Café e tecnologia

Não tem muito tempo, a gente falou um pouco das ondas do café. Na ocasião, quando comentamos sobre a 4a onda, que está por vir, foi inevitável não citar a tecnologia. Ela está presente em praticamente tudo, inclusive na nossa xícara de café. Hoje, vamos falar um pouco dessa relação entre café e tecnologia. 

Café e tecnologia: o que esperar dessa relação?

Um estudo divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em janeiro deste ano, intitulado A Cultura do Café: Análise dos Custos de Produção e da Rentabilidade nos Anos-Safra 2008 a 2017,  aponta a tecnologia como grande responsável no amento da produtividade do café.

O uso de máquinas para a colheita e novas técnicas de cultivo são exemplos de otimização. Os cafés especiais não ficam de fora. Segundo o produtor Adolfo Vieira Ferreira, da Fazenda Passeio, os ganhos também são perceptíveis na qualidade da bebida. Ele tem instalado em sua fazenda um laboratório de análise sensorial. Isso é  importante para quem pretende focar no mercado de especiais. Ele acredita que uma planta sadia, cultivada com a ajuda da tecnologia, rende grãos de melhor qualidade. Com isso, os consumidores também saem ganhando.

Indo agora para a outra ponta da cadeia, nas cafeterias, essa semana vi algo na internet que foi o que me motivou a escrever este texto: um robô coando café no Japão! Ao mesmo  tempo em que isso me fascina (adoro robôs!), me preocupa. Afinal, um robô barista que além de coados também opera a máquina de espresso, não precisa de VR/VT, não reclama e, até onde a gente se espera, não vai maltratar o cliente. Parece ser um bom negócio.

Não é de hoje que a gente vê máquinas substituindo humanos. O que há anos atrás não passava de ficção, hoje faz parte da nossa realidade. A tecnologia também está na casa das pessoas. Pequenas máquinas capazes de extrair um bom espresso, moedores, torradores e, principalmente, informação.

Porque, então, ao mesmo tempo que isso acontece, a gente também vê uma cafeteria nova a cada dia e, principalmente, baristas entusiasmados em se desenvolverem e insistindo em se manterem em uma profissão incrível, porém desvalorizada?

Eu mesma, barista, não sei muito bem responder a essa pergunta. Da minha parte, estou na profissão porque simplesmente adoro o que eu faço e vejo que muitos colegas compartilham desse meu sentimento. Provavelmente a gente vai dar um jeito de aliar o novo ao artesanal, esperando que sempre haja alguém fã do café old school. Está aí o disco de vinil, vivo até hoje.

Por outro lado, com todas essas facilidades ao nosso alcance e com relacionamentos cada vez mais online, o que vai motivar as pessoas a frequentarem uma cafeteria no futuro? Especialmente nas grandes capitais, onde a gente percebe em muitas pessoas quase que uma aversão ao contato humano. Essa conversa até me faz pensar no Wall-E, aquela animação da Pixar, lembram?

Podemos até falar de tendências, mas o futuro ninguém sabe. Por enquanto o cenário do café é muito positivo no Brasil. Tem muitos profissionais excelentes suando a camisa – e, provavelmente, usando a tecnologia – para garantir a qualidade em nossas xícaras.

Sinceramente, eu não consigo imaginar um mundo sem cafeterias feitas por humanos, nas quais em cada extração vai haver um pouquinho do amor que a gente tem pelo café. Um robô barista é super legal, mas no final das contas a gente sabe o que vai acontecer: vão querer, de alguma forma, humanizá-lo.

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Gostaram da ideia do robô barista? O que acham dessa junção entre café e tecnologia? E hoje, o que motiva vocês a frequentarem cafeterias? Contem nos comentários.

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Foto: Depositphotos

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Cursos para quem gosta de café e para profissionais

Seja para se profissionalizar ou elevar o nível da bebida que preparamos em casa, aprender mais sobre café é sempre uma boa opção. No post anterior, falamos um pouco sobre as atividades e desafios de um barista. Um dos pontos que listamos era sobre a importância de estudar para se desenvolver como profissional. A partir daí resolvemos trazer algumas sugestões de cursos para quem gosta de café e locais para se especializar.

Se a sua ideia não é ter o café como profissão, mas poder preparar a bebida em casa com mais técnica, não se preocupe. Nós também pensamos nisso!

