Negócios virtuais

Por conta da mudança para outro apartamento, minha namorada precisou se desfazer de algumas coisas. Ela tem uma boa coleção de quadros sobre café, inclusive o de uma embalagem estampada, sobre o qual, até o cafeicultor dono da marca, ficou espantado ao saber.

Num dia que eu estava de folga, ela me ligou do trabalho:

– Marcelo, podes entregar um quadro que vendi pela internet?

– Posso, qual deles?

– Aquele branco, que tem uma flor! Anturium ou lírio..

– Não é de café?

– Claro que não! (risos)

Parti para a operação. Era um pouco mais complicado do que pensei. O quadro era grande. Para tirá-lo do lugar tive que subir na mesa, contrariando meus conhecimentos sobre a NR 35 (Trabalho em Altura).

Além da minha descoordenação habitual, tinha o agravante de o quadro ser todo de vidro, até a moldura. Consegui remover o corpo, colocar no carro e fazer o carreto.

Chegando ao destino, lá estava eu na portaria de um condomínio fechado. Tive que fazer um cadastro de entregador e foi difícil convencer o porteiro que eu não tinha nota fiscal, tampouco CNPJ ou nome da firma.

Enquanto fazia o procedimento, pensava o que levaria uma pessoa que mora num lugar tão requintado, querer comprar um quadro de segunda-mão de outrem? Vai ver o quadro era uma obra de valor e eu estava por fora.

Quando finalmente cheguei à residência 8, fui recepcionado por uma moça vestida de empregada de novela. Confirmei a compra e ela me pediu para colocar dentro da casa.

Começou um novo drama. Não encontrava um lugar para colocar o quadro, num primeiro momento achei que a casa era tão grande que eu não via as paredes. Depois observei que o lugar era extremamente decorado. Só achei um cantinho para coloca-lo no chão, de costas, com a gravura para cima.

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Fui embora decepcionado, pensei que nesses lugares também se oferecia   @UmCafezinho, já fazia umas três horas que estava na labuta e já começava minha crise de abstinência.

Em tempo: minha namorada é a coffee lover, colecionadora de quadros e latas de café, mas o viciado da relação sou eu.

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”. Ao observar seus “negócios virtuais” comprovou o ditado popular “Ninguém é tão feio quanto o RG, nem tão bonito quanto nas redes sociais”. Com base na foto, nunca encontraríamos a pessoa na rodoviária.
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Vizinhança

A vida em condomínio não é fácil. Comecei a sentir isso quando precisei mudar de cidade e fui dividir apartamento com dois colegas do novo trabalho. 

Já era perto do final do ano quando a Dona Brunildetocou a campainha do 703 e sem formalidade alguma, nem educação, esbravejou: “Onde está a guirlanda?”.

Eu nem fazia ideia do que ela estava falando, e respondi:

– O quê?

– A guirlanda de Natal que estava lá na portaria…

Demorei para deduzir que tratava-se de uma alegoria e que, por sermos os únicos solteiros do prédio éramos os suspeitos.

Ficamos os dois sem acreditar. Eu na desconfiança dela e ela na minha resposta. 

Foi a minha primeira (má) impressão sobre a vida em comunidade. E a dona Brunilde apareceu por lá algumas outras vezes.

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Semana passada, no condomínio que estou atualmente, uma moradora disparou a seguinte mensagem no grupo de mensagens prédio:

“Boa tarde, gostaria de saber que planta é aquela no hall de entrada? Desculpem, mas achei de extremo mal gosto, tanto a planta como o vaso. Se é para fazer decoração, tem que chamar um profissional, pois isso desvaloriza o prédio”.

Fiquei curioso para ver e quando o fiz, concordei plenamente com a vizinha reclamante,  alem de feia a planta artificial tem quase dois metros.

Acredito que os outros também, porém ninguém manifestou-se. Talvez para evitar uma indisposição com o dono(a) da obra de arte.

