Não existe viagem perdida

Já escrevi sobre a mania lá de casa de sairmos a procura de cafeterias. É um tipo de passeio divertido porque já estamos calejados e tentamos não criar muitas expectativas, pois sabemos que os ambientes nunca serão como nos anúncios e fotografias do Instagram.

Falando em fotografias, sempre tentávamos achar o ângulo certo para pegar aquela fumacinha saindo do @umcafezinho bem quente. 

Por anos tive certeza que era a minha falta de qualificação para manusear a Nikon, embora tivesse lido todo o manual da câmera. Depois descobrimos através do programa da Paula Varejão – “Tá na hora do café” – Canal Mais Globosat – que a fumaça perfeita das fotos de café era proveniente de um cigarro escondido atrás da xícara. Um truque dos profissionais.

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Num inverno bem gelado, anos atrás, depois dos nossos expedientes, partimos para uma viagem até Curitiba. A meta era conhecer uma cafeteria no aeroporto Afonso Pena.

Se não tivéssemos imprevistos no trajeto de 180 km, daria tempo de apreciar o café da loja de uma marca bem famosa no setor. Deu certo.

Estacionamos, passamos bastante frio – o vento estava congelando até nossas almas – e entramos no saguão. Andamos nos dois andares e não avistamos a loja.

Não teve jeito. Tinhamos que perguntar no serviço de informações, pois já estávamos pensando que eu fora precipitado, que a loja nem havia sido inaugurada ou seria em outro aeroporto. Bem, cada um de nós foi montando a sua teoria.

Depois que parei de relutar – não gosto de pedir ajuda – fui me informar.

Sim! A loja já estava inaugurada.
Sim! A loja era ali naquela estação aeroviária.
O problema é que ela ficava lá na sala de embarque do aeroporto. E para acessa-la só com bilhete de voo em mãos. E nós não estávamos viajando para lugar algum.

Restou tomar nosso café num lugar escuro, com aquelas mesinhas de mármore frias e engorduradas. Sem glamour e sem fotografias para compartilhar. O café estava bom e bem quente – por isso aquela viagem não pode ser considerada “perdida”, afinal, na manhã seguinte, tomamos café da manhã em duas padarias diferentes. Comemos o salgado em uma e o doce dois quilômetros adiante. E bebemos um café em cada loja, obviamente.

Marcelo Lamas, cronista. Autor de “Indesmentíveis”, entre outros.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Depositphotos

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Vou morrer!

O título desta crônica não é novidade para ninguém. O dia de cada um vai chegar, só que no meu caso, já sei o motivo. E não vai demorar. 

Explico. Minha mãe é da área da saúde, logo, desde criança não tive muita folga neste quesito. Para qualquer dor de garganta ou sintoma forte de gripe não tinha negociação: era uma injeção de Bencetacil 1200 UI. Justamente a mais temida – por ser a mais dolorosa. Hoje em dia o uso é restrito aos hospitais.

Como sou seguidor da hierarquia familiar, toda vez que minha mãe perguntava como estavam meus exames, lá ia eu fazer um check-up básico. Certa vez, resolvi organizar minha vida, fui juntar meus exames e percebi que tinha feito quatro exames de sangue em um ano, sem ter motivos para isso.

Por sorte, conheci um clínico geral que me aconselhou a fazer o check-up anualmente e no mês do meu aniversário, assim não teria como esquecer.

Em maio passado, fui para a consulta e o médico sugeriu fazer uma endoscopia, “só pra ver como está”, disse ele; não havia incômodos ou reclamações minhas sobre o aparelho digestório.

Fiz todos os exames e a tal endoscopia indicou sinais de gastrite. Comentei com meus amigos sobre o assunto – a sabedoria popular sobrepõe-se aos especialistas – e eles começaram a me alertar: “VAIS TER QUE PARAR COM OS CAFÉS!”. Como foram vários os comparsas sinceros comigo, conclui: Vou morrer! 

Vai ser de desgosto! 
E vai ser logo.

Em tempo: Antes da publicação deste texto, o cronista consultou uma gastroenterologista e a doutora recomendou não exagerar com café, chá preto, frituras, comidas pesadas e álcool. Ninguém proibiu nada e nem perguntou ao paciente sobre vícios cafeínados, colunas em site sobre café ou expedições em cafeterias.

Cápsula de @umcafezinho – O que eles disseram: “Não vou a médicos. Eles descobrem doenças na gente”. Nelinho Euzébio

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis.

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Lista de cafeterias

Uma das minhas autopromessas é fazer um levantamento de todas as cafeterias que visitei, sozinho ou na companhia da minha especialista em cafés particular.

Já fizemos viagens de todos os meios e tamanhos. Em uma delas, a viagem seria de carro, por 3 horas, para conhecer uma cafeteria bem avaliada. Na véspera, telefonei para garantir que a loja estaria aberta no sábado, só por precaução. O atendente confirmou. Partimos cedinho.

A especialista sempre começa as visitas pelo banheiro. Chegou à mesa assustada. Tudo bem, não perdemos o foco e pedimos os cafés.

Eu tinha uma prancheta na mão – provavelmente estava escrevendo alguma crônica – e a especialista um guia de cafeterias com um adesivo enorme e o nome dela impresso. Também tínhamos uma máquina fotográfica pouco discreta.

Enquanto o barista preparava as bebidas, o dono da cafeteria deu uma disfarçada e foi lá fora especular a placa do nosso carro – o único em frente à loja.

Quando viu que era de Santa Catarina, pareceu mais aliviado – pois falei que iria de SC para o PR, quando liguei. 

Ficamos com a impressão de que os nossos olhares observativos – e nossas parnafernalhas – fizeram o sujeito pensar que éramos avaliadores gastronômicos profissionais, tipo os caras do Guia Michelin. 

Ele veio trazer os cafés. Puxou conversa conosco, perguntou se eu era o sujeito da chamada, entre outras coisas.

Ele teve sorte, pois éramos somente pessoas atrás de um bom café. O ambiente estava muito quente e a limpeza longe de ser regular. Ficamos uma meia-hota e fomos embora.

Depois fizemos uma avaliação privada e mandamos para o proprietário. Tomara que ele tenha melhorado alguns pontos. A bebida que ele servia era muito boa e não merecia ser retirada da nossa lista – imaginária – de cafés preferidos.

Sempre pesquisamos as opções de cafeterias nos nossos destinos. Nas cidades maiores, andamos muito a pé, com um “mapa mental”, erramos muitas vezes os caminhos e damos de cara com lugares incríveis.

Temos a impressão que aqueles lugares que chegamos sem “maps”, sem pranchetas, sem expectativas foram os mais aconchegantes e, antes de tudo, foram os que serviram os melhores cafés. O dia que eu fizer a listinha com todas as cafeterias que visitei poderei confirmar a proporção. Por ora é só uma promessa.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”.
@marcelolamasbr

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