Cancelamento

Ao longo da minha vida profissional trabalhei com vários tipos de perfis diferentes, sejam como colegas de trabalho, gestores ou os 28 estagiários que tive oportunidade de treinar. Poderia dizer: “trabalhei com todos os tipos de perfis”, mas a experiência diz que as possibilidades são inesgotáveis.

Um desses caras, era o Jorjão, sujeito criativo, caricato e rodado no mundo. De volta de uma de suas viagens, apareceu no escritório com uma máquina que fazia doses individuais de café, em uma época em que as “Nespresso” não eram conhecidas e tampouco acessíveis aos assalariados.

Uma vez pela manhã e outra à tarde, lá ia o Jorjão levar um café fresquinho para o nosso diretor. Os invejosos sofriam, sem chances de competição com aquele aroma.

Vez por outra, ele chamava um de nós para tomar um cafezinho. Um dia, colocou meio corpo pra fora da sala envidraçada e – sorridente – me chamou:

– Lamas! Hoje é a tua vez de tomar um café comigo!

Era um dia quente, nosso ar condicionado era precário e eu estava bem atribulado, com prazo apertado para entregar um serviço. Nem tirei os olhos do monitor e respondi:

– Obrigado chefe. Se fosse uma Coca-Cola bem gelada eu “ia”!

E segui montando a minha planilha.

Na manhã seguinte, um colega que sentava ao meu lado me chamou pra almoçar:

– Cara, tu viste o que fizeste ontem?

– Eu!? O quê?

– O Jorjão te chamou pra um café e tu recusaste.

– Mas “tava” calor e eu não ia tomar café…

– Bixo, tu não percebes as coisas né?

– O quê?

– Ele só chama lá no aquário quando vai falar alguma coisa séria, pra passar um sabão, pra dar um feedback, como ele diz…

– Ah! Então eu fiz bem em recusar, né?

– Não, cara! O “galego” foi chamado lá pra tomar o cafezinho e era pra falar de promoção…

Por várias semanas fui trabalhar alinhado, arrumadinho, esperando por uma conversa que nunca existiu.

Nem posso reclamar de ter sido cancelado pelo chefe e por ter ficado sem aumento em um ano em que tive excelentes resultados profissionais. Afinal, o chefe me chamou pra conversar e pelo jeito, fui eu que o cancelei.

Parafraseando Millôr Fernandes (1924-2013): Quando você comete uma besteira e se sente um perfeito idiota está começando a deixar de sê-lo.

Marcelo Lamas é o autor de “Papo no cafezinho” (Design Editora), disponível gratuitamente AQUI.

marcelolamasbr@gmail.com

@marcelolamas

Foto: Andrew Neel/Pexels

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