Como se não pudesse piorar, no dia seguinte, apareceram umas flores vermelhas gigantes que remetiam a uma árvore de natal. Mais dois dias e brotaram  umas miniaturas de passarinhos dentro de uns ovos quebrados, o que piorou muito o mau gosto anterior.

Nunca saberemos se foi reação do dono(a) da árvore ofendido por ter sido criticado; se foi a vizinha que enviou a mensagem vingando-se de todos que se omitiram e que agora tomarão alguma ação, porque do jeito que está não dá pra ficar; se foram os três moradores do prédio que ostentam passarinhos em cativeiro, querendo expandir seu hobby; ou ainda o sindico querendo mostrar algum investimento que justifique o reajuste que era pra uma reforma e ficou permanente.

Espero que desta vez, não esteja na lista de suspeitos.

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No seriado americano “Desperate Housewives” (Donas de Casas Desesperadas), os moradores de um vilarejo, recepcionam novos vizinhos com um bolo, inserindo os novatos na pequena sociedade.

Essas vivências que relatei poderiam passar batidas, caso a fórmula americana tivesse sido aplicada aqui. E se a “correria” fosse usada como desculpa para escapar do encontro de boas vindas, a saída seria o convite para um cafezinho, bem quente e sem açúcar, por favor!

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Parafraseando nosso filósofo brasileiro Millôr Fernandes: “Se o homem das cavernas soubesse o que ia acontecer, teria ficado lá dentro”.

 

Marcelo Lamas é cronista e autor de “Indesmentíveis”. Nunca será sindico.
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A parábola do café

Na casa dos meus pais não tem hora para tomar café. Vez por outra, estou falando com eles, perto da meia-noite, e minha mãe diz: “Vou lá tomar um cafezinho” e dá tchau! E nesse caso, não é desculpa para encerrar a ligação. Posso garantir que não interfere em nada no sono deles. Contrariando o que dizem os especialistas.

Os meus velhos tomam tanto café, que usam um método regional muito peculiar, chamado de “essência”, que consiste no preparo de um café passado no filtro de papel ou de pano, de modo que fique superconcentrado. Essa essência fica numa jarra, e toda vez que dá vontade de tomar um cafezinho, é só pegar uma dose e preencher a xícara com água quente. Assim eles consomem um café amargo e oxidado. Contrariando a sugestão dos especialistas.

Outro dia recebi uma parábola – aqueles textos que fazem uma volta e tem uma moral no final – que contava a história de um professor que convidou para uma conversa, seus ex-alunos que reclamavam de “stress”. O mestre ofereceu café aos bem-sucedidos profissionais. De posse de um bule, ele pediu que cada um pegasse uma xícara. Havia uma de cada tipo: porcelana, plástico, vidro e cristal. Depois que todo mundo tomou seu café, o professor concluiu: “Viram? Todos vocês pegaram a melhor xícara que puderam. Isso é natural, todo mundo prefere o melhor. E é isso que gera o stress de vocês. Asseguro que nenhuma delas acrescentou qualidade ao café. O que vocês queriam era o café, mas institivamente ficaram preocupados com a embalagem e deixaram de lado o que mais importava”.

Depois de ler esta parábola, fui consultar a Cinthia Bracco, da Coluna Litros de Café, minha “vizinha” aqui no @UmCafezinho: “O ideal é usar xícara de porcelana, pois não vai interferir no sabor da bebida e vai manter a temperatura por mais tempo. Antes de servir o café, o legal é aquecer a xícara com água quente para que ela também fique quentinha, ajudando ainda mais a manter a temperatura”. Nesse caso foi a especialista que contrariou o profeta.

Contrariando Millôr Fernandes, em “A Bíblia do caos”: “O especialista é o que só não ignora uma coisa”.

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Marcelo Lamas é cronista. Aos questionar seus pares sobre qual seria a “especialidade” do autor, ouviu: contar histórias e mudar de assunto repentinamente.
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Autodidata

Toda vez que escuto alguém dizer que é autodidata fico com vontade de rir. Não é questão de soberba. Na hora que ouço a palavra, lembro da máxima do Mario Quintana: “O autodidata é o ignorante por conta própria”.

