Campeonato Brasileiro de Baristas: Minha Experiência

No último final de semana, ocorreu o 16º Campeonato Brasileiro de Baristas, que garantiu ao campeão Léo Moço – tricampeão nacional – a vaga para disputar o mundial em Seul, ainda em Novembro deste ano.

Foto: Léo Moço no Campeonato de 2017 (Divulgação/BSCA)

Em resumo, o campeonato consiste em uma apresentação de 15 minutos. Cada competidor fala sobre o café que escolheu, faz a extração de 4 espressos, 4 bebidas iguais com leite e 4 bebidas iguais de assinatura, sendo uma para cada um dos juízes. Parece simples e, para alguns baristas mais experientes, pode até ser mais fácil. Para mim, foi bem difícil e eu vou contar brevemente a minha experiência para vocês entenderem mais sobre o processo.

Depois de definir o café que ia levar para competir, eu me preparei por quase três meses. Ficava treinando na cafeteria até mais tarde. Nos dias em que eu ia embora no horário, produzia alguma coisa em casa até tarde. Era o tempo todo pensando na minha primeira competição.

Fiz seis versões da minha bebida de assinatura e cinco receitas diferentes para a geleia de pimenta que a compõe. Foram vários testes com leites e centenas de espressos. Viajei com três amigos de São Paulo ao Espírito Santo só para conhecer a fazenda onde é produzido o café que eu competi. Fomos em uma sexta e voltamos no domingo, 14 horas de carro na ida e mais 14 na volta.

Foto: bebida de assinatura, com geleia de pimenta artesanal, abacaxi, raspas e suco de limão siciliano, água com gás, alecrim e espresso. (Cinthia Bracco)

Pensei em cada detalhe da minha apresentação e até canudo de inox eu arrumei na última hora para ter a certeza de que tudo fosse reaproveitável, reforçando a questão de sustentabilidade. Me apresentei vestida de Rey, do Star Wars, com o intuito de fazer uma metáfora. Para ser um bom barista é necessário muito foco, dedicação, estudo, concentração, equilíbrio… Tudo o que se aprende em um treinamento Jedi. Consegui fantasia, pensei nas músicas certas para cada momento, investi tempo e uma quantidade razoável de dinheiro.

Chegando lá, na hora H, nada saiu como eu esperava. Nos 15 minutos que eu tinha para preparar as estações, não consegui regular o espresso perfeitamente. Decidi me arriscar a tentar melhorá-lo ali, na frente do juízes, com o meu tempo correndo. Não deu certo e dali em diante eu me desestruturei. Uma coisa foi levando a outra e até xícara suja eu entreguei.

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Pela música, eu sabia que tinha estourado o tempo. Só depois de algumas horas é que eu lembrei das regras e percebi que eu estava desclassificada. Nada foi tão difícil quanto ler o feedback dos jurados nas folhas de avaliação. Ali estava tudo o que tinha acontecido.

Devo confessar que doeu saber que eu não consegui representar ¼ do que eu realmente era capaz, de mostrar o tanto que me preparei. As pessoas me dizem que é normal, que é meu primeiro campeonato, não tenho muito tempo de barismo, etc. Até pode ser. Agora, o que eu realmente sinto? É que isso não é pra mim.

Já me disseram que falo isso porque perdi ou então que minha opinião vai mudar daqui a um mês e até que estou fazendo um pouquinho de drama. A verdade é que podem dar o nome que quiserem, mas o que coloco aqui é o meu relato mais honesto. É claro que teve o lado bom. Conheci e revi pessoas incríveis. Aprendi com todo o processo, fiquei feliz de ver o esforço de todos aqueles baristas e até recebi alguns elogios. Contudo, entrar numa competição dessas, não faz parte do meu perfil. Descobri que prefiro investir em outros projetos relacionados ao café.

Quero deixar claro que não estou dizendo que as pessoas não devem entrar em campeonatos. Muito pelo contrário. Devem sim, seja para seguirem em frente porque a disputa estimula ou, assim como eu, para descobrir que não querem isso.

Foto: Arquivo Pessoal/Cinthia Bracco

A minha conclusão é de que esse campeonato é para os fortes. Realmente não é fácil e parabenizo cada um dos participantes por estarem lá, trocando experiências, mostrando suas habilidades e, de certa forma, se expondo para o bem e para o mal. Por outro lado, também há espaço para os “fortes” que não querem competir. O barismo no Brasil, ainda mais quando se trata de cafés especiais, é uma área nova e cheia de oportunidades a serem exploradas.

O campeonato mostra uma boa parte do empenho que está por trás dessa profissão, ainda pouco difundida, e isso é extremamente importante. Temos muito trabalho a fazer e diversos caminhos para trilhar. Tenho certeza que coisas extraordinárias ainda estão por vir. Que a força esteja com a gente. E com vocês. 😉

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Foto de destaque: Pixabay

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