Açúcar ou adoçante?

Na semana passada trabalhei em três estados diferentes: Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Na maior parte do tempo, dentro das usinas de açúcar.

Na maioria delas, aquele @umcafezinho corporativo já vem adoçado, com açúcar, logicamente – vide crônica publicada neste espaço sobre esta modalidade de café.

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Como treinei meu paladar para tomar o pretinho sem açúcar, faço um esforço e tomo o pretinho adocicado, quando não há opção.

Quando tenho duas opções: açúcar ou adoçante? Eu fico com a terceira: “Não precisa. Obrigado”.

Estando sozinho, passa batido. Mas se estou perto do Dr. Flávio, que é um engenheiro, professor, cientista e consultor – uma autoridade respeitada no setor sucroenergético – ele me repreende: “Rapaz, você tem que fazer como eu: colocar dois sachês de açúcar, para ajudar os usineiros”.

Ele fica rindo e eu fico vermelho. Porém, enquanto o professor completava a sua frase, eu tratava de secar a xícara: “Já era doutor, agora tomei sem açúcar”.

Nesta jornada recente, consegui achar uma cafeteria que ficava aberta à noite e que servia Illy. Fui até lá.

Fiz uma foto da xícara e coloquei no meu “story”. Um amigo comentou: “Tenho uma curiosidade. Quantas cafeterias e quantas xícaras de café você já conheceu e ingeriu?? #espanto”.

Fiquei sem resposta. Realmente não sei.

Porém, se eu fizesse a mesma pergunta ao Dr. Flávio – um senhor quase septuagenário – ele pegaria uma caneta e um guardanapo, faria umas contas e responderia em 15 segundos, inclusive com a quantidade de sachês de açúcar. Temos que respeitar esses caras mais velhos.

Cápsula de @umcafezinho – O que eles disseram…

“Dize-me com quem andas e te direi se vou contigo”. Barão de Itararé

 

Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Depositphotos

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Café com filho de imigrantes argelinos, que vive em Paris

Uma das vantagens de trabalhar na Europa respeitando o horário do Brasil é que eu podia acordar mais tarde. Isso no inverno ajuda bastante. Nessa época, começar a trabalhar às 9h do Brasil significava estar online à partir de meio-dia na Itália. Era isso que eu fazia e aí fechava a lojinha mais tarde, mesmo que estivesse sempre com o WhatsApp à mão para possíveis emergências.

Nesse dia, eu estava tomando café da manhã por volta de 11h, no hostel onde morava em Milão. Eis que um moço pede licença para se sentar na mesa compartilhada e segue o protocolo: “De onde você é? Qual é o seu nome? O que você faz?”.

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Eu retribuí com as mesmas perguntas e nossas respostas renderam longas conversas durante os dois dias em que ele esteve lá a trabalho, ou de manhã ou na hora do jantar.

Khalil* tem 30 anos, é francês, filho mais novo de imigrantes argelinos, morador da região periférica de Paris e funcionário de uma empresa de trens. Ao me responder, ele foi logo justificando:

– Ah, é que muita gente acha estranho quando eu digo que sou francês com esse nome.

Eu, que sou resultado de uma mistura de imigrantes árabes, italianos e portugueses, além de ter sangue de índios também, logo fiquei imaginando a história dele. Coisa de jornalista, pode ser… O que será que o tinha levado até ali naquele café da manhã?

Sabe-se que a relação entre França e Argélia é delicada e cheia de conflitos históricos, reconhecidos inclusive pelo atual presidente francês, Emmanuel Macron, em discurso.

Entre algumas xícaras de café de manhã e outras taças de vinho à noite, Khalil me contou que os pais se mudaram para Paris há mais de 30 anos em busca de uma vida melhor.

Por mais que Paris seja uma cidade dominada por imigrantes, imagino que não seja fácil. O tom de desabafo com que ele me contou entregava um pouco desse sentimento de segregação.

Ele nasceu na França, mas não se sente um francês de fato. Também disse não se sente argelino ao visitar o país de origem dos pais, os tios e os primos durante as férias:

– Pode parecer estranho o que vou dizer, mas, em muitos momentos, me sinto sem pátria. Parece que não sou de lugar nenhum.