Também fico com a consciência pesada, pois escolhi fazer minhas formações técnica e superior na área de exatas, embora tivesse orientação profissional à época que sugeria migrar para humanas.

Assim, para exercer meu hobby de escrever, procuro participar de oficinas de literatura anualmente. Lembro de uma ocasião em que fui visitar um escritor renomado, já passado dos setenta anos, que durante nossa conversa me perguntou várias vezes: “Mas onde mesmo que fizeste jornalismo?”, e eu tinha que explicar que era apenas um contador de histórias.

Nas últimas duas semanas, tirei férias do meu trabalho formal numa indústria vital e fui atrás de mais um curso de criação literária. Como minha agenda não estaria toda ocupada – e assombrado pelo Mario Quintana – fui atrás de outro curso.

Ocupando o espaço da crônica do cotidiano neste projeto @UmCafezinhoque tem café como ponto de partida”, resolvi investir num curso sobre a bebida e, além de ter contato com pessoas de várias tribos – e estados , encontrei três pluralidades importantes sobre o café:

  1. Ciência: há muito estudo desde o plantio do fruto, as condições de solo, altitude, forma de colheita, entre outros;
  2. Exata: é possível fazer um café excelente, com temperaturas, quantidades e tempos, seguindo as receitas dos baristas;
  3. Humana: faz parte do estilo de vida de empreendedores, baristas e entusiastas que formam uma classe unida, heterogênea e sem preconceitos, na qual a palavra concorrente parece não fazer sentido.

A propósito: No próximo final de semana, este cronista vai participar de um curso de literatura de cordel. Caso algum dia, resolva se aventurar por ali, não poderá ser acusado de ser “autodidata” pela concorrência.

 

Marcelo Lamas é cronista. Já visitou mais de cem cafeterias, e as melhores foram aquelas recomendadas pelo visitado anteriormente.
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Invenções

Qual foi a principal invenção da humanidade? A resposta dos (as) leitores (as) pode ser a mais variada, desde a roda até a internet. É provável que os seguidores de @UmCafezinho possam ter respondido pelo impulso cafeinólatra e terem bradado: “Foi o filtro de café!”.

Em uma publicação recente a revista National Geographic fez uma lista com as dez mais importantes invenções, a saber:

  1. Tipografia
  2. Lâmpada
  3. Avião
  4. Computador Pessoal
  5. Vacina
  6. Automóvel
  7. Relógio
  8. Telefone
  9. Geladeira
  10. Câmera Fotográfica

Para surpresa de muitos, ela apontou a TIPOGRAFIA em primeiro lugar. A publicação explicou a lógica: “A tipografia permitiu a difusão da palavra impressa e da alfabetização, o que, por sua vez, facilitou o compartilhamento das ideias e a invenção de outras coisas”.

Lembro dos meus primeiros contatos com a tipografia: Eram os anúncios de revistas e jornais que meu pai recortava e me ajudava a decorá-los, relacionando a marca (os tipos gráficos) ao produto. Para os leigos, eu já sabia ler aos 5 anos.

As pessoas ficavam espantadas quando me viam andando pela rua, de mãos dadas com a mãe e “lendo” em voz alta as fachadas. Fazia de propósito. Numa esquina, havia uma loja com prédio imponente, cujo nome, nunca erraria. Ali, não eram os tipos gráficos da logomarca que chamavam minha atenção. Não era uma questão visual. A sensação vinha antes de avistá-la. Era o cheiro da torrefação de cafés da cidade. Ficava entorpecido. Por vezes, até me culpo, pois a minha primeira lembrança de café é daquele aroma, enquanto a maioria lembra do café que suas avós faziam no fogão à lenha.

A propósito, todos dizem que aquele café da -sua- vovó era o melhor do mundo. Por sorte, antigamente não haviam os concursos, muita gente ficaria magoada.

Parafraseando João Chiodini: “Utilizando as versões romanceadas de nossas vidas, editadas pela nossa cachola, vamos dizendo o quão eram especiais nossas datas, nossas ocasiões e nossas experiências (…)”.

