O preço do café especial

Você já questionou o preço do café especial? Na cafeteria onde trabalho é só o que servimos. Sempre que aparece um cliente novo, a gente tenta explicar a proposta da loja e passar o máximo de informações sobre a bebida. Mesmo assim, algumas pessoas não entendem o motivo de termos uma pacotinho de café de 250g custando R$ 65. Alguns reclamam até do valor do espresso (R$ 5,50). Muitos locais servem café gourmet ou, pior, de commodity, e cobram mais que isso.

No final das contas, tudo acaba sendo uma questão de prioridade. Mas, é legal que as pessoas entendam a razão do preço do café especial. Vou compartilhar uma experiência que tive no Espírito Santo, na fazenda onde é cultivado esse café de R$ 65, o queridinho Paraíso.

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Preço do café especial: entenda o caminho do cafezal à xícara

Eu e mais três pessoas saímos de São Paulo numa manhã de sexta-feira. Depois de 14 horas de estrada, chegamos à região de Castelo. No dia seguinte, acordamos bem cedinho para continuar a nossa aventura. Nos encontramos com o Edmilson. Ele nos apresentou ao proprietário da fazenda, Rondineli Sartori, que também já tinha sido guia turístico lá.

O nosso destino era a fazenda do Paraíso. No caminho, foram nos contando um pouco sobre aquele cenário lindo e montanhoso, lotado de pés de café. Fizemos uma parada e tivemos o prazer de conhecer o Carlos Alberto Altoé, produtor do Café Vale do Caxixe, também especial.

Entramos numa sala com um balcão com diversos métodos, equipamentos para embalar e uma máquina de torra de 10 kg. É nela que o Carlos desenvolve os perfis de torra da sua produção. Ele fez questão de preparar uma café pra gente, na Hario V60. Pela janela, a gente conseguia ver um pequeno terreiro suspenso cheio de grãos de Catuaí Vermelho.

Saindo de lá, fomos ao Sítio Bateia. Conhecemos o irmão do Rondineli, sua cunhada e sobrinhos. Nós, um pouco tímidos, preocupados por estar incomodando em pleno sábado. Eles, orgulhosos, explicavam pra gente tudo o que podiam, das variedades às técnicas de poda. Até almoço nos ofereceram! Depois de comer, fomos morro acima conhecer o cafezal.

Lá eles fazem colheita manual seletiva, vão colhendo somente os frutos maduros. Isso significa que as pessoas da colheita precisam passar várias vezes em um mesmo pé de café. Feito isso, eles separam os lotes em seus dois pequenos terreiros para os processos de pós-colheita.

Toda a família participa da produção. As crianças estudam e ajudam nas tarefas do sítio. Até a sobrinha do Rondineli, de 10 anos, me disse toda feliz que é ela a pessoa que mexe o café no terreiro. Depois disso, vocês podem imaginar que minha responsabilidade aumentou na hora de extrair o café deles lá na cafeteria, não é?

Esse café, que teve cuidados minuciosos para que pudesse desenvolver as características de um grão especial, vai para a cafeteria onde trabalho. O mestre de torra desenvolve um perfil para que nós, baristas bem treinados, tenhamos a possibilidade de extrair o melhor desse café. É um cuidado que se tem desde a plantação até a extração. É muita dedicação e estudo para que a gente possa oferecer a xícara perfeita.

Existe ainda uma escala de pontuação que vai até 100. Para ser considerado especial, o café precisa atingir no mínimo 80 pontos. O Paraíso foi pontuado com 92. Esse é o resultado de toda uma cadeia de produção que justifica o preço do café especial na prateleira.

Como tudo acaba em pizza, o nosso dia por lá não foi diferente. Jantamos em uma pizzaria e, conversando sobre tudo o que tinha acontecido, concluímos que todas as partes desse processo possuem uma importância enorme. O barista tem uma tarefa que vai além de tirar um bom espresso. Ele é quem deve fazer o papel de contar ao cliente tudo o que envolve a produção de um café especial e como as pessoas que se mantém nesse ramo simplesmente amam o que fazem. E isso tem um valor que não se calcula.