7 lugares pelo Brasil que oferecem cursos para quem gosta de café

1 . Coffee Lab (São Paulo)

“Um laboratório de sensações. Uma escola de baristas. Uma cafeteria especial”. É assim que o Coffee Lab, referência no Brasil, se define. Com anos de experiência no mercado, a escola oferece cursos técnicos e educativos, como Barista Júnior e Sênior e Café em Casa. Eu cursei os dois módulos de Barista e, quando fui atuar na área, percebi que estava bem preparada. Gostei muito e recomendo! 😉

2 . Wolff Café (São Paulo)

Com um time de profissionais de peso, além de estar com seus grãos presentes em diversas cafeterias especiais em São Paulo, o Wolff Café oferece cursos profissionalizantes como Barista, Torra e Latte Art. Eles também possuem um curso de Filtrados, direcionado tanto aos profissionais como quem pretende melhorar as técnicas dos coados em casa.

3 . Um Coffee Co. (São Paulo)

Eleita a melhor cafeteria de São Paulo em 2017 pela Veja SP, a Um Coffee Co. também ministra cursos em sua unidade do Bom Retiro, sendo que alguns deles dão direito à certificação da SCASpecialty Coffee Association.

Além dos profissionalizantes, eles também possuem o curso Métodos de Extração, que abrange Hario V60, Kalita Wave, Aeropress e Prensa Francesa.

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4 . Academia do Café (Belo Horizonte)

Criada com o intuito de ser um lugar destinado ao aprendizado e formação técnica, a Academia do Café disponibiliza diversos cursos e workshops, atendendo às mais variadas necessidades, que vão desde a introdução ao mundo dos cafés especiais com duração de 1 hora e meia, até cursos mais profundos como os técnicos de Torra e de Barista.

5 . Lucca Cafés Especiais (Curitiba)

Reconhecido pelo público e dono de diversos prêmios, o Lucca Cafés Especiais é, sem dúvida alguma, um dos locais de grande destaque quando falamos sobre cursos na área do café. Boa parte dos técnicos oferecem certificação da SCA e os coffee lovers podem contar com o Preparo de Cafés em Casa. Destaque para os cursos de Tecnologia da Água e Cupping Básico.

Além disso, eles atendem pessoas voltadas para a área do empreendedorismo, como é o caso do curso Como Montar seu Plano de Negócio e da Consultoria em Cafés.

6 . Baden Torrefação (Porto Alegre)

Desde 2014 estabelecida na região Sul do país, a Baden Torrefação vem se desenvolvendo e ganhando cada vez mais força. Recentemente um de seus baristas, Andre Martinelli, ficou em 3o lugar no campeonato Brasileiro de Baristas 2018. Eles oferecem workshops e cursos, também atendendo à demanda dos profissionais e amantes do café.

Atualmente, estão divulgando o curso Ciência da Torra do Café. Para saber sobre os próximos, a recomendação é ficar de olho nas mídias sociais.

7 . Kaffe Torrefação e Treinamento (Recife)

Com a missão de ser um centro de disseminação de conhecimento, o Kaffe Torrefação e Treinamento tem como principal objetivo cursos e capacitação de profissionais. Inaugurado em março de 2017 em Boa Viagem, Recife, a casa oferece cursos técnicos de Torra, Barista, Análise Sensorial, entre outros.

Os entusiastas também podem se aperfeiçoar através das diversas oficinas que acontecem durante o ano: Preparo de Café Filtrado, Degustação e Harmonização e Drinks com Cold Brew são alguns exemplos.  As agendas também vão sendo divulgadas nas mídias sociais.

Se faltava um empurrãozinho para aprender mais sobre café, agora não tem mais desculpa. Ainda mais porque a maioria dos locais dá uma facilitada no pagamento. Eu mesma já programei um curso de torra para o final de fevereiro. E aí, quem mais se animou?

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

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Cidade fantasma

Estava em férias e voltei para a pequena/média cidade do interior onde vivo, pois precisava resolver uns problemas burocráticos. Fui ao cartório e a Jéssica – sim, aqui as pessoas se conhecem pelos nomes – já avisou que eu teria problemas para conseguir pagar uma taxa da prefeitura.

E foi o que aconteceu. A pessoa responsável pelos tributos estava em férias. Vou ter que esperar ela voltar. Também tentei fazer uma doação de sangue e advinhe? Hemocentro com as luzes apagadas. Fiquei bem chateado com isso. Aliás, a cidade toda estava assim, com plaquinhas de FECHADO, penduradas nas portas. As empresas encerram as atividades antes do Natal e só abrem no meio de janeiro. Como há várias praias num raio de 80 km, parece que boa parte da população migra pra lá. Só tinha uma barbearia funcionando e tive que esperar um bom tempo na fila para cortar o cabelo.

Com tudo isso, só não pensei em enforcamento – alternativa comum nos arredores – porque a melhor cafeteria da cidade só fez uma pausa entre as datas festivas, coincidentemente enquanto eu não estava.