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Marcelo Lamas é cronista e acredita que a maior invenção foi o lápis, tanto que mantém o seu projeto original desde 1564.
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Aprecie com moderação

Naquela época não era comum crianças gostarem de café. O “pretinho” era coisa para adultos. A turminha era chegada no achocolatado – que hoje migrou para a listinha dos vilões, aquela que começou com a carne e já chegou na farinha branca.

Quando criança, só tomava café na casa da tia Manoela. Ninguém entendia direito aquela pré-disposição, principalmente minha mãe, enciumada. Vai ver a tia Manoela usava café especial e ninguém sabia ou tinha feito curso de barista. Dizem que um terço do sucesso do café está na habilidade deste profissional.

Ano passado, o cardiologista me recomendou diminuir a dosagem de café. Usei o mesmo expediente de um amigo, cujo ortopedista recomendou-lhe parar com o jogo de futebol dos sábados. Troquei de médico!

Nessa semana, na sala de espera da dentista resolvi seguir o que o Carpinejar disse: fazer as crônicas no bloco de notas e não ter ritual pra escrever. Saquei meu telefone e comecei a fazer este texto, com o aparelho na horizontal. Uma moça que estava na minha frente deve ter pensado que eu estava na jogatina, pois mal olhei pra ela quando me cumprimentou.

Ali, lembrei da infância, quando ia ao dentista e como prêmio por bom comportamento ganhava uma Coca-Cola no boteco da frente. Ainda não havia aquela listinha do mal. Ao longo dos últimos 20 anos como paciente da Dra. Mariluci, poucas vezes ela sugeriu a redução do consumo de bebidas que podem escurecer os dentes, o que facilita o nosso “relacionamento”. Mal sabe ela: assim que saio de lá, vou tomar uma dose grande de espresso com leite e comer um pastel de nata na padaria da esquina, não importa o produto que a Mariluci tenha aplicado ou a recomendação que tenha dado.

Um dos pensamentos mais difundidos do poeta Mario Quintana (1906-1994) resume tudo isso: “O passado não reconhece seu lugar, está sempre presente”.

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MARCELO LAMAS é cronista. Trocou o vício de Coca-Cola por café. A tendência é que não mude mais, pois há muitas marcas a serem experimentadas e cafeterias a serem conhecidas por aí.

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Carta de condolências

Embora escreva há mais de duas décadas, tenho dificuldade para fazer textos pessoais e intransferíveis, aqueles com sentimentos envolvidos, como homenagens de aniversários e de dia das mães.

Meses atrás, faleceu um cliente de uma das empresas que presto serviços. Fui acionado para escrever a carta de condolências. Antigamente havia um padrão de carta – fiz alguns desses – agora elas são customizadas.

Por sorte, conhecia o sujeito e fiz umas cinco linhas com os pesares. Também usei a técnica do reconhecimento de todas as virtudes – depois que a pessoa morreu.

Outro dia, me ligou a secretária de outra companhia, solicitando uma cartinha em homenagem póstuma ao pai falecido de um cliente. Ela não sabia o nome do homem, não sabia a causa mortis, tampouco a profissão. Quando a questionei, alegou que só tinha a informação sobre o falecimento do pai do Sr. Celso Alberto e que queria antecipar-se, deixando o documento pronto para o chefe despachar, assim que retornasse de uma reunião. Enviei a sugestão e a secretária proativa me ligou:

– Oi Marcelo!
– Oi Lucy!
– Obrigado pela carta. Tenho duas perguntas pra te fazer:
– Pode falar.
– São só essas três linhas mesmo?
– Sim, é isso! Não temos informações sobre o finado, se era operário, bancário ou professor? Se estava doente ou se foi mais uma vítima do transito…
– Ah! Tá bom!
– E a outra pergunta?
– Marcelo, o nome dele era Alberto? Como você descobriu?
– Deduzi.
– Deduziste?
– Sim. Se o nome composto do filho é Celso Alberto, e esta combinação não combina, certeza que o segundo nome foi uma auto-homenagem do pai dele.
– Acho que tu não és muito certo das ideias.
Rimos, nos despedimos e até hoje não sei o nome daquele falecido.