Eu tive um dos dias mais legais da minha vida. O melhor foi saber que eles também gostaram de nos receber. Acho que foi uma troca bem interessante. Hoje agradeço imensamente por ter a sorte de viver em um país produtor de cafés tão bons e ter a possibilidade de ver de perto a origem disso.

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Fotos: Cinthia Bracco

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Um dia de barista

Quando eu era de Marketing e Comunicação, achava um pouco complicado explicar para algumas pessoas o que eu fazia e a importância daquilo tudo para a empresa. Então, comecei a trabalhar com mídias sociais. Aí piorou… Tinha gente que achava que eu ficava o dia todo no Facebook aleatoriamente. Naquela época, que não é tão distante assim, eu mal podia imaginar que mudaria para uma profissão mais incompreendida ainda e mais desvalorizada. Afinal, o que faz um barista? Como é o dia de barista? 

No primeiro curso que fiz, já descobri um mundo totalmente novo e encantador. Ali mesmo eu percebi o longo caminho que eu teria que percorrer se eu realmente quisesse mudar de vida. Hoje, atuando na área, eu tenho a certeza de que, para ser um ótimo barista, é necessário muita dedicação e estudo constante.

Um dia algo muito curioso, digamos, aconteceu… Recebemos um cliente para passar o sábado com a gente na operação. Ele pode sentir na pele como é o dia-a-dia de um desses profissionais do café. Foi muito legal e ele se saiu super bem!

O nome dele é Fábio e ele vai contar agora um pouquinho de como foi essa experiência:

Como é o dia de barista

“Antes de chegar aos detalhes da minha experiência e do meu dia de barista, acho interessante fazer uma pequena introdução. Eu me chamo Fábio. Assim como a Cinthia, antes de passar pelo dia de barista, eu nunca tive nenhum contato com o atendimento em restaurantes e afins. Sou advogado, então toda a minha experiência profissional foi vivida em uma realidade totalmente diferente.

Fábio com o avental e a bandana no dia de barista na cafeteria.

Assim que cheguei ao café, me deram um espaço no armário, um avental oficial da cafeteria. Coloquei a minha bandana na cabeça e aí o coração começou a acelerar. Deu aquele nervoso na barriga… Exatamente o mesmo de quando se mudava de escola, de emprego ou de quando se vai apresentar algo em público, sabe?

Para a minha sorte, antes mesmo da abertura das portas, a primeira tarefa foi regular o espresso. Assim que as baristas me ensinaram o procedimento, extraíram a primeira dose de café e explicaram quais as características sensoriais eu tinha que sentir. Notei logo de cara que era uma atividade que eu conseguia me relacionar bem. Eu já tinha passado por isso em cursos, conversas e testes em casa. Essa familiaridade fez com que o nervosismo fosse embora quase por completo.

Com o espresso regulado, as portas se abriram e, aos poucos, os primeiros clientes foram chegando. Bem no início, me pediram para preparar o “café da casa”, que é um café coado preparado em um Hario V60, com um dos grãos torrados pela própria cafeteria. Ou seja, totalmente na minha zona de conforto!

Acontece que a zona de conforto não durou muito tempo. Logo, mais mesas foram ocupadas e eu já estava auxiliando com preparo de bebidas frias, separação de ingredientes e utensílios, lavagem de louças… E como lavei louça!

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O dia seguiu dessa forma, correria em todo momento e quase sem nenhum tempo para descanso ou conversas. São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que você fica totalmente focado nas suas responsabilidades, técnicas e limpeza. O tempo voa!

Só depois do expediente encerrado e de toda a arrumação é que consegui começar a digerir tudo que foi feito. Demora até para cair a ficha do cansaço, de tanto que fiquei estimulado pela rotina verdadeiramente dinâmica. Em retrospectiva, consigo notar que o conjunto de habilidades do barista está muito além do preparo e conhecimento do café.

No dia-a-dia você tem várias outras responsabilidades e interações. Notei que o entrosamento e confiança no resto do time são absolutamente necessários, assim como a atenção e o traquejo social no atendimento ao cliente.