Aqui, o condado é naturalmente protegido por morros e rios, o que impede as ações criminosas, além de ter uma polícia bem equipada pelo empresariado. Tudo isso rendeu o título oficial de cidade mais segura do país.

Certa vez, solicitei à prefeitura que desligasse os semáforos (e as máquinas de multa) na madrugada, para não ficar parado como “presa” debaixo do sinal vermelho. A resposta foi que não havia ocorrências desse tipo nesta latitude. Para essa negativa do poder público não fiquei estressado.

Parafraseando Mario Quintana (1906-1994): “Uma boa frase acaba com qualquer desentendimento”.

Que tenhamos bons cafezinhos em 2018!

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Marcelo Lamas é cronista. Reside em Jaraguá do Sul (170 mil habitantes), no norte de Santa Catarina, estado no qual metade dos municípios não tiveram mortes violentas em 2017.
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e-mail: marcelolamasbr@gmail.com

Foto: depositphotos

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O que faz um barista?

Você sabe o que faz um barista? Bem, eu sou barista. Quando eu digo isso, minha expectativa em relação a como a pessoa vai reagir é a seguinte:

Porém, não é bem assim que acontece na grande maioria das vezes. As pessoas reagem, principalmente, de 3 maneiras diferentes:

Mesmo que elas não se expressem verbalmente, a gente consegue entender seus pensamentos só de olhar. Outras áreas da gastronomia já são mais valorizadas, como acontece com os sommeliers, enólogos e os cozinheiros. Aos poucos, os baristas também vão ganhando seu espaço, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.

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É claro que dentro desse universo existem diferentes tipos de baristas e cafeterias, porém o que vale dizer é que existem pessoas trabalhando arduamente na área do café e orgulhosas do que fazem. Por isso, é muito importante a gente falar sobre o barismo. Dessa forma, as pessoas terão informações e a possibilidade de entenderem um pouco mais sobre esse mundo fascinante.

Antes de falarmos sobre as atividades, vamos definir o que é um barista. Para isso, vou usar o conceito da Isabela Raposeiras, que descreve muito bem a profissão:

“O Barista é o profissional responsável pela qualidade do café servido ao consumidor, que deve reconhecer tal qualidade. Para tanto, o Barista deve estudar todos os elementos presentes na cadeia produtiva que influenciam o resultado final da bebida”.

O que faz um barista?

Dito isso, vou listar agora algumas das atividades e características dos baristas.

1 . Estudar, estudar e estudar

A primeira coisa que você deve fazer quando decide se tornar barista é estudar. É preciso aprender as técnicas, entender um pouquinho de produção e assim por diante. No entanto, para ser um bom barista, é necessário dedicação. Tem que estudar sempre e ter disposição a estar em constante aperfeiçoamento, além de ficar de olho nas tendências do mercado.

2 . Treinar o sensorial

É muito importante que o barista tenha o sensorial apurado. Ele precisa de seus sentidos treinados para ter a capacidade de avaliar o café. O barista precisa estar apto a usar as técnicas aprendidas para oferecer uma boa xícara ao cliente e é o sensorial desse profissional que dará a palavra final sobre o equilíbrio perfeito da bebida.

3 . Ser criativo

Seja para criar novas bebidas a base de café, melhorar a operação ou identificar novas oportunidades para levar a diante o conhecimento sobre café.

4 . Mil e uma utilidades

Nem só de café vive um barista. No dia-a-dia de uma cafeteria, muitos desses profissionais também são os responsáveis pela limpeza, organização da área de trabalho, reposição de alimentos e insumos no bar, preparo de alimentos e (muita) louça para lavar. Isso significa que não tomamos café o dia todo, sempre tem algo pra fazer.

5 . Saber lidar com as pessoas

Nessa questão, temos duas vertentes – clientes e colegas de trabalho. Lidar com o público é uma surpresa diária, pois você nunca sabe quem pode entrar pela porta e nem qual será o humor daqueles clientes mais assíduos.

Sobre os colegas, eu devo admitir que aprendi muito sobre trabalho em equipe atuando em uma cafeteria. Eu, que sempre tive dificuldade em pedir ajuda, de repente me vi em um lugar onde eu precisava das pessoas o tempo todo. Para as coisas darem certo a gente tem que criar uma relação de confiança mútua e isso não é fácil de se construir.

Na minha opinião, essa é uma das habilidades mais difíceis que um barista precisa desenvolver.

6 . Fazer network

Participar de eventos, estar presente em grupos de mídias sociais, visitar cafeterias e outros locais que fazem parte da cadeia do café. Tudo isso contribui para o crescimento do barista. Trocar experiências e informações é algo muito valioso em qualquer profissão e no barismo não é diferente.

