A escrita e a gastronomia

A primeira experiência escrita do mestre de todos os cronistas, o gaúcho Luis Fernando Verissimo – grifado assim, sem acentos – não deu muito certo. Conta ele, que o editor do jornal o escalou para ser o responsável pelas previsões astrológicas, numa época em que o acesso a este tipo de informação era restrito.
 O escritor bolou um plano – quase – perfeito. Criou previsões genéricas e as embaralhava entre os signos e os dias da semana. Ele só não contou com a hipótese de que alguém do signo de virgem quisesse saber o que estava previsto para o seu namorado(a) aquariano(a) naquele dia. E que ao ler, a pessoa veria a mesma previsão do seu próprio signo, lida na manhã anterior. E que ela teria o jornal velho ali na lixeira, para comprovar a farsa.

O editor não desistiu do jovem jornalista e o escalou para fazer notas gastronômicas, nas quais o “gordinho” avaliaria os restaurantes da redondeza. Naquele espaço limitado, no rodapé da página de variedades, os leitores perceberam o talento de LFV para os textos curtos – o pai Erico Verissimo (1905-1975) já era consagrado com suas narrativas longas, como “O tempo e o vento”, e foi o primeiro autor brasileiro a viver de escrever.

Naquele começo, Luis Fernando Verissimo já atestava a máxima do seu amigo Mario Quintana (1906-1994): “Os verdadeiros poemas estão nos pequenos anúncios de jornais”.

Lembrei desta história quando atualizava meu curriculo literário (carta de condolências, discurso de formatura, estatuto de time de futebol, manual de instrução, procedimento de benzedeira, entre outros) e precisava incluir “receita gastronômica”. Em 2015, participei de um concurso de receitas saudáveis. Ganhei o prêmio. Quando postei a foto do enorme diploma, com meu nome impresso, recebi várias manifestações e cumprimentos pelo feito. Alguns – bem chegados até – comentavam que desconheciam este meu “dom”.

Acontece que nem sei ligar o fogão. O concurso era feito através de um formulário a ser preenchido, não precisei executar a receita. Também não sei se alguém o fez, pois a disputa foi numa cidade onde estava eu de passagem. Mantive sigilo quanto minha inaptidão na cozinha. Deixei que pensassem que eu tinha algum outro predicado, além de cronista insistente e de lateral direito do time da família.

Adiante, anotei na minha listinha de pendências a obrigação de fazer um curso sério de culinária. Quando comecei as pesquisas sobre as opções que São Paulo oferecia, cruzei com um curso sobre cafés, e por ora, é este o diploma que faz companhia ao da receita premiada e aos dos cursos literários na minha pastinha.

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Marcelo Lamas é cronista e taurino. Autor de “Indesmentíveis”, “Arrumadinhas” e “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
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Gordinhos assumidos

Desde o final do ano passado resolvi mudar minha qualidade de vida. Embora soubesse que a base seria uma boa alimentação aliada aos exercícios frequentes, fui em busca de orientação profissional.

Na primeira consulta com a coach, perguntou se eu tinha ido a pé: “Não!”, respondi. E pela cara que ela fez entendi o recado. Depois perguntou o que eu poderia fazer no dia seguinte, ou seja, não era para esperar a segunda-feira. Pensei: “Amanhã? Já? Não dá pra fazer nada!”. Ela ficou me olhando nos olhos, com aquele sorriso permanente dos coachs. Eu não podia deixa-la sem resposta: “Posso fazer exercícios e cortar as bolachas”.

Contei minha história de amor com elas e a orientadora já me aconselhou a me livrar das bolachas e não(!) comer tudo primeiro e começar a dieta depois. Levei todo o meu estoque para o pessoal do trabalho. Quando alguém reclamava de fome, eu entregava um pacote de bolachas. Por alguns dias, fui considerado a melhor pessoa do mundo.

Atualmente participo de um grupo com encontros semanais cujas camisas têm a estampa: “Emagrecimento Saudável”. Particularmente não gostei do nome, mas deve ter algum efeito subliminar. Parece-me sinônimo de “Gordinhos Assumidos” (GA). Mas o que importa é que o projeto tem sido muito importante como aprendizado, reeducação e principalmente com o convívio e compartilhamento de experiências.

Com as restrições sugeridas – porque ninguém é obrigado – pude perceber a quantidade de pessoas / páginas gastronômicas que sigo. Não passo fome cumprindo o plano alimentar, mas passo muita vontade vendo aquele monte de comida na timeline. Vou ter que deixar de seguir algumas dessas gordices.

No último encontro do “GA”, nossa nutricionista – que já foi apelidada de Barbie – recomendou o desafio de cortar totalmente o açúcar. Alguns colegas indagaram: “Mas até no café?”. E a resposta foi “Sim! Até no café!”. Por sorte, o cronista aqui já tinha adotado esse hábito seguindo broncas familiares e dicas de baristas.

O difícil foi cortar os docinhos que acompanhavam os cafezinhos, sempre na proporção de um para um.

PS: Na véspera da Páscoa, nossa coach enviou para o grupo uma sugestão de ovo trufado, daqueles para comer de colher: Era a foto de um mamão papaia, cortado ao meio e cheio de linhaça e aveia por cima. Providenciei um igualzinho e o comi pensando em um Kit-Kat.