Foi no meio dessa loucura toda que conheci um pequeno pedaço da rotina de um barista. Se tivesse que resumir, diria que foi a mesma sensação de quando tomei meu primeiro espresso com cafés especiais. Foi como tomar a pílula vermelha retratada no filme Matrix”.

Gostou de saber como é o dia de barista profissional? Deixe seu comentário.

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Fotos: Cinthia Bracco

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Diferença entre café tradicional e especial

Outro dia falamos um pouco mais sobre os cafés especiais e, para dar continuidade ao assunto, hoje você vai entender a diferença entre café tradicional e especial. O tradicional é aquele café forte do Brasil, produzido em grande escala. Devido ao volume de produção e ao baixo custo, ele acaba tendo uma qualidade inferior.

Nós, muitas vezes, estamos acostumados a consumir esse tipo de bebida. Por isso, nem imaginamos as possibilidades de aromas e sabores existentes em grãos de café. Sem dúvida alguma, tudo é uma questão de opinião, mas é sempre muito importante conhecer a origem daquilo que adquirimos. Afinal, cada vez mais os consumidores se mostram responsáveis em suas escolhas. Isso faz com que as empresas se adaptem à essa nova realidade, mesmo que ela esteja um pouco mais distante do objetivo principal do negócio.

Infográfico: café especial x café tradicional

Confira abaixo o infográfico com a diferença entre café tradicional e especial:

Abordamos os principais aspectos da diferença entre café tradicional e especial. Se você tem alguma outra característica para acrescentar, deixe um comentário que a gente tenta incluir nos próximos posts. 😉

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Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Foto de destaque: Pixabay

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Campeonato Brasileiro de Baristas: Minha Experiência

No último final de semana, ocorreu o 16º Campeonato Brasileiro de Baristas, que garantiu ao campeão Léo Moço – tricampeão nacional – a vaga para disputar o mundial em Seul, ainda em Novembro deste ano.

Foto: Léo Moço no Campeonato de 2017 (Divulgação/BSCA)

Em resumo, o campeonato consiste em uma apresentação de 15 minutos. Cada competidor fala sobre o café que escolheu, faz a extração de 4 espressos, 4 bebidas iguais com leite e 4 bebidas iguais de assinatura, sendo uma para cada um dos juízes. Parece simples e, para alguns baristas mais experientes, pode até ser mais fácil. Para mim, foi bem difícil e eu vou contar brevemente a minha experiência para vocês entenderem mais sobre o processo.

Depois de definir o café que ia levar para competir, eu me preparei por quase três meses. Ficava treinando na cafeteria até mais tarde. Nos dias em que eu ia embora no horário, produzia alguma coisa em casa até tarde. Era o tempo todo pensando na minha primeira competição.

Fiz seis versões da minha bebida de assinatura e cinco receitas diferentes para a geleia de pimenta que a compõe. Foram vários testes com leites e centenas de espressos. Viajei com três amigos de São Paulo ao Espírito Santo só para conhecer a fazenda onde é produzido o café que eu competi. Fomos em uma sexta e voltamos no domingo, 14 horas de carro na ida e mais 14 na volta.

Foto: bebida de assinatura, com geleia de pimenta artesanal, abacaxi, raspas e suco de limão siciliano, água com gás, alecrim e espresso. (Cinthia Bracco)

Pensei em cada detalhe da minha apresentação e até canudo de inox eu arrumei na última hora para ter a certeza de que tudo fosse reaproveitável, reforçando a questão de sustentabilidade. Me apresentei vestida de Rey, do Star Wars, com o intuito de fazer uma metáfora. Para ser um bom barista é necessário muito foco, dedicação, estudo, concentração, equilíbrio… Tudo o que se aprende em um treinamento Jedi. Consegui fantasia, pensei nas músicas certas para cada momento, investi tempo e uma quantidade razoável de dinheiro.

Chegando lá, na hora H, nada saiu como eu esperava. Nos 15 minutos que eu tinha para preparar as estações, não consegui regular o espresso perfeitamente. Decidi me arriscar a tentar melhorá-lo ali, na frente do juízes, com o meu tempo correndo. Não deu certo e dali em diante eu me desestruturei. Uma coisa foi levando a outra e até xícara suja eu entreguei.