7 . De aluno a professor

O café vive sua terceira onda e, com isso, a procura por cursos cresceu nos últimos anos. Assim, baristas que antes estiveram em sala de aula, acabam tendo a possibilidade de ensinar. Se bem que eu conheço tanto barista apaixonado, que não precisa nem ser professor. Ensina o cliente, os amigos, marido, filhos…

Para não ser injusta, vou terminar esse texto falando de um amigo, o Julio. Quando eu contei para ele que me tornaria barista, ele (que já trabalhou em cafeteria por um período) ficou feliz e me falou que era uma profissão incrível, que nos  ensina muitas coisas. Como a humildade, por exemplo, já que estamos lá para servir o outro.

Por isso, sempre que estou em dúvida ou com alguma dificuldade em relação ao meu trabalho, uma das coisas que faço é lembrar das palavras dele e, principalmente, de um certo brilho que pude enxergar em seu olhar.

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Foto: Depositphotos/ Ilustrações: Cinthia Bracco

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Como treinar a avaliação sensorial do café

Se a gente parar e pensar, vai perceber que tomar café envolve muito mais coisas que simplesmente ingerir uma bebida. Nós estamos ligados emocionalmente com ele, seja pelas memórias afetivas ou pelo conforto que ele nos traz. Café é experiência e para melhorá-la, hoje darei dicas de como treinar para fazer uma boa avaliação sensorial do café.

Talvez você já tenha lido no pacotinho de café algo como: notas de chocolate, caramelo e especiarias. Algumas pessoas até ficam em dúvida se foi adicionado algum tipo de aroma. Nesse caso, essas notas são do próprio grão, desenvolvidas a partir de inúmeras variáveis, como terroir, variedade do grão, processamento, torra.

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Quando começamos a entender essas questões e, principalmente, treinar o nosso sensorial, percebemos que a experiência fica mais legal. Perceber as características sensoriais da bebida é difícil, não vou mentir. Por isso, o que a gente espera com essas dicas é que, aos poucos, você vá percebendo que cada café tem seus próprios atributos.

5 dicas para aprimorar sua avaliação sensorial do café

1) Crie repertório

Essa foi uma das primeiras coisas que aprendi, ainda na escola de barismo, e talvez uma das mais importantes quando o assunto é avaliação sensorial do café. Varie sua alimentação, prove comidas e bebidas diferentes, dê chance para novos sabores. Não somente isso: sinta o aroma de tudo, não se limitando à comida. Cheire uma flor, uma planta, a terra. Lembre-se de itens com cheiros não tão bons assim, como borracha, tabaco e madeira.

Existe um kit de aromas usado pelos baristas chamado Le Nez du Café. Ele serve justamente para treinar o sensorial e custa cerca de R$ 980 ou R$ 2.300 a edição especial. Ou seja, não é algo para se ter em casa. Porém, o site Not Bad Coffee criou uma área que não apenas nos mostra a roda de sabores do café, como também nos dá referências de cada aroma, ensinando como reproduzi-los.

2) Olhe para seu café

Falamos muito dos sentidos olfato e paladar, mas a visão também pode dar alguns indícios sobre o seu café.  Se você estiver bebendo um espresso, avalie a crema. Se for um coado, observe o aspecto em si e a coloração. Cafés muito escuros foram torrados excessivamente, então já imaginamos encontrar amargor e notas desagradáveis na xícara.

3) Concentração

No dia em que você se propor a tentar perceber notas aromáticas em um café, tenha em mãos um produto de qualidade, de preferência especial, para encontrar certa complexidade. Além disso, esteja em um ambiente fresco e silencioso, isso vai facilitar sua concentração. Se envolva em todas as etapas.

Abra o pacotinho, sinta o aroma e tente puxar na memória algum cheiro. Moa o café e sinta o aroma de novo. Umedeça o pó e repita o processo. Terminou a extração, sinta o aroma novamente. Prove o café, tente identificar o sabor, sentindo o corpo da bebida, que é aquela sensação tátil na língua.  Espere o café ficar morno, sinta a fragrância e o gosto. Prove o café frio também, pois ele pode variar de acordo com a temperatura. Às vezes, com o café frio, identificamos uma nota que não percebemos enquanto ele estava quente.

No início você não precisa tentar ser específico, identificando por exemplo, lima da pérsia, canela e mel. Comece de forma mais abrangente, tentado identificar os grupo. Fruta, especiaria, algo doce.

4) Compare

Outro exercício interessante é pegar diferentes tipos de café e compará-los no mesmo momento. Pegue um café tradicional, um gourmet e um especial. Faça o treino de concentração com cada um deles e, nitidamente, você perceberá diferenças.