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O que eu senti após ouvir essa frase – que nunca vou esquecer e que deixei anotada no bloco de notas do celular – é gratidão ao Brasil, que acolheu aos que vieram antes de mim quando eles buscaram aqui (e encontraram) a mesma vida melhor que os pais de Khalil.

Mesmo com cidadania italiana reconhecida, falando o idioma e amando a Itália, ali eu sentia um pouco disso. Só não sem pátria porque sou e me sinto brasileira.

A história dele é como a de muitos brasileiros, é como a minha. Triste é quando a gente se lembra disso quando quer o reconhecimento da cidadania para “fugir do Brasil”, como muitos afirmam ao mesmo tempo em que destilam xenofobia (escancarada ou velada) ao se referir à presença de imigrantes aqui no nosso país.

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Khalil foi uma aula e tanto para mim. Sobre agradecer por ter alternativas. Por ter possibilidade de dizer e sentir que tenho uma pátria, mesmo com todos os seus problemas. Isso todo lugar tem. A gente só esquece e, por esquecer, reclama quando deveria agradecer.

Escrevi esse texto no Aeroporto de Guarulhos, tomando café, na manhã de 15 de abril de 2018, quando retornei ao Brasil após 5 meses vivendo na Europa.  

 

* Nome fictício para preservar a identidade da pessoa.

Fernanda Haddad é idealizadora e editora do projeto @UmCafezinho. Formada em jornalismo, tem uma empresa de conteúdo e estratégia digital. Trabalhou no Grupo Bandeirantes por quase 5 anos, gerenciou o conteúdo do Universo Jatobá nos primeiros 2 anos de portal e trabalhou em outros projetos de Content Marketing para grandes marcas, em startup. Também é locutora e apaixonada por bulldogs e chocolate. Nas horas vagas, toma café, lê, vê um filme ou outro e escreve um pouquinho. Fernanda escreve às terças-feiras.

Foto: Depositphotos

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Gisele

Há alguns meses comecei a programar minha participação na 64ª Feira do Livro de Porto Alegre. Em meados de junho, cheguei em casa avisando: “Olha, vamos ter somente um dia e meio na feira do livro, teremos que deixar a expedição cafezeira para outra ocasião”. Minha namorada respondeu: “Tudo bem, Marcelo, vamos aproveitar a feira”.

Tenho várias listas no bloco de notas, intituladas com nomes de cidades com um monte de lugares – principalmente cafeterias – a serem explorados oportunamente. A de Porto Alegre era grande. Mas nem fiquei sugerindo nada, já que eu mesmo tinha inventado a regra “foco na feira”.

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Na semana passada, dias antes de embarcar para o RS, fui olhar o que estaria acontecendo naquele final de semana, e tive que mudar o discurso, com a namorada: “Eu estava olhando o que fazer lá em Porto Alegre, durante a feira…”. Ela emendou: “Marcelo, não íamos só na feira?”.

Não toquei mais no assunto. Aos poucos fui revelando o novo plano. Chegamos em POA e fomos de mala e cuia (literalmente) direto ao Quiero Café, uma cafeteria que também serve almoço, incluindo uma deliciosa “A la minuta”, prato tradicional do sul do mundo, cujo sabor estava a altura da imagem do cardápio. E o cafezinho espresso – para acompanhar – era cortesia.

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Dali fomos direto para a exposição “Museu do futebol na área”, uma amostra itinerante. Para minha sorte, a guria parecia mais interessada do que eu. O numero de fotos que ela fez me convenceu disso.

Depois, cumprimos o roteiro inicial, de banca em banca, fuçando no que nos interessava e vez por outra, colocando mais um volume na mochila. Visitamos uma exposição incrível em homenagem ao Fernando Pessoa, assistimos uma palestra cuja escritora, não parecia a mesma pessoa da foto de divulgação – a gente também envelhece e não percebe. No meio da feira havia um carrinho de pipoca que também servia café moído na hora.

Confira aqui:

No dia seguinte, antes de voltar pra casa, passamos em um shopping em busca de @umcafezinho. Escolhemos o que tinha também uma livraria que nos interessava. Percebemos que a segurança estava reforçada. Havia uma fila enorme de pessoas com livros para autografar. Procurei ver de quem seria a obra. Era o livro da Gisele. Não sei quantas “giseles” você conhece, lá no RS só tem uma. Ela não precisa de sobrenome. Se quiser confirmar, olhe lá no @gisele.

