Carta de condolências

Embora escreva há mais de duas décadas, tenho dificuldade para fazer textos pessoais e intransferíveis, aqueles com sentimentos envolvidos, como homenagens de aniversários e de dia das mães.

Meses atrás, faleceu um cliente de uma das empresas que presto serviços. Fui acionado para escrever a carta de condolências. Antigamente havia um padrão de carta – fiz alguns desses – agora elas são customizadas.

Por sorte, conhecia o sujeito e fiz umas cinco linhas com os pesares. Também usei a técnica do reconhecimento de todas as virtudes – depois que a pessoa morreu.

Outro dia, me ligou a secretária de outra companhia, solicitando uma cartinha em homenagem póstuma ao pai falecido de um cliente. Ela não sabia o nome do homem, não sabia a causa mortis, tampouco a profissão. Quando a questionei, alegou que só tinha a informação sobre o falecimento do pai do Sr. Celso Alberto e que queria antecipar-se, deixando o documento pronto para o chefe despachar, assim que retornasse de uma reunião. Enviei a sugestão e a secretária proativa me ligou:

– Oi Marcelo!
– Oi Lucy!
– Obrigado pela carta. Tenho duas perguntas pra te fazer:
– Pode falar.
– São só essas três linhas mesmo?
– Sim, é isso! Não temos informações sobre o finado, se era operário, bancário ou professor? Se estava doente ou se foi mais uma vítima do transito…
– Ah! Tá bom!
– E a outra pergunta?
– Marcelo, o nome dele era Alberto? Como você descobriu?
– Deduzi.
– Deduziste?
– Sim. Se o nome composto do filho é Celso Alberto, e esta combinação não combina, certeza que o segundo nome foi uma auto-homenagem do pai dele.
– Acho que tu não és muito certo das ideias.
Rimos, nos despedimos e até hoje não sei o nome daquele falecido.

EM TEMPO:

Após os acontecimentos da crônica acima, o autor participou de um encontro de pessoas enlutadas (ONG Movimento Marcha do Silêncio). Espera ter melhor argumentação numa próxima carta de pêsames. Visite o site www.vamosfalarsobreoluto.com.br.

Parafraseando Mario Quintana no livro “A cor do invisível”:

Inscrição para um portão de cemitério
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!

Leia também:

 

Marcelo Lamas é cronista e só tem uma exigência póstuma: Pular a etapa do velório. Não quer deixar a última impressão de que “O café estava frio no velório do Marcelo…”.

@marcelolamasbr
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Facebook: @marcelolamasescritor

Foto: Pixabay

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