O que aprendi ao tomar café com americano desconhecido

Eu estava em Milão. Tinha reservado pelo menos 20 dias para ficar num hostel: o Ostello Bello Grande, um dos lugares mais animados da cidade, onde chegam e vão embora pessoas do mundo inteiro, a todo momento. Mas, antes de contar sobre o café com americano, preciso voltar um pouquinho.

Um dias antes, o meu celular havia sido furtado ali dentro, numa das mesas do bar, que é aberto para não hóspedes na hora do famoso aperitivo italiano (o nosso happy hour). Dei bobeira. Ficava tanto tempo ali, ou trabalhando ou confraternizando, que talvez tivesse achado mesmo que estava em casa, literalmente.

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Conferi a câmera de segurança e fiz boletim de ocorrência, prova cabal de que finalmente eu estava conseguindo me comunicar em italiano.

Eu precisava muito do celular para trabalhar, o meu era novinho, 5 meses de uso. Era o momento certo de praticar tudo aquilo que eu vinha lendo nos livros de autoconhecimento. Não queria deixar que sentimentos ruins me tomassem.

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E pensei: “Confia, menina. Tudo acontece por uma razão. O que é que você tem a aprender com isso?”.

Me permiti sofrer por 5 minutos e soltei.

No dia seguinte, eu estava sentada trabalhando com o computador na mesma mesa em que o celular foi furtado, no mesmo lugar.

Eis que surge um cara para fazer seu check-in. Ele sentou na minha frente para preencher o formulário, colocou o seu welcome drink de um lado e seu celular de outro. O aparelho era idêntico ao meu, o mesmo modelo.

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Ele puxou conversa, perguntando o que eu tava fazendo ali, de onde eu era, etc. Todo mundo fazia cara de espanto quando eu dizia que estava viajando com passagens só de ida, inclusive ele, que é fotógrafo e estava numa jornada parecida.

Dei o alerta:

– Olha só… Fica atento com seu celular. Ontem, levaram o meu aqui nessa mesa.

Eu tinha contado um pouco sobre o meu trabalho, sobre como fazia para trabalhar viajando, e continuei no computador enquanto ele acabava de fazer o check-in no balcão da recepção.

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Peguei um café no bar, ele voltou com um café na mão também e me disse:

– Eu imagino que o celular esteja te fazendo muita falta, até pelo seu tipo de trabalho. Eu trouxe um aparelho extra, mais velhinho, de backup. Quer ficar com ele? Eu deixo com você.

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Eu fiquei assustada, achei que não tinha entendido direito. Afinal, quem é que oferece um iPhone para uma pessoa que conheceu há 5 minutos? Ele continuou:

– Eu vou ficar aqui por uns dias e, no máximo, vou visitar a região, tudo aqui perto. Mas, volto e pego o celular. O que acha?

Eu continuei sem resposta, incrédula. E ele:

– Bom, pense aí… Eu vou deixar minha mala no quarto e sair para comer. Quando eu voltar, você me diz.

O celular é importante mesmo para quem trabalha com internet, os meus clientes contavam comigo, tinha entregas a fazer.

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Na Europa não existe essa coisa de parcelar em 12x. Eu estava esperando receber de um trabalho e ainda ia ter que enviar o dinheiro da minha conta do Brasil para comprar um aparelho novo.

Aceitei. E fiquei emocionada depois, sozinha. Como é que pode encontrar a solução no mesmo lugar de onde surgiu o problema num intervalo de menos de 24 horas?

O gesto de gentileza desse garoto americano é algo de que nunca mais vou me esquecer. E digo mais: se eu não tivesse ficado no pé dele, ele nem teria voltado para buscar o celular. Aqui aprendi um pouco mais sobre desapego.

E quer saber sobre o que mais aprendi (na prática)? Confia! O universo pode te surpreender entre um café e outro.

 

Fernanda Haddad é idealizadora e editora do projeto @UmCafezinho. Formada em jornalismo, tem uma empresa de conteúdo e estratégia digital. Trabalhou no Grupo Bandeirantes por quase 5 anos, gerenciou o conteúdo do Universo Jatobá nos primeiros 2 anos de portal e trabalhou em outros projetos de Content Marketing para grandes marcas, em startup. Também é locutora e apaixonada por bulldogs e chocolate. Nas horas vagas, toma café, lê, vê um filme ou outro e escreve um pouquinho. Fernanda escreve às terças-feiras.

Foto: Depositphotos

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Passagem só de ida e muito café durante 5 meses

Não tinha prazo definido. Tinha só uma vontade de viver um dia de cada vez, sair do automático, estar no presente. Foi por isso que resolvi comprar passagem só de ida para a Itália e viver na Europa. A ideia era morar em Milão. Eu gosto do ambiente urbano, a locomoção dali para outros lugares era mais fácil, na minha visão. A facilidade com o idioma e a cultura do café ajudaram muito na escolha também.