 

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”.
@marcelolamas
marcelolamas@gmail.com

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O que aprendi ao tomar café com americano desconhecido

Eu estava em Milão. Tinha reservado pelo menos 20 dias para ficar num hostel: o Ostello Bello Grande, um dos lugares mais animados da cidade, onde chegam e vão embora pessoas do mundo inteiro, a todo momento. Mas, antes de contar sobre o café com americano, preciso voltar um pouquinho.

Um dias antes, o meu celular havia sido furtado ali dentro, numa das mesas do bar, que é aberto para não hóspedes na hora do famoso aperitivo italiano (o nosso happy hour). Dei bobeira. Ficava tanto tempo ali, ou trabalhando ou confraternizando, que talvez tivesse achado mesmo que estava em casa, literalmente.

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Conferi a câmera de segurança e fiz boletim de ocorrência, prova cabal de que finalmente eu estava conseguindo me comunicar em italiano.

Eu precisava muito do celular para trabalhar, o meu era novinho, 5 meses de uso. Era o momento certo de praticar tudo aquilo que eu vinha lendo nos livros de autoconhecimento. Não queria deixar que sentimentos ruins me tomassem.

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E pensei: “Confia, menina. Tudo acontece por uma razão. O que é que você tem a aprender com isso?”.

Me permiti sofrer por 5 minutos e soltei.

No dia seguinte, eu estava sentada trabalhando com o computador na mesma mesa em que o celular foi furtado, no mesmo lugar.

Eis que surge um cara para fazer seu check-in. Ele sentou na minha frente para preencher o formulário, colocou o seu welcome drink de um lado e seu celular de outro. O aparelho era idêntico ao meu, o mesmo modelo.

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Ele puxou conversa, perguntando o que eu tava fazendo ali, de onde eu era, etc. Todo mundo fazia cara de espanto quando eu dizia que estava viajando com passagens só de ida, inclusive ele, que é fotógrafo e estava numa jornada parecida.

Dei o alerta:

– Olha só… Fica atento com seu celular. Ontem, levaram o meu aqui nessa mesa.

Eu tinha contado um pouco sobre o meu trabalho, sobre como fazia para trabalhar viajando, e continuei no computador enquanto ele acabava de fazer o check-in no balcão da recepção.

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Peguei um café no bar, ele voltou com um café na mão também e me disse:

– Eu imagino que o celular esteja te fazendo muita falta, até pelo seu tipo de trabalho. Eu trouxe um aparelho extra, mais velhinho, de backup. Quer ficar com ele? Eu deixo com você.

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Eu fiquei assustada, achei que não tinha entendido direito. Afinal, quem é que oferece um iPhone para uma pessoa que conheceu há 5 minutos? Ele continuou:

– Eu vou ficar aqui por uns dias e, no máximo, vou visitar a região, tudo aqui perto. Mas, volto e pego o celular. O que acha?

Eu continuei sem resposta, incrédula. E ele:

– Bom, pense aí… Eu vou deixar minha mala no quarto e sair para comer. Quando eu voltar, você me diz.

O celular é importante mesmo para quem trabalha com internet, os meus clientes contavam comigo, tinha entregas a fazer.

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Na Europa não existe essa coisa de parcelar em 12x. Eu estava esperando receber de um trabalho e ainda ia ter que enviar o dinheiro da minha conta do Brasil para comprar um aparelho novo.

Aceitei. E fiquei emocionada depois, sozinha. Como é que pode encontrar a solução no mesmo lugar de onde surgiu o problema num intervalo de menos de 24 horas?

O gesto de gentileza desse garoto americano é algo de que nunca mais vou me esquecer. E digo mais: se eu não tivesse ficado no pé dele, ele nem teria voltado para buscar o celular. Aqui aprendi um pouco mais sobre desapego.

E quer saber sobre o que mais aprendi (na prática)? Confia! O universo pode te surpreender entre um café e outro.

