. Só não tomei um café ali, porque já havia ultrapassado a minha cota diária. E aí está o que eu precisava: um motivo para voltar lá.

Leia também:

Cápsula de @UmCafezinho – O que eles disseram…

“A biblioteca é o lugar onde começamos a nos conhecer”.

Luis Fernando Verissimo

 

Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Depositphotos

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