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Pela música, eu sabia que tinha estourado o tempo. Só depois de algumas horas é que eu lembrei das regras e percebi que eu estava desclassificada. Nada foi tão difícil quanto ler o feedback dos jurados nas folhas de avaliação. Ali estava tudo o que tinha acontecido.

Devo confessar que doeu saber que eu não consegui representar ¼ do que eu realmente era capaz, de mostrar o tanto que me preparei. As pessoas me dizem que é normal, que é meu primeiro campeonato, não tenho muito tempo de barismo, etc. Até pode ser. Agora, o que eu realmente sinto? É que isso não é pra mim.

Já me disseram que falo isso porque perdi ou então que minha opinião vai mudar daqui a um mês e até que estou fazendo um pouquinho de drama. A verdade é que podem dar o nome que quiserem, mas o que coloco aqui é o meu relato mais honesto. É claro que teve o lado bom. Conheci e revi pessoas incríveis. Aprendi com todo o processo, fiquei feliz de ver o esforço de todos aqueles baristas e até recebi alguns elogios. Contudo, entrar numa competição dessas, não faz parte do meu perfil. Descobri que prefiro investir em outros projetos relacionados ao café.

Quero deixar claro que não estou dizendo que as pessoas não devem entrar em campeonatos. Muito pelo contrário. Devem sim, seja para seguirem em frente porque a disputa estimula ou, assim como eu, para descobrir que não querem isso.

Foto: Arquivo Pessoal/Cinthia Bracco

A minha conclusão é de que esse campeonato é para os fortes. Realmente não é fácil e parabenizo cada um dos participantes por estarem lá, trocando experiências, mostrando suas habilidades e, de certa forma, se expondo para o bem e para o mal. Por outro lado, também há espaço para os “fortes” que não querem competir. O barismo no Brasil, ainda mais quando se trata de cafés especiais, é uma área nova e cheia de oportunidades a serem exploradas.

O campeonato mostra uma boa parte do empenho que está por trás dessa profissão, ainda pouco difundida, e isso é extremamente importante. Temos muito trabalho a fazer e diversos caminhos para trilhar. Tenho certeza que coisas extraordinárias ainda estão por vir. Que a força esteja com a gente. E com vocês. 😉

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Foto de destaque: Pixabay

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Um pouco mais sobre cafés especiais

Nós, brasileiros, adoramos café e isso não é segredo para ninguém. O nosso país é um dos maiores produtores do mundo e o consumo vem aumentando a cada ano, com estimativa de 2,9% de crescimento de 2016 a 2017. A expectativa é chegarmos a 21,3 milhões de sacas consumidas no Brasil, de acordo com Nathan Herszkowicz, Diretor Executivo da Abic. No entanto, apesar do nosso ritual diário, será que sabemos o que, exatamente, estamos colocando em nossas xícaras?

Para a grande maioria das pessoas, o entendimento de cafés especiais ainda não é claro. Nas grandes cidades a gente começa a perceber o interesse e uma demanda maior por esse tipo de bebida, que também vem crescendo junto à preocupação sobre a forma de consumo. Quando a gente entende e dá importância à procedência do produto, começamos a medir melhor o custo-benefício, inclusive voltado para a nossa saúde, assim como acontece com os alimentos orgânicos, por exemplo.

Uma tendência positiva e muito interessante citada por Carlos Brando, Diretor da P&A Marketing e membro de importantes associações relacionadas ao café, é de que nos próximos anos o Brasil tende a ampliar o seu consumo no tipo arábica, ao contrário do que vem acontecendo na maioria dos demais países do mundo, onde acredita-se que o aumento se dará principalmente na área de cafés solúveis, nos quais a composição é feita, basicamente, por robusta.

Cupping, o processo de degustação que ajuda a determinar características de um café. Foto: Cinthia Bracco

Parte do interesse dos brasileiros por cafés de melhor qualidade se deve às cafeterias em si, que nos últimos anos inovaram trazendo para o público um novo conceito e, em alguns casos, uma experiência na hora de servir café. Para isso, as lojas investem em equipamentos, em funcionários e, claro, em grãos diferenciados, o que por sua vez, será resultado de um exaustivo e gratificante trabalho que vai da plantação até a torra, chegando nas mãos de baristas qualificados.