Você também pode fazer o teste usando dois cafés especiais. Peça ajuda do barista para pegar um café mais ácido e outro mais doce ou com notas mais tradicionais. Prove os dois no mesmo momento ou um logo após o outro, quando suas sensações ainda estão frescas, e faça uma análise.

5) Se especialize

Caso você goste da brincadeira, procure um curso. Alguns locais já oferecem esse tipo de especialização e você poderá adicionar mais esse conhecimento ao seu currículo de coffee lover.

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Algumas pessoas têm mais facilidade para desenvolver o sensorial e, mesmo assim, sabemos que é algo complexo e que requer treino diário. Por isso, não desanime se você não estiver acertando muito nas primeiras tentativas. Afinal, o importante mesmo é se divertir e, principalmente, sentir aquele bem-estar que só uma xícara de café é capaz de nos proporcionar.

E aí, gostou das dicas sobre avaliação sensorial do café? Conta pra gente como é a sua experiência com o café.

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

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Presente de Natal

Véspera do aniversário de Cristo. Depois de dirigir por doze horas, cheguei ao extremo sul do Brasil para passar as festas de fim–de–ano com meus pais. Mal tinha largado a mala, fui intimado pela mãe: “Marcelo! Recebi um telefonema da Santa Casa. Está faltando alguém para ser o Papai Noel. Acho que podes ajudar”.

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Também era o meu primeiro dia de férias e ainda estava meio amassado da viagem. Na hora, lembrei da máxima da sabedoria popular: “Se família fosse bom, Deus tava cheio de irmãos”. O termômetro marcava 35°C, vestir uma fantasia de mangas longas e com barba comprida não estava nos planos daquela tarde ensolarada. E tinha o agravante de ter que colocar uma almofada na barriga, para disfarçar meu modesto peso, insuficiente para o novo cargo. 

Porém, a consciência pesou. Minha mãe sempre trabalhou no Centro Cirúrgico daquele hospital e, mesmo após a aposentadoria, continuava ministrando aulas de Enfermagem e Obstetrícia na Santa Casa. Lembrei das inúmeras festas de funcionários que frequentei na infância, dos presentes, doces e refrigerantes ganhos. Na instituição, havia o ícone Padre Barbieri, um franciscano sexagenário que dava aulas de reforço em várias ciências e que me ajudava com os problemas da matemática.

Resolvi retribuir as gentilezas e fui para o nobre evento. Juntamente com a equipe do presépio, andei pelos corredores, quartos e salas do hospital, cumprimentando as pessoas e distribuindo pequenos panetones.  Fiz uma voz que julguei ser parecida com a do Noel oficial. Na maternidade, as mães faziam questão que eu segurasse suas pequenas jóias. Na pediatria, as crianças comemoravam minha chegada. Na geriatria, os idosos ficavam emocionados, como se estivessem diante de um ídolo. Outros, “esquecidos” pelas famílias, incontidos, mostravam alguma nova esperança. 

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Na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) uma jovem paciente que parecia estar há tempo imóvel, com uma lenta e esforçada piscada de olhos, “me disse”: “Obrigado por ter vindo!“. Foi meu presente de Natal inesquecível. Naquela tarde, nem senti falta do meu sagrado cafezinho.

Feliz Natal!

 

Marcelo Lamas é cronista. Em 1978 pediu uma irmãzinha (a Susana) para o Papai Noel. 

*Crônica original publicada no livro “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora” – Design Editora, 2009.
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Cold brew: de onde surgiu, como é feito e muito mais

Café frio ou gelado ainda causa estranheza em muitos brasileiros, mas aos poucos essa forma de consumir a bebida vai ganhando espaço e o coração dos coffeelovers. Hoje eu vou falar do cold brew.

A história do cold brew

Apesar de a gente ter ouvido falar muito do cold brew nesse último ano, sua história começou já tem um bom tempo. E não estou falando de quando a bebida apareceu nas cafeterias dos EUA e Europa. Historicamente, surgiu em meados do século XVII.

A partir da necessidade de transportar o café em viagens e guerras, os holandeses tiveram a ideia de produzir um tipo de extrato de café. Os japoneses relacionaram o método com a forma de produzir chá, sempre muito presente em sua cultura, fazendo com que essa bebida também ficasse bem conhecida na terra do sol nascente.

Porém, naquela época a forma de consumo era um pouco diferente. O extrato era misturado em água quente e dali saía um café quentinho. Se a gente pensar bem, era quase como o café solúvel de hoje em dia.