 

Fernanda Haddad é idealizadora e editora do projeto @UmCafezinho. Formada em jornalismo, tem uma empresa de conteúdo e estratégia digital. Trabalhou no Grupo Bandeirantes por quase 5 anos, gerenciou o conteúdo do Universo Jatobá nos primeiros 2 anos de portal e trabalhou em outros projetos de Content Marketing para grandes marcas, em startup. Também é locutora e apaixonada por bulldogs e chocolate. Nas horas vagas, toma café, lê, vê um filme ou outro e escreve um pouquinho. Fernanda escreve às terças-feiras.

Foto: Depositphotos

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Passagem só de ida e muito café durante 5 meses

Não tinha prazo definido. Tinha só uma vontade de viver um dia de cada vez, sair do automático, estar no presente. Foi por isso que resolvi comprar passagem só de ida para a Itália e viver na Europa. A ideia era morar em Milão. Eu gosto do ambiente urbano, a locomoção dali para outros lugares era mais fácil, na minha visão. A facilidade com o idioma e a cultura do café ajudaram muito na escolha também.

Eu já tinha morado numa pequena cidade na Itália para fazer o meu processo de cidadania italiana. Nessa época, eu já tinha começado a trabalhar por conta própria. Era só colocar o computador na mala e ficar atenta ao fuso e aos prazos dos clientes.

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Com o passaporte europeu em mãos, voltei para o Brasil para mais 8 meses até chegar a hora de comprar passagem só de ida e viver assim literalmente – só comprando passagens de ida mesmo – por 5 meses para vários lugares, entre Itália, França e Suíça. Eu nunca sabia o dia de ir embora. Achava uma promoção ou uma oportunidade e ia. Vivi intensamente um dos períodos mais especiais da minha vida, com muitos cafés. Muitos mesmo.

Como consegui comprar passagem só de ida durante 5 meses?

Essa coisa de comprar passagem só de ida parece fácil e até coisa de filme, mas não é bem assim, especialmente quando você ouve as seguintes frases de TODOS os lados:

Ah, mas tendo dinheiro é fácil. Só tendo muito dinheiro para sair trabalhando e viajando assim.  

Claro que é preciso ter o mínimo de planejamento financeiro, mas você está enganado se pensa que precisa ser rico para realizar. No meu caso, o planejamento foi longo. Tudo começou para ir para Itália com passagem de ida e volta para fazer a cidadania. Fiquei lá por 3 meses na casa de uns primos, que me ajudaram muito (se você já tentou fixar residência na Itália para começar o processo, sabe do que eu estou falando).

Para isso, saí do apartamento onde morava com uma amiga e vendi tudo o que eu tinha lá. Só fiquei com as roupas e um saca-rolhas que eu adoro. Desapego total! Fui para a casa dos meus pais, comecei a guardar o dinheiro que antes ia para o aluguel e, passado um tempo, pedi demissão do emprego que já não me fazia feliz – importante reforçar que fiquei nele até conseguir cumprir o mínimo da meta financeira.

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Ainda lá na Itália – já considerando esse retorno sem prazo que durou 5 meses -, fiz economia e voltei para o Brasil com dinheiro. Aí, foram mais 8 meses no Brasil, sem saber se eu ia ou não me jogar nessa aventura. Detalhe: tinha deixado minhas roupas de inverno todas na Europa. Inevitavelmente, eu precisaria voltar pra buscar (ou pra ficar) em algum momento.

Você vai ganhar em real e gastar em euros?

Sim. O estilo do meu trabalho me permite atuar remotamente. Lidar com as variações de câmbio fez parte do pacote de escolhas de vida. Se você quer tentar, isso já tem que estar previsto de alguma forma nos seus gastos fixos mensais. O seu estilo de vida também vai impactar no montante necessário.

Eu cheguei a fazer entrevista para trabalhar por pelo menos meio período como barista ganhando em euros (isso foi no final dos 5 meses e eu acabei decidindo voltar para o Brasil por mil motivos que não vêm ao caso).

Ah, mas você tem família e amigos morando lá.