 

 

Existem alguns parâmetros técnicos para os cafés especiais, mas para que você possa identificá-lo em sua xícara, vamos focar em alguns aspectos básicos na hora da degustação, que você vai aperfeiçoando com a prática: tomando café!

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Identificando os cafés especiais

01. Aroma

O aroma pode ser percebido em 3 etapas: no café em grão, moído e preparado, após acrescentarmos água. Em cada uma dessas etapas, você poderá ter diferentes percepções olfativas. No caso de um café especial, por exemplo, você poderá lembrar de alguma fruta, chocolate, castanhas, flores. Para se ter uma boa memória olfativa, é preciso treino. Por isso você, eventualmente, poderá ver um barista sentindo o cheiro das mais variadas coisas por aí.

02. Sabor

Vai ser as sensações de gosto que o café causará na sua boca. Aqui também vale o treino de tudo o que você come. Prestar atenção nas sensações que os alimentos e suas características causam em você. Em que parte você percebe o doce, o amargo, o azedo, etc.

03. Corpo

É a sensação de contato com a língua. Algumas pessoas descrevem corpo como “peso” na língua. Se uma bebida passa muito rapidamente por sua boca, é sinal de que ela tem pouco corpo. Se ela dá aquela ideia de preenchimento, ela é encorpada.

04. Doçura

Uma das características dos cafés especiais. Dependendo da bebida, vai ser mais ou menos doce, mas a doçura sempre deverá estar presente.

05. Acidez

Essa é uma das qualidades que, talvez, mais causa estranheza em quem está começando a conhecer os cafés especiais. Pode ser tão presente que, para algumas pessoas, acaba ficando difícil perceber a doçura da bebida. Com o tempo a gente vê que não consegue viver mais sem a acidez.  Lembrando apenas que se for parecida com vinagre, essa acidez passa a ser um defeito.

06. Sabor residual

Conhecido também como aftertast, nada mais é do que o sabor que o café deixa em sua boca. Deve ser agradável e perdurar por um certo tempo.

Defeitos

Você nunca deverá encontrar as seguintes características em um café especial: aroma de terra, de remédio, adstringência, amargor. Cheiro e sabor de madeira, queimado, verde ou cru.

Como é feita a classificação de um café especial?

Existe uma associação chamada Brazil Specialty Coffee Association (BSCA), que é a responsável por classificar os cafés no Brasil. Um profissional, o qual chamamos de Q-grader, faz a degustação – seguindo uma metotologia estipulada – e avalia a bebida. A nota vai de 0 a 100 e um café, para ser especial, precisa atingir pelo menos 80 pontos.

Esse é um padrão internacional utilizado em outras associações como Specialty Coffee Association of Europe (SCAE) na Europa e Specialty Coffee Association (SCA) nos EUA.

Cafés especiais na prática (e no bolso)

Café espresso. Foto: Cinthia Bracco

Indo direto ao ponto, sim, eles podem ser mais caros. Mas, na verdade, tudo depende… Hoje é possível encontrar um espresso de café especial a R$ 4,50. Se a gente analisar bem, tem padaria ou até mesmo essas casas que vendem pão de queijo cobrando valor equivalente por um café de qualidade inferior.

De novo, acaba sendo uma questão de custo-benefício para você e, também, de prioridades. Eu, por exemplo, prefiro ficar sem sapatos novos e gastar tudo com cafés.

Por isso as pessoas sempre vão me encontrar usando um All Star (que não é mais tão barato como antigamente) até fazer furo na sola, mas com uma caneca de “café do bom” na mão e um sorriso, mesmo com o pé molhado pelo combinação do furo com a chuva.

E você, já experimentou café especial? Conta pra gente sua experiência!

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Foto de destaque: Pixabay

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Você conhece o seu barista?

