Café com filho de imigrantes argelinos, que vive em Paris

Uma das vantagens de trabalhar na Europa respeitando o horário do Brasil é que eu podia acordar mais tarde. Isso no inverno ajuda bastante. Nessa época, começar a trabalhar às 9h do Brasil significava estar online à partir de meio-dia na Itália. Era isso que eu fazia e aí fechava a lojinha mais tarde, mesmo que estivesse sempre com o WhatsApp à mão para possíveis emergências.

Nesse dia, eu estava tomando café da manhã por volta de 11h, no hostel onde morava em Milão. Eis que um moço pede licença para se sentar na mesa compartilhada e segue o protocolo: “De onde você é? Qual é o seu nome? O que você faz?”.

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Eu retribuí com as mesmas perguntas e nossas respostas renderam longas conversas durante os dois dias em que ele esteve lá a trabalho, ou de manhã ou na hora do jantar.

Khalil* tem 30 anos, é francês, filho mais novo de imigrantes argelinos, morador da região periférica de Paris e funcionário de uma empresa de trens. Ao me responder, ele foi logo justificando:

– Ah, é que muita gente acha estranho quando eu digo que sou francês com esse nome.

Eu, que sou resultado de uma mistura de imigrantes árabes, italianos e portugueses, além de ter sangue de índios também, logo fiquei imaginando a história dele. Coisa de jornalista, pode ser… O que será que o tinha levado até ali naquele café da manhã?

Sabe-se que a relação entre França e Argélia é delicada e cheia de conflitos históricos, reconhecidos inclusive pelo atual presidente francês, Emmanuel Macron, em discurso.

Entre algumas xícaras de café de manhã e outras taças de vinho à noite, Khalil me contou que os pais se mudaram para Paris há mais de 30 anos em busca de uma vida melhor.

Por mais que Paris seja uma cidade dominada por imigrantes, imagino que não seja fácil. O tom de desabafo com que ele me contou entregava um pouco desse sentimento de segregação.

Ele nasceu na França, mas não se sente um francês de fato. Também disse não se sente argelino ao visitar o país de origem dos pais, os tios e os primos durante as férias:

– Pode parecer estranho o que vou dizer, mas, em muitos momentos, me sinto sem pátria. Parece que não sou de lugar nenhum.

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O que eu senti após ouvir essa frase – que nunca vou esquecer e que deixei anotada no bloco de notas do celular – é gratidão ao Brasil, que acolheu aos que vieram antes de mim quando eles buscaram aqui (e encontraram) a mesma vida melhor que os pais de Khalil.

Mesmo com cidadania italiana reconhecida, falando o idioma e amando a Itália, ali eu sentia um pouco disso. Só não sem pátria porque sou e me sinto brasileira.

A história dele é como a de muitos brasileiros, é como a minha. Triste é quando a gente se lembra disso quando quer o reconhecimento da cidadania para “fugir do Brasil”, como muitos afirmam ao mesmo tempo em que destilam xenofobia (escancarada ou velada) ao se referir à presença de imigrantes aqui no nosso país.

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Khalil foi uma aula e tanto para mim. Sobre agradecer por ter alternativas. Por ter possibilidade de dizer e sentir que tenho uma pátria, mesmo com todos os seus problemas. Isso todo lugar tem. A gente só esquece e, por esquecer, reclama quando deveria agradecer.

Escrevi esse texto no Aeroporto de Guarulhos, tomando café, na manhã de 15 de abril de 2018, quando retornei ao Brasil após 5 meses vivendo na Europa.  

 

* Nome fictício para preservar a identidade da pessoa.

Fernanda Haddad é idealizadora e editora do projeto @UmCafezinho. Formada em jornalismo, tem uma empresa de conteúdo e estratégia digital. Trabalhou no Grupo Bandeirantes por quase 5 anos, gerenciou o conteúdo do Universo Jatobá nos primeiros 2 anos de portal e trabalhou em outros projetos de Content Marketing para grandes marcas, em startup. Também é locutora e apaixonada por bulldogs e chocolate. Nas horas vagas, toma café, lê, vê um filme ou outro e escreve um pouquinho. Fernanda escreve às terças-feiras.

Foto: Depositphotos

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O que aprendi ao tomar café com americano desconhecido

Eu estava em Milão. Tinha reservado pelo menos 20 dias para ficar num hostel: o Ostello Bello Grande, um dos lugares mais animados da cidade, onde chegam e vão embora pessoas do mundo inteiro, a todo momento. Mas, antes de contar sobre o café com americano, preciso voltar um pouquinho.

Um dias antes, o meu celular havia sido furtado ali dentro, numa das mesas do bar, que é aberto para não hóspedes na hora do famoso aperitivo italiano (o nosso happy hour). Dei bobeira. Ficava tanto tempo ali, ou trabalhando ou confraternizando, que talvez tivesse achado mesmo que estava em casa, literalmente.

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Conferi a câmera de segurança e fiz boletim de ocorrência, prova cabal de que finalmente eu estava conseguindo me comunicar em italiano.

Eu precisava muito do celular para trabalhar, o meu era novinho, 5 meses de uso. Era o momento certo de praticar tudo aquilo que eu vinha lendo nos livros de autoconhecimento. Não queria deixar que sentimentos ruins me tomassem.

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E pensei: “Confia, menina. Tudo acontece por uma razão. O que é que você tem a aprender com isso?”.

Me permiti sofrer por 5 minutos e soltei.

No dia seguinte, eu estava sentada trabalhando com o computador na mesma mesa em que o celular foi furtado, no mesmo lugar.

Eis que surge um cara para fazer seu check-in. Ele sentou na minha frente para preencher o formulário, colocou o seu welcome drink de um lado e seu celular de outro. O aparelho era idêntico ao meu, o mesmo modelo.