Tenho, mas isso não significa que vou me mudar de mala e cuia para a casa das pessoas. É importante ter tato. Quando você viaja nessa vibe, não quer se prender muito. O custo de viver assim precisa compreender os gastos com moradia (aluguel de quarto, de apartamento, hotel, Airbnb, bed and breakfast ou hostel), transporte, alimentação, entretenimento e imprevistos (sim, eles podem acontecer! Por exemplo: roubaram meu celular em Milão e eu precisei comprar outro. Na Europa, não tem essa de parcelar em 12x).

Ah, mas você tem passaporte europeu. Assim é fácil. 

Isso ajuda (e muito!) na hora de comprar passagem só de ida. Ajuda a entrar nos países sem muita burocracia e a ficar o tempo que desejar. Mas, é bom ter em mente que você continua sendo tratado como imigrante, é fato. Chegando do Brasil em Milão, por exemplo, mesmo com passaporte, já fui parada e sabatinada pela polícia por pelo menos 30 minutos.

Eu e meu computadorzinho rodamos. A cada dia, o escritório era uma cafeteria diferente. Trabalhei em inúmeras cafeterias pelo caminho, tomei muito café com pessoas incríveis e que talvez eu nunca mais veja (vou escrever sobre as mais interessantes aqui), dormi em quartos compartilhados… Andei, andei muito.

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Do Brasil, fui com duas malas grandes sem necessidade. Para viajar, usei apenas uma mala pequena e uma mochila. Era tudo o que eu tinha nesse tempo e muito mais do que eu precisava. Em resumo, não é dinheiro. São suas prioridades que vão te fazer viver uma experiência incrível. Planejar não é fácil, desapegar muito menos, mas transforma… Como transforma.

Você já viajou assim ou já pensou em comprar passagem só de ida para algum lugar? Compartilhe aqui comigo, eu vou amar saber. 

 

Fernanda Haddad é idealizadora e editora do projeto @UmCafezinho. Formada em jornalismo, tem uma empresa de conteúdo e estratégia digital. Trabalhou no Grupo Bandeirantes por quase 5 anos, gerenciou o conteúdo do Universo Jatobá nos primeiros 2 anos de portal e trabalhou em outros projetos de Content Marketing para grandes marcas, em startup. Também é locutora e apaixonada por bulldogs e chocolate. Nas horas vagas, toma café, lê, vê um filme ou outro e escreve um pouquinho. Fernanda escreve às terças-feiras.

Foto: rawpixel on Unsplash

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Fake news

Nem tinha eu nascido direito e já tinha um primeiro causo para contar. Diz a lenda que minha mãe foi para a maternidade no carro da funerária, o único por perto e à disposição. Ou seja, a coisa já começou invertida, o que costuma ser o último veículo de todo mundo, aquele que não importa a marca, a cor, o ano ou o modelo, foi praticamente o meu primeiro.

Adiante, houve uma época da minha infância em que uma das minhas funções era ler a seção de necrologia do jornal para minha avó Alice. Uma vez por semana, eu pegava a organizadíssima agenda telefônica dela e pescava lá dentro o nome completo de uma de suas amigas. Depois, era só abrir o jornal e substituir o nome na notícia.

A vovozinha reagia rápido – e alto: “Morreu a Duduca”. Embora eu tivesse dito “Olga Caruccio”, ninguém daquela geração era chamado pelo nome de batismo. Depois ela começava a rir, pois não tinha como um guri de 12 anos enganar uma comerciante de 72. Até porque ela sabia de cabeça a idade das “migas” e nunca fechava com o que eu lia. E caso uma delas morresse a notícia chegava antes do impresso. Mas toda semana eu tentava aplicar o golpe.

Recentemente mudei de endereço e fui morar ao lado do cemitério. Toda vez que passo na calçada, não resisto a tentação de ler o painel de LED que mostra o nome dos(as) falecidos(as). E lembro do bom humor da minha avó numa longínqua manhã de quinta-feira (#tbt) em que levantei os dados completos da Tusnelda, digo, da dona “Zilda Doceira” e marquei um pontinho na batalha das fake news com a vovozinha.

Já deixei muito bem registrado no meu testamento – crônicas têm valor legal – que não quero saber de velório. Até já falei que era para não ter ninguém desmentindo minhas histórias, mas na verdade, não quero que saiam de lá reclamando do café, ou dizendo que estava frio. Até hoje, nunca vi alguém sair desses lugares elogiando alguma coisa, a não ser alguma prima que era uma criança desajeitada e que virou um mulherão. Ou o moleque espinhento que ninguém dava bola e que agora as mina pira no rapazote.