Somente por volta de 1837, na França, é que a bebida passou a ser consumida gelada, mais parecida com a que fazemos atualmente. Depois disso e do auge desse formato que aconteceu no Japão na década de 60, as técnicas foram se aperfeiçoando até chegarem às latas a garrafinhas de cold brew que a gente vê nas prateleiras.

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Como é feito o cold brew?

O cold brew nada mais é que a extração de café a frio. Ele é feito a partir de duas maneiras: infusão ou gotejamento. Para ambas, a moagem do café deve ser grossa.

Na primeira, basta deixar o café infusionado em água gelada durante algumas horas – o tempo exato e a proporção (café x água) vão depender de cada receita. Depois, é só fazer a separação do líquido.  Um equipamento que a gente pode usar para fazer o cold brew em casa é a prensa francesa. Ao final do período em infusão, basta abaixar o êmbolo. Se você não tiver a prensa ou quiser uma bebida com menos resíduo, dá para usar um coador de pano.

A segunda maneira, gotejamento, já demanda um equipamento próprio, que é um tipo de torre composta por três recipientes: um para a água gelada (em cima), outro para o café moído (meio) e um vazio (base) para receber a extração. No recipiente em que colocamos a água, tem uma torneirinha. É ali que a gente controla o fluxo do gotejamento, que deve ser bem lento.

Sim, nós temos cold brew!

Apesar de não ser um assunto super novo, falar de cold brew é legal porque ainda tem gente descobrindo a bebida por aqui. Se a gente prestar um pouquinho de atenção, vai perceber que o mercado cresceu nesse último ano e continua evoluindo. Até a Starbucks lançou sua bebida há uns meses.

Falando nisso, a gente não pode deixar de citar a True Coffee Inc., que foi uma das pioneiras na produção de cold brew no Brasil. Eles começaram em 2014 e até hoje são referência no assunto, seja pela inovação ou pela qualidade.

Uma marca mais recente é o Amigo Cold Brew, que vale ser citada por seu diferencial na criação de sabores diferentes.  Sempre usando ingredientes naturais e livre de aditivos, a gente pode beber cold brew de limão siciliano e alecrim e até maracujá com canela!

As novidades não param por aí. Tem até clube de assinatura de cold brew, que você recebe a bebida em casa todo mês. O Sede de Café, por exemplo, tem produção artesanal e faz todo um trabalho informativo, dando detalhes sobre o produto que eles estão enviando, além de sugerir formas de consumo.

Muitas cafeterias também fabricam seu próprio cold brew, seja para oferecer ao seu cliente como produto final ou para usar como ingrediente nos drinks da casa. Aproveite que o verão está aí e prove o café gelado!

Sozinho ou acompanhado

Sempre uma boa pedida cafeinada no calor, o cold brew vai bem de qualquer jeito. Pode ser só com gelo, misturado com tônica e até com gim, por que não? 😉

O legal é criar e dar uma chance para o café gelado. São outras sensações de aromas e sabores. Para se ter uma ideia do que o cold brew é capaz, confira duas receitas que a Revista Espresso publicou há um tempinho: Cold Citrus e Coconut Coffee. A gente se refresca só de ler!

E vocês, gostam de cold brew? Alguém tem outra receita para compartilhar? Conte nos comentários.

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Fotos: Depositphotos

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Negócios virtuais

Por conta da mudança para outro apartamento, minha namorada precisou se desfazer de algumas coisas. Ela tem uma boa coleção de quadros sobre café, inclusive o de uma embalagem estampada, sobre o qual, até o cafeicultor dono da marca, ficou espantado ao saber.

Num dia que eu estava de folga, ela me ligou do trabalho:

– Marcelo, podes entregar um quadro que vendi pela internet?

– Posso, qual deles?

– Aquele branco, que tem uma flor! Anturium ou lírio..

– Não é de café?

– Claro que não! (risos)

Parti para a operação. Era um pouco mais complicado do que pensei. O quadro era grande. Para tirá-lo do lugar tive que subir na mesa, contrariando meus conhecimentos sobre a NR 35 (Trabalho em Altura).

Além da minha descoordenação habitual, tinha o agravante de o quadro ser todo de vidro, até a moldura. Consegui remover o corpo, colocar no carro e fazer o carreto.

Chegando ao destino, lá estava eu na portaria de um condomínio fechado. Tive que fazer um cadastro de entregador e foi difícil convencer o porteiro que eu não tinha nota fiscal, tampouco CNPJ ou nome da firma.

Enquanto fazia o procedimento, pensava o que levaria uma pessoa que mora num lugar tão requintado, querer comprar um quadro de segunda-mão de outrem? Vai ver o quadro era uma obra de valor e eu estava por fora.

Quando finalmente cheguei à residência 8, fui recepcionado por uma moça vestida de empregada de novela. Confirmei a compra e ela me pediu para colocar dentro da casa.