Eu já tinha morado numa pequena cidade na Itália para fazer o meu processo de cidadania italiana. Nessa época, eu já tinha começado a trabalhar por conta própria. Era só colocar o computador na mala e ficar atenta ao fuso e aos prazos dos clientes.

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Com o passaporte europeu em mãos, voltei para o Brasil para mais 8 meses até chegar a hora de comprar passagem só de ida e viver assim literalmente – só comprando passagens de ida mesmo – por 5 meses para vários lugares, entre Itália, França e Suíça. Eu nunca sabia o dia de ir embora. Achava uma promoção ou uma oportunidade e ia. Vivi intensamente um dos períodos mais especiais da minha vida, com muitos cafés. Muitos mesmo.

Como consegui comprar passagem só de ida durante 5 meses?

Essa coisa de comprar passagem só de ida parece fácil e até coisa de filme, mas não é bem assim, especialmente quando você ouve as seguintes frases de TODOS os lados:

Ah, mas tendo dinheiro é fácil. Só tendo muito dinheiro para sair trabalhando e viajando assim.  

Claro que é preciso ter o mínimo de planejamento financeiro, mas você está enganado se pensa que precisa ser rico para realizar. No meu caso, o planejamento foi longo. Tudo começou para ir para Itália com passagem de ida e volta para fazer a cidadania. Fiquei lá por 3 meses na casa de uns primos, que me ajudaram muito (se você já tentou fixar residência na Itália para começar o processo, sabe do que eu estou falando).

Para isso, saí do apartamento onde morava com uma amiga e vendi tudo o que eu tinha lá. Só fiquei com as roupas e um saca-rolhas que eu adoro. Desapego total! Fui para a casa dos meus pais, comecei a guardar o dinheiro que antes ia para o aluguel e, passado um tempo, pedi demissão do emprego que já não me fazia feliz – importante reforçar que fiquei nele até conseguir cumprir o mínimo da meta financeira.

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Ainda lá na Itália – já considerando esse retorno sem prazo que durou 5 meses -, fiz economia e voltei para o Brasil com dinheiro. Aí, foram mais 8 meses no Brasil, sem saber se eu ia ou não me jogar nessa aventura. Detalhe: tinha deixado minhas roupas de inverno todas na Europa. Inevitavelmente, eu precisaria voltar pra buscar (ou pra ficar) em algum momento.

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Fake news

Nem tinha eu nascido direito e já tinha um primeiro causo para contar. Diz a lenda que minha mãe foi para a maternidade no carro da funerária, o único por perto e à disposição. Ou seja, a coisa já começou invertida, o que costuma ser o último veículo de todo mundo, aquele que não importa a marca, a cor, o ano ou o modelo, foi praticamente o meu primeiro.

Adiante, houve uma época da minha infância em que uma das minhas funções era ler a seção de necrologia do jornal para minha avó Alice. Uma vez por semana, eu pegava a organizadíssima agenda telefônica dela e pescava lá dentro o nome completo de uma de suas amigas. Depois, era só abrir o jornal e substituir o nome na notícia.

A vovozinha reagia rápido – e alto: “Morreu a Duduca”. Embora eu tivesse dito “Olga Caruccio”, ninguém daquela geração era chamado pelo nome de batismo. Depois ela começava a rir, pois não tinha como um guri de 12 anos enganar uma comerciante de 72. Até porque ela sabia de cabeça a idade das “migas” e nunca fechava com o que eu lia. E caso uma delas morresse a notícia chegava antes do impresso. Mas toda semana eu tentava aplicar o golpe.

Recentemente mudei de endereço e fui morar ao lado do cemitério. Toda vez que passo na calçada, não resisto a tentação de ler o painel de LED que mostra o nome dos(as) falecidos(as). E lembro do bom humor da minha avó numa longínqua manhã de quinta-feira (#tbt) em que levantei os dados completos da Tusnelda, digo, da dona “Zilda Doceira” e marquei um pontinho na batalha das fake news com a vovozinha.

Já deixei muito bem registrado no meu testamento – crônicas têm valor legal – que não quero saber de velório. Até já falei que era para não ter ninguém desmentindo minhas histórias, mas na verdade, não quero que saiam de lá reclamando do café, ou dizendo que estava frio. Até hoje, nunca vi alguém sair desses lugares elogiando alguma coisa, a não ser alguma prima que era uma criança desajeitada e que virou um mulherão. Ou o moleque espinhento que ninguém dava bola e que agora as mina pira no rapazote.

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CÁPSULA DE UM CAFEZINHO – O que eles disseram…

O velório é um defunto cercado de piadas por todos os lados”.

Max Nunes

 

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”, entre outros. O seu bisavô português Manoel Martins, tinha uma fita preta que costumava ser usada para comunicar falecimentos para a vizinhança. Vez por outra, ele escolhia um amigo e colocava a fita na frente da casa do sujeito, sem motivo, só pra ver a confusão.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Depositphotos

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