Todo mundo sabe que o café é uma das bebidas mais consumidas no Brasil. Ele ocupa o segundo lugar no ranking, perdendo apenas para a água, de acordo com uma pesquisa divulgada pela Abic (Associação Brasileira da Indústria do Café) em 2015.

O consumo do café cresce a cada ano e, além disso, novas tendências surgem, abrindo espaço para oportunidades dentro dessa área.  Um bom exemplo são os cafés especiais. Esse mercado tem crescimento aproximado de 15% ao ano e vem conquistando não apenas consumidores, mas também profissionais que descobrem um mundo envolvente de aromas e sabores.

Todas as pessoas que compõem o processo, da plantação até a xícara, possuem um papel fundamental para que você possa tomar um café de qualidade. Existe muito estudo e dedicação, horas e horas de trabalho.

Andrea, Gabriel e Cinthia

O nosso dia-a-dia é tão corrido que, muitas vezes, nem percebemos esses pequenos detalhes e não temos tempo de parar para pensar nas pessoas que, de alguma forma, fazem parte de nosso cotidiano.

Você, por exemplo, alguma vez já se perguntou quem é o seu barista? Nós achamos que não… Por isso, na estreia da nossa coluna, resolvemos contar um pouquinho de nossas trajetórias até chegarmos a ser profissionais, que amam o que fazem e que colocam muito carinho em cada xícara de café.

Cinthia, Positive Mental Attitude

Eu sou Cinthia, filha e neta de boleira e salgadeira. Cresci em uma cozinha caseira, vendo minha avó e minha mãe fazerem suspiro, coxinha, brigadeiro, bolo, empadinha. Sempre estive em contato com a área da gastronomia de certa forma, mas escolhi estudar publicidade.

Como consequência do apoio de meus pais e de meu esforço e dedicação, tive a oportunidade de trabalhar por quase 9 anos atuando em Marketing e Comunicação. Meu último emprego nessas áreas foi em uma ótima empresa, que oferecia um salário digno e diversos benefícios, inclusive GymPass, mesa de pebolim e vídeo game.

Porém, um dia parei para analisar e percebi que, mesmo tendo chegado numa posição legal, eu não me sentia completa. Então, nessa busca interior, resolvi entender um pouco mais sobre café, algo que já há algum tempo me interessava muito. Cursei o Barista Júnior no Coffee Lab. Me apaixonei, ali, naquele curso. Fui lá e fiz o Sênior. Aí, percebi que não era apenas uma paixonite de verão, era o que eu queria para a minha vida.

Entre sonhos e devaneios, um dia surgiu um post na minha timeline do Instagram, publicado pela Um Coffee Co.: Precisamos de Barista/Ajudante Geral. Eu, que já imaginava ser demais trabalhar nessa cafeteria, fiquei com aquela vaga na cabeça. Depois de muito pensar, resolvi mandar o meu CV.

Após três dias montando um currículo – afinal, como eu iria tentar explicar uma mudança dessas de carreira? -,  enviei o e-mail para o endereço indicado. Fui até a cafeteria duas vezes para entrevistas. E, desde o meu primeiro contato com eles, eu pensava todos os dias que eu ia conseguir. Eu queria muito estar lá, até troquei a senha do meu computador do escritório para UmCoffeeCo. Sério.

Então, num sábado de outubro, recebi o e-mail de um dos proprietários dizendo que eles tinham me escolhido. Eu fique tão feliz, mas tão feliz que até chorei de emoção. Juro que isso não é nenhuma técnica de storytelling, eu chorei de verdade! Assim começou minha vida como barista e a cada dia eu tenho mais certeza de que fiz a escolha certa.

Gabriel, Explorador

Escrever um texto nunca é fácil, principalmente quando ele é baseado em você. Digo isso porque antes de começar a digitar essas primeiras palavras me deparei com uma daquelas “lembranças” do Facebook. Um Gabriel com seus 25 anos, cheio de esperança, energia e praticamente fechando um acordo vitalício com o universo. Porém, como qualquer burocrata engravatado, o universo é alguém de quem você precisa duvidar. As coisas se perdem no meio do caminho, as escolhas se tornam maiores e as dúvidas crescem muito mais do que as certezas. Acho que esse pode ser considerado um dos principais motivos que faz alguém virar um barista.