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CÁPSULA DE UM CAFEZINHO – O que eles disseram…

O velório é um defunto cercado de piadas por todos os lados”.

Max Nunes

 

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”, entre outros. O seu bisavô português Manoel Martins, tinha uma fita preta que costumava ser usada para comunicar falecimentos para a vizinhança. Vez por outra, ele escolhia um amigo e colocava a fita na frente da casa do sujeito, sem motivo, só pra ver a confusão.
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Foto: Depositphotos

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Na mesa ao lado

Anos atrás estive em uma rede de restaurantes durante uma campanha publicitária, apelidada de concurso cultural. Era um convite para que os frequentadores ouvissem histórias nas mesas ao redor e que depois, as compartilhassem nas redes sociais usando uma hastag. E o prêmio? As mais legais “poderiam” ser reproduzidas nas páginas do restaurante.

Num primeiro momento achei estranho ir a um lugar para ficar ouvindo a conversa de outrem, principalmente se estivesse acompanhado. Seu par se acharia desinteressante ao vê-lo com as orelhas esticadas para a conversinha ao lado.

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Acontece que no nosso caso, éramos uma estudiosa do comportamento humano e um cronista. Combinamos de ouvir o que vinha da mesa da direita, onde havia outro casal. A conversa era impublicável. Pelo menos aqui neste espaço. Não fez falta. Não pretendíamos participar do “concurso”.

Daquele dia em diante, toda vez que frequentamos cafés – que costumam ter mesinhas coladas – procuramos nos concentrar nas nossas conversas. Mas vez por outra aparece um tema interessante nos arredores e assim, fazemos aquilo que chamamos de observação social. Nem sempre funciona. Quando o café chega à mesa, nossa atenção se volta para a xícara e já nos perdemos da história ao lado.

Em minha defesa, como contador de histórias, sigo a tese do Luiz Antônio Assis Brasil, autor de “A margem imóvel do rio” : “Um escritor não depende de uma súbita inspiração, mas, sim, de um estado permanente de atenção ao que está a sua volta”.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis.
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A mão boa

Já falei neste espaço que diariamente passo na padaria depois do expediente. O lugar é famoso pelo pão ciabatta, mas ali também é servido o melhor espresso da cidade, na minha opinião.

O dono do lugar é o tio Carlinhos. Ele não é meu tio, nem de ninguém que eu conheça, mas o seu jeito simpático fez a alcunha se espalhar entre os frequentadores da padaria, que sempre ocupam as mesmas mesas, lugares e horários, coisa de cidade pequena. Os atenciosos atendentes já sabem os nomes dos clientes, no meu caso, colocam o nome da minha namorada na comanda, mesmo quando estou sozinho.

Antes de ser um cafeólatra – e cronista do @umcafezinho – jamais acreditaria no que vou dizer: poderia estar vendado e mesmo assim saberia quando fora o tio Carlinhos que tirara o café da máquina.

No começo da semana, estive com uma tosse que não passava. Como bom brasileiro optei primeiro pela automedicação com xarope fitoterápico que curava todo tipo de doença – inclusive o mau hálito e dentre os seus muitos ingredientes tinha limão bravo, sucupira e assa peixe na fórmula. Como a tosse insistia fui ao hospital (medicação na veia, nebulização, raio X) e sai de lá com uma lista de remédios para tomar por alguns dias.

Ontem, quando estava saindo da padoca do tio Carlinhos, dei uma tossida e ele sensibilizado me entregou um bilhetinho com uma receita caseira: beterraba + cebola roxa + açúcar.

O médico tinha recomendado evitar tomar qualquer xarope, porque poderia estimular a tosse. Só que a minha crença foi maior no bilhete que passou pela mão do Carlinhos do que na alopatia receitada.

A tosse passou. Nunca saberei quem contribuiu mais. Talvez tenham sido os 8 espressos do Carlinhos que tomei nos últimos dias.