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Ele puxou conversa, perguntando o que eu tava fazendo ali, de onde eu era, etc. Todo mundo fazia cara de espanto quando eu dizia que estava viajando com passagens só de ida, inclusive ele, que é fotógrafo e estava numa jornada parecida.

Dei o alerta:

– Olha só… Fica atento com seu celular. Ontem, levaram o meu aqui nessa mesa.

Eu tinha contado um pouco sobre o meu trabalho, sobre como fazia para trabalhar viajando, e continuei no computador enquanto ele acabava de fazer o check-in no balcão da recepção.

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Peguei um café no bar, ele voltou com um café na mão também e me disse:

– Eu imagino que o celular esteja te fazendo muita falta, até pelo seu tipo de trabalho. Eu trouxe um aparelho extra, mais velhinho, de backup. Quer ficar com ele? Eu deixo com você.

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Eu fiquei assustada, achei que não tinha entendido direito. Afinal, quem é que oferece um iPhone para uma pessoa que conheceu há 5 minutos? Ele continuou:

– Eu vou ficar aqui por uns dias e, no máximo, vou visitar a região, tudo aqui perto. Mas, volto e pego o celular. O que acha?

Eu continuei sem resposta, incrédula. E ele:

– Bom, pense aí… Eu vou deixar minha mala no quarto e sair para comer. Quando eu voltar, você me diz.

O celular é importante mesmo para quem trabalha com internet, os meus clientes contavam comigo, tinha entregas a fazer.

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Na Europa não existe essa coisa de parcelar em 12x. Eu estava esperando receber de um trabalho e ainda ia ter que enviar o dinheiro da minha conta do Brasil para comprar um aparelho novo.

Aceitei. E fiquei emocionada depois, sozinha. Como é que pode encontrar a solução no mesmo lugar de onde surgiu o problema num intervalo de menos de 24 horas?

O gesto de gentileza desse garoto americano é algo de que nunca mais vou me esquecer. E digo mais: se eu não tivesse ficado no pé dele, ele nem teria voltado para buscar o celular. Aqui aprendi um pouco mais sobre desapego.

E quer saber sobre o que mais aprendi (na prática)? Confia! O universo pode te surpreender entre um café e outro.

 

Fernanda Haddad é idealizadora e editora do projeto @UmCafezinho. Formada em jornalismo, tem uma empresa de conteúdo e estratégia digital. Trabalhou no Grupo Bandeirantes por quase 5 anos, gerenciou o conteúdo do Universo Jatobá nos primeiros 2 anos de portal e trabalhou em outros projetos de Content Marketing para grandes marcas, em startup. Também é locutora e apaixonada por bulldogs e chocolate. Nas horas vagas, toma café, lê, vê um filme ou outro e escreve um pouquinho. Fernanda escreve às terças-feiras.

Foto: Depositphotos

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Passagem só de ida e muito café durante 5 meses

Não tinha prazo definido. Tinha só uma vontade de viver um dia de cada vez, sair do automático, estar no presente. Foi por isso que resolvi comprar passagem só de ida para a Itália e viver na Europa. A ideia era morar em Milão. Eu gosto do ambiente urbano, a locomoção dali para outros lugares era mais fácil, na minha visão. A facilidade com o idioma e a cultura do café ajudaram muito na escolha também.

Eu já tinha morado numa pequena cidade na Itália para fazer o meu processo de cidadania italiana. Nessa época, eu já tinha começado a trabalhar por conta própria. Era só colocar o computador na mala e ficar atenta ao fuso e aos prazos dos clientes.

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Com o passaporte europeu em mãos, voltei para o Brasil para mais 8 meses até chegar a hora de comprar passagem só de ida e viver assim literalmente – só comprando passagens de ida mesmo – por 5 meses para vários lugares, entre Itália, França e Suíça. Eu nunca sabia o dia de ir embora. Achava uma promoção ou uma oportunidade e ia. Vivi intensamente um dos períodos mais especiais da minha vida, com muitos cafés. Muitos mesmo.

Como consegui comprar passagem só de ida durante 5 meses?

Essa coisa de comprar passagem só de ida parece fácil e até coisa de filme, mas não é bem assim, especialmente quando você ouve as seguintes frases de TODOS os lados:

Ah, mas tendo dinheiro é fácil. Só tendo muito dinheiro para sair trabalhando e viajando assim.  

Claro que é preciso ter o mínimo de planejamento financeiro, mas você está enganado se pensa que precisa ser rico para realizar. No meu caso, o planejamento foi longo. Tudo começou para ir para Itália com passagem de ida e volta para fazer a cidadania. Fiquei lá por 3 meses na casa de uns primos, que me ajudaram muito (se você já tentou fixar residência na Itália para começar o processo, sabe do que eu estou falando).

Para isso, saí do apartamento onde morava com uma amiga e vendi tudo o que eu tinha lá. Só fiquei com as roupas e um saca-rolhas que eu adoro. Desapego total! Fui para a casa dos meus pais, comecei a guardar o dinheiro que antes ia para o aluguel e, passado um tempo, pedi demissão do emprego que já não me fazia feliz – importante reforçar que fiquei nele até conseguir cumprir o mínimo da meta financeira.

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Ainda lá na Itália – já considerando esse retorno sem prazo que durou 5 meses -, fiz economia e voltei para o Brasil com dinheiro. Aí, foram mais 8 meses no Brasil, sem saber se eu ia ou não me jogar nessa aventura. Detalhe: tinha deixado minhas roupas de inverno todas na Europa. Inevitavelmente, eu precisaria voltar pra buscar (ou pra ficar) em algum momento.

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