Começou um novo drama. Não encontrava um lugar para colocar o quadro, num primeiro momento achei que a casa era tão grande que eu não via as paredes. Depois observei que o lugar era extremamente decorado. Só achei um cantinho para coloca-lo no chão, de costas, com a gravura para cima.

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Fui embora decepcionado, pensei que nesses lugares também se oferecia   @UmCafezinho, já fazia umas três horas que estava na labuta e já começava minha crise de abstinência.

Em tempo: minha namorada é a coffee lover, colecionadora de quadros e latas de café, mas o viciado da relação sou eu.

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”. Ao observar seus “negócios virtuais” comprovou o ditado popular “Ninguém é tão feio quanto o RG, nem tão bonito quanto nas redes sociais”. Com base na foto, nunca encontraríamos a pessoa na rodoviária.
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Tipos de café: conheça quais são eles

Hoje em dia a gente ouve falar muito do café arábica. Talvez seja o primeiro que muitos imediatamente se lembram quando pensam sobre os tipos de café. Para algumas pessoas, só essa informação é sinônimo de alta qualidade. O café, no entanto, é mais que isso. Ele tem sua origem e determinados processos até chegar à nossa mesa.

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Sempre que vou falar sobre esse assunto lembro da minha viagem ao Espírito Santo. Ouvi falar que lá há um produtor de Robusta que, em uma sessão de cupping, teve seu café pontuado com mais de 80, ou seja, classificado por eles como café especial.

No Brasil, a classe de cafés especiais é, sem dúvida, composta basicamente por Arábica e a BSCA certifica apenas cafés dessa origem. Essa história nos permite pensar que precisamos analisar outras variáveis para saber se o que estamos consumindo realmente tem tanta qualidade assim.  O que vai definir se um café é bom pra gente, independente de pontuação, vai ser o nosso paladar. Porém, vale dar uma olhada no pacotinho se há informações como: produtor, fazenda, região, altitude, torra e variedade. E é nesse ponto que eu queria chegar. Vamos desmistificar um pouquinho alguns dos nomes relacionados ao café que a gente ouve por aí.

Conheça um pouco mais sobre os tipos de café

Coffea

O café é uma árvore da família Rubiaceae e do gênero Coffea, do qual algumas de suas espécies nos possibilitaram criar uma bebida incrível. Foram classificadas 124 espécies, mais do que há 20 anos, o que significa que outras variedades estão surgindo.

As espécies Coffea são encontradas principalmente na África, Ásia e Austrália, mas apenas duas delas são cultivadas para o mercado consumidor: C. Arabica e C. Canephora – mais conhecidas por nós como Arábica e Robusta.  

Robusta

A C. Canephora é nativa da África Ocidental. Primeiramente, suas mudas foram plantadas em Java e, posteriormente, espalhadas praticamente para todos os países produtores.

Assim como o Árabica, o Robusta também desenvolveu diversas variedades, sendo que muitas são resultado do cruzamento com o Arábica. Plantadas geralmente em altitudes mais baixas, pois é onde elas melhor se desenvolvem. Estão mais sujeitas às pragas, o que influencia o seu teor de cafeína, que é mais alto se comparado ao Arábica.

Ao contrário de países como Indonésia e Índia, onde cafés Robusta são conhecidos por sua alta qualidade, no Brasil é cultivada a variedade Conilon, usada principalmente para baratear o custo dos cafés industrializados. Visto por muito tempo como sinônimo de baixa qualidade, esse cenário vem mudando nos últimos anos e gerando uma certa discussão no mercado.

Em agosto deste ano, na Feira Sabores da Terra que aconteceu em Vitória (ES), a Fazenda Venturim apresentou seu café 100% Conilon. Os irmãos Isaac e Lucas acreditam que um Robusta de origem conhecida e de produção feita com foco na qualidade, pode, sim, levar ao consumidor uma ótima bebida. Através do projeto Robusta Especial, eles vêm aperfeiçoando seu processo produtivo.

O Coffee Quality Institute possui em seu programa de identificação e classificação de cafés de qualidade uma vertente focada em cafés Robusta chamado Q Robusta. Para mais detalhes, visitem o site dedicado ao programa.

Arábica

As informações sobre como a C. Arabica se espalhou pelo mundo são divergentes, o que torna incerta a sua verdadeira história. Sabe-se que, das árvores nativas da Etiópia e do Sudão, somente algumas foram levadas para fora da África. Chegaram ao Iêmen para depois se espalharem pelos outros países. As árvores eram da variedade Typica, também conhecida na época como o café comum. No Brasil, era chamada de Café Nacional ou Crioulo.