Cápsula de @UmCafezinho:

“A única maneira de se conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer”.
Mark Twain

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentiveis”.
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marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Tom Holmes / Unsplash

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Dia Internacional do Café: ao café, com amor

No Brasil, o Dia Nacional do Café é comemorado em 24 de maio. Nos Estados Unidos é 29 de setembro. Cada país tem o seu dia do café.  Para unir as celebrações pelo mundo, a Organização Internacional do Café definiu o dia 1 de outubro para comemorar com seus membros de todo o planeta o Dia Internacional do Café (#InternationalCoffeeDay). Neste ano, a campanha chama a atenção para a importância das mulheres em qualquer parte da cadeia do café.

Em seguida, compartilho com você a minha cartinha ao café:

Ao café, com amor

Você faz todo bate-papo ficar mais interessante, seja com um velho amigo ou um amigo novo.
Você une as pessoas. Até mesmo aquelas que não gostam de você participam do momento.
Você é meu maior companheiro nos momentos necessários de pausa e solitute.
Você me lembra diariamente da importância de ter momentos de descanso no meio do dia.
Você me dá energia. Depois dos nossos encontros, fico revitalizada.
Gosto de ler na sua companhia. Para escrever, você me ajuda a ter inspiração.

Você é o primeiro pensamento do meu dia e talvez seja o último também porque já durmo pensando no café da manhã. Carlos Drummond de Andrade disse que isso é amor. Bem, se for assim… Eu te amo. Parabéns pelo seu dia e que tenhamos muitos desses para comemorar juntos!

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Vamos tomar um cafezinho?

Um dia eu me perguntei: o que eu faria da vida se não precisasse nunca mais me preocupar com dinheiro? Esse questionamento ainda existe e foi através dele que eu resolvi abrir o @umcafezinho no Instagram para compartilhar com o mundo todo aqueles lugares onde eu ia tomar café, todos os cafés que tomo em casa. Falei um pouco mais sobre isso aqui.

Foto: umcafezinho.com.br ©

Como você vai comemorar o Dia Internacional do Café (#InternationalCoffeeDay)? Conte nos comentários. Gostou da minha cartinha ao café? Quero saber a sua opinião. Mais novidades sobre o dia de hoje, acompanhe pelo Instagram @umcafezinho. Espero vocês!

Foto de destaque: Depositphotos

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Tem café nas eleições?

Há duas décadas precisei mudar de estado por conta de uma oportunidade de trabalho. Era um ano de eleições e fui me informar acerca da justificativa (de ausência) eleitoral. Basicamente, você só precisava ir até uma agência dos Correios no dia da eleição. Isso mesmo, só lá que era possível se justificar.

Acontece que nas cidades pequenas só tem uma agência central. A fila era enorme. Digo, as filas, porque era necessário entrar primeiro em uma, onde você comprava (R$) a justificativa. Depois era só preencher o documento e entrar em uma outra fila e, de fato, se justificar.

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Passadas as primeiras eleições, já conhecia todos os forasteiros do condado, incluindo as meretrizes, afinal, elas dificilmente trabalham em suas cidades de origem. Como ficaria as reputações das famílias?

Assim que resolvi transferir meu domicílio passei a ser chamado para trabalhar nas eleições. Só achei ruim quando recebi a convocação. Logo depois do primeiro expediente já percebi a importância de participar do processo e me senti um cidadão de verdade.

No próximo mês estarei lá novamente. Por volta das dez horas, o delegado do prédio, diretor da escola, vai passar de sala em sala, avisando: “O café está pronto lá na cozinha”. E é nessa hora, que saio correndo, deixando a urna eletrônica para trás e aos cuidados dos outros mesários. Pouco importa a origem do café, a torra, a moagem ou o método de preparo. O que importa é quebrar a abstinência e esperar o sujeito passar novamente lá pelas três da tarde.

CÁPSULA DE UM CAFEZINHO – O que eles disseram…

“O que mantém nossa fé na democracia representativa é a esperança, seguidamente frustrada mas sempre renovada, de que os bons prevalecerão sobre os ruins”.

Luis Fernando Verissimo

 

Marcelo Lamas é cronista e presidente de mesa na seção 124 – 87a zona eleitoral/SC. Autor de Indesmentíveis.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Tim Arterbury on Unsplash

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