EM TEMPO:

Após os acontecimentos da crônica acima, o autor participou de um encontro de pessoas enlutadas (ONG Movimento Marcha do Silêncio). Espera ter melhor argumentação numa próxima carta de pêsames. Visite o site www.vamosfalarsobreoluto.com.br.

Parafraseando Mario Quintana no livro “A cor do invisível”:

Inscrição para um portão de cemitério
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!

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Marcelo Lamas é cronista e só tem uma exigência póstuma: Pular a etapa do velório. Não quer deixar a última impressão de que “O café estava frio no velório do Marcelo…”.

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A jararaca

Há quem diga que eu era o neto preferido da Alice. Essa fama vinha da minha disponibilidade em aceitar os convites incomuns que ela fazia. Numa ocasião fui com ela visitar uma amiga. Ela tinha a intenção de “roubar” a receita de uns pontos de tricot, fazendo perguntas para a hábil senhora. Ouvi tudo, mas não sabia do plano.

Quando chegamos de volta em casa, a avozinha foi traída pela memória e não conseguiu repetir a sequência certa, enquanto tentava mostrar para minha mãe. Vendo sua ansiedade, tentei ajudar, sugerindo “uma laçada, um tricot, dois pontos juntos e um sem fazer tricot”. E – advinhe? – funcionou.

Os olhos azuis da velha – sobre os quais ninguém sabia a origem, pois era descendente de portugueses e africanos – brilharam e ela ficou impressionada com o acerto.
No outro dia, bem cedo, a Alice bateu lá em casa e disse a minha mãe: “Preciso do Marcelo!”. A minha mente infantil não entendia como uma criança de cinco anos poderia ajudar em alguma coisa.

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A mãe me vestiu com a única roupa de passeio e me despachou com ela. No caminho, me explicou que íamos na casa de outra amiga, a qual referia-se carinhosamente com uma alcunha: “Marcelo, nós vamos na casa da Jararaca. Mas tu chamas ela de Olga, viste?!”.

A Jararaca, digo a dona Olga, era a benzedeira da vila, a responsável pela medicina alternativa da época. Por exemplo, se a pessoa tinha dores nas costas, ia ao médico, fazia radiografia, tomava duas caixas de remédio, fazia massagens, mas o que as curava era a benzedura simultânea.

Minha avó passou o plano: “Vou pedir para a Jararaca te benzer. Tudo que ela te disser tu vais decorar, ouviste?!”. A Jararaca realizou o procedimento, falando alto e me afumentando. Eu quietinho tentando memorizar.

Mal saímos do portão gigante, que escondia a casa assombrada e sem cor, a Alice puxou uma caneta BIC verde e um caderninho da bolsa e anotou passo-a-passo a benzedura, não dando chances para o esquecimento.

A Alice passou a ser a benzedeira exclusiva da família e eu, pela primeira vez, me senti útil.

Parafraseando Luiz Toledo: “A saudade é a prova que estamos vivos e que tudo realmente aconteceu”.

 

Marcelo Lamas é cronista e vive anotando tudo para não esquecer. Na infância, acompanhava a avó Alice, em viagens às colônias pomeranas para vender roupas. A melhor hora do dia era a do café na casa da Sra. Renilda.

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Medo de Vírus

O seu Lamas, meu pai, sempre gostou de fotografias. Tem uma coleção enorme de originais em P&B, de times de futebol, nos quais ele jogava desde a década de 1950. Lembro que sempre tivemos câmera em casa, desde a pequena Kodak Instamatic, que tinha flashes descartáveis e depois evoluindo até as máquinas digitais.

Acontece que meu pai não usa computador, sempre imprime as suas fotos preferidas e as coloca em uns porta-retratos, numa parede infinita que ele tem na garagem. Numa ocasião, cansado de anotar meu e-mail e celular em guardanapos de papel nos eventos literários, providenciei cartões de visita. Quando entreguei um deles para o seu Lamas, ele pediu uma caixinha, e toda vez que alguém fazia uma foto, dizia: “Envia para o meu filho, por favor?”. Adiante, ficava me cobrando o recebimento.