Em nosso país, são produzidas muitas variedades de Arábica, como Catuaí, Bourbon, Mundo Novo, Catucaí, entre outros. O Arábica é conhecido por sua complexidade aromática e acidez. Os brasileiros, destacam-se principalmente por sua doçura e corpo marcante.

São cultivadas em altitudes mais altas, acima de 800m. Seu teor de cafeína é de 1%, enquanto o Robusta apresenta mais de 2%. Considerando a safra 2016/2017, o Arábica representa cerca de 62% da produção mundial e teve um aumento de 32% na última década. O Robusta cresceu quase 22%.

Devo admitir que quando se trata dos tipos de café tenho bebido bem mais Arábica a Robusta, até mesmo pela praticidade, já que este chega com mais qualidade às nossas xícaras de uma maneira mais fácil. Porém, escrever esse texto me deixou curiosa e com a mente mais aberta.

Costumo dizer que não existe uma verdade única e absoluta quando o assunto é café. Cada produtor utiliza de uma técnica. Cada mestre de torra desenvolve o perfil de um jeito. Cada cafeteria desenvolveu ou aderiu a uma certa maneira de preparar os cafés e assim por diante. Falar sobre tipos de café, para mim, comprova mais uma vez essa forma de pensar. O próximo passo agora é tentar comprar um pacotinho de Conilon pra experimentar.

O que vocês acharam dos tipos de café? Será que realmente tem Robusta de alta qualidade no Brasil? Alguém aqui já provou um café 100% Conilon?

 

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Foto de destaque: depositphotos

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Vizinhança

A vida em condomínio não é fácil. Comecei a sentir isso quando precisei mudar de cidade e fui dividir apartamento com dois colegas do novo trabalho. 

Já era perto do final do ano quando a Dona Brunilde tocou a campainha do 703 e sem formalidade alguma, nem educação, esbravejou: “Onde está a guirlanda?”.

Eu nem fazia ideia do que ela estava falando, e respondi:

– O quê?

– A guirlanda de Natal que estava lá na portaria…

Demorei para deduzir que tratava-se de uma alegoria e que, por sermos os únicos solteiros do prédio éramos os suspeitos.

Ficamos os dois sem acreditar. Eu na desconfiança dela e ela na minha resposta. 

Foi a minha primeira (má) impressão sobre a vida em comunidade. E a dona Brunilde apareceu por lá algumas outras vezes.

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Semana passada, no condomínio que estou atualmente, uma moradora disparou a seguinte mensagem no grupo de mensagens prédio:

“Boa tarde, gostaria de saber que planta é aquela no hall de entrada? Desculpem, mas achei de extremo mal gosto, tanto a planta como o vaso. Se é para fazer decoração, tem que chamar um profissional, pois isso desvaloriza o prédio”.

Fiquei curioso para ver e quando o fiz, concordei plenamente com a vizinha reclamante,  alem de feia a planta artificial tem quase dois metros.

Acredito que os outros também, porém ninguém manifestou-se. Talvez para evitar uma indisposição com o dono(a) da obra de arte.

Como se não pudesse piorar, no dia seguinte, apareceram umas flores vermelhas gigantes que remetiam a uma árvore de natal. Mais dois dias e brotaram  umas miniaturas de passarinhos dentro de uns ovos quebrados, o que piorou muito o mau gosto anterior.

Nunca saberemos se foi reação do dono(a) da árvore ofendido por ter sido criticado; se foi a vizinha que enviou a mensagem vingando-se de todos que se omitiram e que agora tomarão alguma ação, porque do jeito que está não dá pra ficar; se foram os três moradores do prédio que ostentam passarinhos em cativeiro, querendo expandir seu hobby; ou ainda o sindico querendo mostrar algum investimento que justifique o reajuste que era pra uma reforma e ficou permanente.

Espero que desta vez, não esteja na lista de suspeitos.

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No seriado americano “Desperate Housewives” (Donas de Casas Desesperadas), os moradores de um vilarejo, recepcionam novos vizinhos com um bolo, inserindo os novatos na pequena sociedade.

Essas vivências que relatei poderiam passar batidas, caso a fórmula americana tivesse sido aplicada aqui. E se a “correria” fosse usada como desculpa para escapar do encontro de boas vindas, a saída seria o convite para um cafezinho, bem quente e sem açúcar, por favor!

Leia também: 

Parafraseando nosso filósofo brasileiro Millôr Fernandes: “Se o homem das cavernas soubesse o que ia acontecer, teria ficado lá dentro”.

 

Marcelo Lamas é cronista e autor de “Indesmentíveis”. Nunca será sindico.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com
Facebook: @marcelolamasescritor

Foto: depositphotos

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