Eu cresci em uma família em que todas as minhas ideias ganhavam reticências e alguém falava: “Ok Gabriel, se você quer mesmo construir uma máquina do tempo, iremos te apoiar”. Isso me deu a chance de explorar uma série de coisas, conhecer diferentes pessoas e testar o máximo de possibilidades possíveis. Foi aí que me deparei com o universo do café e, consequentemente, com o Barismo. Depois de perambular por diferentes carreiras, achei que precisava mais. Tinha que me reinventar de alguma forma e começar do zero de novo. Fiz um curso de barista e, em pouco tempo, já estava empregado. Além de conhecer pessoas incríveis as quais gostaria muito de guardar dentro de um potinho e carregar por aí, a profissão já me possibilitou expandir diferentes sensações, que estavam hibernadas dentro de mim, e até mesmo um talento despercebido.

Ainda é cedo para dizer que ficarei nesse ramo para sempre, mas no momento o café e tudo que o rodeia tem sido meu ópio durante esses últimos meses e, pelo andar das coisas, acho que esse vício ainda tem muito para render.

Andrea, Punk Rock Girl

O café apareceu na minha vida em 3 ondas. A primeira por volta dos 5 anos de idade. Nesta época eu morava num sobrado cor de rosa pastel, cujo chão era um mosaico de tijolinhos vermelhos, amarelos e pretos. Sendo a mais velha de 3 irmãos, sobrava sempre para mim ajudar nos afazeres domésticos.

Não podia tomar café porque era muito nova, mas tinha de servi-lo para as visitas e, foi numa dessas ocasiões, que acabei derrubando uma bandeja cheia de xícaras de café em mim mesma. Veja bem: minha mãe nunca respeitou o limite de temperatura da água de 90 a 100 graus, ela sempre a fervia bem antes de coar o seu café tradicional. O acidente acarretou em uma cicatriz que carrego até hoje.

A segunda onda se deu na minha adolescência quando, diagnosticada com gastrite nervosa e início de úlcera, tive de começar um tratamento médico com uma dieta bem restrita. Nessa época eu gastava todo o meu salário em CDs, revistas musicais da “gringa” e equipamentos para a minha banda riot grrrl. Lógico que sempre guardava uns 10 “conto” por semana para os meus prazeres proibidos – junk food e café de padoca.

Caro leitor, vamos esclarecer uma coisa: se você tem úlcera, beber um café preto tradicional, daqueles carbonizados mesmo, é a coisa mais punk rock do universo, cara! E eu fui uma adolescente bem punk rock.

A terceira onda foi mais uma tsunami, dessas que destroem tudo e te fazem recomeçar do zero. Sou geração X, nunca tive medo de mudar de carreira. Já fui secretária, fotógrafa, assistente pessoal, professora de inglês e tive um brechó e loja de acessórios. Quando ser dona do próprio negócio parou de ser lucrativo, acabei fazendo uns extras nos finais de semana para ajudar no orçamento. Hostess, bartender, garçonete, o que aparecesse…

Até que acabei descolando um trampo de bartender num café bar que trabalha com cafés especiais. Foi paixão ao primeiro gole. A partir daí, fiz curso de barista, de métodos de preparo e de águas (Sim! Existe um curso que explica como os diferentes tipos de águas influenciam no café, mas isso é assunto pra uma próxima coluna). O interessante é que o café é muito mais complexo do que se imagina e estar na área do barismo é ser um eterno estudante, não só da bebida, mas de tudo que a envolve: terroir, torra, variedades, etc.

Atualmente, trabalho em uma cafeteria que me proporciona as ferramentas para me aprimorar como barista. Me sinto muito realizada e aguardo ansiosamente a 4ª onda do café.

Está no ar oficialmente a coluna Litros de café, assinada por Cinthia, Gabriel e Andrea, sempre às quartas-feiras. Conte sua opinião nos comentários e compartilhe usando a hashtag #UmCafezinhoPeloMundo. 

Foto de destaque: Pixabay

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