Recentemente, meus pais participaram de uma colônia de férias. No primeiro dia, a recreadora bateu uma foto dos “velhos” e recebeu meu cartão. Toda vez que falava com ele, me questionava: “Recebeste a foto?”. Depois de uma semana de atividades, como bingo, pingue-pongue, caminhada e teatro, Seu Lamas, foi taxativo:

– Marcelo! A Íris ainda não te enviou a foto? Ela disse que mandou vários e-mails!
– Pera aí… Tu disseste Íris?
– Sim, a recreadora.
– Deixa eu olhar minha lixeira…
– Lixeira?
– Sim pai. O primeiro e-mail que ela mandou tinha como assunto: “FOTOS DO CASAL NA PISCINA”.
– E o que que tem isso?
– Achei que fosse vírus, e passei a apagar tudo que chegava dessa Íris.

Semana passada, me cadastrei no site de uma universidade americana, a pedido de um colega, para recomendá-lo profissionalmente a uma bolsa de estudos. Ontem, ele me indagou sobre o recebimento do e-mail de confirmação. Estou quase certo que o apaguei. Sabe como é? Mensagem em inglês e cheia de palavras em caixa alta, certeza de que é vírus.

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Marcelo Lamas tem medo de vírus do mundo digital e no mundo real esquece de segurar com a mão esquerda as xícaras de café que empunha na rua, como faz religiosamente um amigo, dizendo que isso diminui as chances de contrair qualquer doença do usuário anterior, desde que aquele não fosse canhoto.

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Vidente

Numa costumeira ligação para a mãe, distante 900 km:

– Oi mãe!

– Oi filho!

– Que bom que ligaste Marcelo, queria falar contigo.

– Podes falar…

– Fui numa vidente, ela disse uma coisa importante quando mostrei a tua foto.

– Mãe, tu acreditas nisso?

– Claro filho! Ela acertou tudo a teu respeito.

– Acertou o quê, mãe?

– Ela disse que tu és muito inteligente…

– Mãe…

– Ela também disse que tu tens um problema sério!

– Qual? Mãe?

– Ela disse que as pessoas te falam as coisas e que aquilo entra num ouvido e sai do outro.

– Mãe…

– Tu não acreditas, né?

– A foto era de óculos?

– Era.

– Mãe, uma foto de óculos da um ar de inteligência…

– E sobre “não ouvir o que as pessoas te dizem?”

– Toda mãe acha que os filhos não dão a mínima para os seus conselhos…

– Olha só, tá vendo! Ela acertou! Te falei! O que ela disse e entrou num ouvido e saiu no outro. Tu não tens jeito mesmo.

Parafraseando o jornalista americano H.L. Mencken (1880-1956): “É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade, quando você sabe muito bem que mentiria se estivesse no lugar dele”.

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Aos quatorze anos de idade, o poeta Mario Quintana visitou uma cartomante, junto com amigos adolescentes. Todos viram alguma coisa quando solicitados, mas o jovem Quintana disse: “Só vejo a ponta do meu nariz!”. Ela, indignada, o acachapou: “Vejo que você será um homem famoso aos 60 anos!”.

Recém-sexagenário, o escritor assinava contrato com uma grande revista que, além da fama, lhe garantiria a segurança financeira para não voltar a ser ameaçado de despejo dos hotéis onde morava, o que aconteceu inúmeras vezes. O Hotel Magestic, um imponente prédio de 6 andares em Porto Alegre, onde ele morou por 12 anos, foi comprado pelo governo gaúcho, tombado, reformado e inaugurado – com a presença do poeta – como Casa de Cultura Mario Quintana.

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Marcelo Lamas é cronista. Não crê em vidente, mas segue a risca os conselhos dos mais velhos. Prefere café sem açúcar, assim como o Quintana.

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