Tenho medo de coach

Antes de escrever “medo” no título desta crônica fui checar meu dicionário Aulete:

Medo: emoção que se sente diante de um perigo ou ameaça.

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A colocação me pareceu correta, pois é realmente o que sinto quando vejo um coach por perto.

Não quero generalizar, mas tenho observado muita fluência para falar de quaisquer assuntos, passando por cima de profissionais especializados e experientes, dando a impressão de que resolvem qualquer problema, de todas as naturezas.

Quando publicamos a recente crônica “Não existe viagem perdida” em @umcafezinho, falamos sobre o hábito de ir em busca de novas cafeterias e uma leitora indagou: “Qual tipo de café vocês tomam?”.

Expliquei que era o pretinho básico – ou com leite, nada daqueles cafés cheios de “gororebas”, os que costumamos chamar de “não-cafés”.

Acontece que minha resposta não foi tão simples assim. Redigi um textão no bloco de notas e colei no comentário.

Depois fiquei com a consciência pesada, me sentindo meio coach.

Semana passada estava num restaurante com mesas muito próximas e sentou-se ao meu lado um sujeito que deixou a vida convencional e virou coach.

Eu só o cumprimentei e não olhei mais pra ele. Depois, fazendo uma analogia com outras situações de relutância social minha, matei a charada:

Há um ano, perdi uma votação caseira sobre a adoção de um pet. Como tive bronquite na infância, não podia ter bicho, nem tapete, nem cortina lá em casa.

Está escrito na cartilha que guardo até hoje. Então, partimos para resgatar uma felina cinza do OLX, a Berenice.

Desde o dia que ela chegou lá em casa, não consigo fazer nada sozinho. Nem tomar banho.

Não pude mais comprar minhas – preferidas – camisas pretas. Dizem que a gatinha me escolheu.

Imagine se me acontece o mesmo convivendo com um (uma) coach. Depois de fazer a primeira consulta não conseguir fazer mais nada sozinho?

Precisando de alguém para me ajudar a resolver um problema que eu nunca – nem – tive.

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”.

@marcelolamasbr

marcelolamasbr@gmail.com

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Não existe viagem perdida

Já escrevi sobre a mania lá de casa de sairmos a procura de cafeterias. É um tipo de passeio divertido porque já estamos calejados e tentamos não criar muitas expectativas, pois sabemos que os ambientes nunca serão como nos anúncios e fotografias do Instagram.

Falando em fotografias, sempre tentávamos achar o ângulo certo para pegar aquela fumacinha saindo do @umcafezinho bem quente. 

Por anos tive certeza que era a minha falta de qualificação para manusear a Nikon, embora tivesse lido todo o manual da câmera. Depois descobrimos através do programa da Paula Varejão – “Tá na hora do café” – Canal Mais Globosat – que a fumaça perfeita das fotos de café era proveniente de um cigarro escondido atrás da xícara. Um truque dos profissionais.

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Num inverno bem gelado, anos atrás, depois dos nossos expedientes, partimos para uma viagem até Curitiba. A meta era conhecer uma cafeteria no aeroporto Afonso Pena.

Se não tivéssemos imprevistos no trajeto de 180 km, daria tempo de apreciar o café da loja de uma marca bem famosa no setor. Deu certo.

Estacionamos, passamos bastante frio – o vento estava congelando até nossas almas – e entramos no saguão. Andamos nos dois andares e não avistamos a loja.

Não teve jeito. Tinhamos que perguntar no serviço de informações, pois já estávamos pensando que eu fora precipitado, que a loja nem havia sido inaugurada ou seria em outro aeroporto. Bem, cada um de nós foi montando a sua teoria.

Depois que parei de relutar – não gosto de pedir ajuda – fui me informar.

Sim! A loja já estava inaugurada.
Sim! A loja era ali naquela estação aeroviária.
O problema é que ela ficava lá na sala de embarque do aeroporto. E para acessa-la só com bilhete de voo em mãos. E nós não estávamos viajando para lugar algum.

Restou tomar nosso café num lugar escuro, com aquelas mesinhas de mármore frias e engorduradas. Sem glamour e sem fotografias para compartilhar. O café estava bom e bem quente – por isso aquela viagem não pode ser considerada “perdida”, afinal, na manhã seguinte, tomamos café da manhã em duas padarias diferentes. Comemos o salgado em uma e o doce dois quilômetros adiante. E bebemos um café em cada loja, obviamente.

Marcelo Lamas, cronista. Autor de “Indesmentíveis”, entre outros.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Depositphotos

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Vou morrer!

O título desta crônica não é novidade para ninguém. O dia de cada um vai chegar, só que no meu caso, já sei o motivo. E não vai demorar. 

Explico. Minha mãe é da área da saúde, logo, desde criança não tive muita folga neste quesito. Para qualquer dor de garganta ou sintoma forte de gripe não tinha negociação: era uma injeção de Bencetacil 1200 UI. Justamente a mais temida – por ser a mais dolorosa. Hoje em dia o uso é restrito aos hospitais.

Como sou seguidor da hierarquia familiar, toda vez que minha mãe perguntava como estavam meus exames, lá ia eu fazer um check-up básico. Certa vez, resolvi organizar minha vida, fui juntar meus exames e percebi que tinha feito quatro exames de sangue em um ano, sem ter motivos para isso.

Por sorte, conheci um clínico geral que me aconselhou a fazer o check-up anualmente e no mês do meu aniversário, assim não teria como esquecer.

Em maio passado, fui para a consulta e o médico sugeriu fazer uma endoscopia, “só pra ver como está”, disse ele; não havia incômodos ou reclamações minhas sobre o aparelho digestório.

Fiz todos os exames e a tal endoscopia indicou sinais de gastrite. Comentei com meus amigos sobre o assunto – a sabedoria popular sobrepõe-se aos especialistas – e eles começaram a me alertar: “VAIS TER QUE PARAR COM OS CAFÉS!”. Como foram vários os comparsas sinceros comigo, conclui: Vou morrer! 

Vai ser de desgosto! 
E vai ser logo.

Em tempo: Antes da publicação deste texto, o cronista consultou uma gastroenterologista e a doutora recomendou não exagerar com café, chá preto, frituras, comidas pesadas e álcool. Ninguém proibiu nada e nem perguntou ao paciente sobre vícios cafeínados, colunas em site sobre café ou expedições em cafeterias.

Cápsula de @umcafezinho – O que eles disseram: “Não vou a médicos. Eles descobrem doenças na gente”. Nelinho Euzébio

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis.

@marcelolamasbr
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