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Marcelo Lamas é cronista e relata o cotidiano desde 1994. Autor de “Indesmentíveis”, “Arrumadinhas” e “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”. Em 2015 descobriu que é hipertenso e recebeu ordem médica: “Não deixa teu peso subir”.
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Combustíveis

Conversava com meu pai sobre a alta dos preços quando ele – que mora em outro estado – me questionou:

– Quanto está a gasolina aí?

Respondi na soberba:

– Não sei! Aqui tem uma máfia do combustível, não faz diferença pesquisar. Só paro, abasteço, pago e vou embora. É uma questão de necessidade, não tem o que fazer.

O velho respondeu:

– Hum! Sei.

Emendei:

– Pai, tem duas coisas que não pergunto o preço: gasolina e café.

E a conversa ficou por aí.

************

No final do ano passado, minha tese foi colocada à prova. Fiz uma viagem de carro a Montevidéu. Cheguei ao destino na noite de Natal. O hotel que escolhi estava com os serviços restritos, incluindo o café-bar.

Saí para dar uma volta pelo centro à procura de um café. Quando cheguei ao marco zero, a Praça Independência, vi um hotel enorme do outro lado da rua. Daqueles de rede internacional, com um luminoso indicado haver um cassino no seu interior.

Fui até lá, passei pela porta giratória e perguntei para a recepcionista se ali havia uma cafeteria. Ela disse “Sí”, e sinalizou que ficava após um grande saguão.

Segui até lá, pedi um expresso (Illy), uma medialuna (croissant) e um doce que parecia uma flor. Matei o que estava me matando. Paguei com o cartão e voltei para o meu hotel.

Semanas depois, já de volta ao Brasil, recebi a fatura do cartão de crédito. Além de ficar assustado com o valor do litro da gasolina comum na faixa dos R$ 6 no país vizinho, também torci o nariz ao ver a conta daquele cafezinho da noite do Natal, em torno de R$ 100.

Agora, sei de bate pronto o preço de ambos. Com relação ao café natalino, seguramente por ser uma commodities, a culpa não foi da bebida. Bem, caso tenha sido, o que importa é que os grãos eram especiais e que a (o) barista caprichou na extração.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”, “Arrumadinhas” e “Mulheres casadas têm cheiro de pólvora”.
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Telefone fixo

Outro dia recebi uma informação confidencial e o sujeito me advertiu:

– Cara, cuida com o que vais fazer com isso!

– O quê? Qualquer coisa eu sumo e ninguém me acha.

– Cara, eu te acho pelo Google, é só querer.

Depois dessa conversa, refleti sobre o quanto era difícil encontrar uma pessoa há duas ou três décadas. A primeira vez que me interessei por uma menina, o único jeito possível de fazer contato era segui-la, depois da escola. Isso não era lá muito difícil. O complicado era ficar escondido da mãe dela, que logo percebeu o gurizote de óculos no encalço.

Certa vez, quebrei a cara: a mãe de uma pretendida me conhecia de vista, pois trabalhava no mesmo hospital que a minha mãe. E deixou vazar no cafezinho: “Os nossos filhos se gostam!”. Aí sofri bullying em casa: “Com namoradinha, hein Marcelo?!”.

Depois aprimorei o método de contato. Com a chegada do telefone aos bairros interioranos, dava pra saber quais casas tinham o aparelho, pela simples observação da fiação – seria um indício que este cronista viria a ser um engenheiro eletricista?

Caso não soubesse o endereço, bastava saber o sobrenome da menina, então, era só procurar na lista telefônica pelo número que tivesse os dígitos iniciais do bairro. Se tivesse dois “Duartes” com telefone naquele bairro, aí tinha que aprimorar a pesquisa e descobrir o nome dos pais. Essa combinação era infalível. Depois era só ficar ligando, até ter a sorte de ela atender. Caso fosse outra pessoa, era só dizer que era engano. Ou desligar na cara! Confesso que utilizei mais esta última.

Li em uma crônica da Martha Medeiros que era muito constrangedor receber os telefonemas dos garotos, porque era o pai que atendia e a chamava forçando uma voz autoritária, para amedrontar os candidatos. E que ela era obrigada a ficar ali, diante de todos, dando respostas monossílabas e sendo observada pela família, pois os telefones fixos ficavam na sala da casa, eram sinônimo de status e objetos decorativos – o lá de casa era vermelho.

Depois de ler o texto, fiquei com a consciência pesada, pois sempre estive na posição confortável de estar sozinho, enquanto fazia minhas abordagens. Agora, devo passar por mal-educado, quando ligo para alguém não gasto muito tempo com as saudações, vou direto no “Podes falar?”. Deve ser um jeito inconsciente de acertar essa conta antiga, dando opção para a pessoa sinalizar que “não”, que ligar em outro horário seria melhor.

Semana passada estive em São Paulo e fiquei com preguiça de procurar uma cafeteria com boa recomendação e de sair para longe do hotel. Acionei o “locais nas imediações” e acabei tomando um café ruim. Na maioria das vezes a praticidade não vale tanto a pena assim. É melhor gastar um tempinho investigando, como se fazia no passado.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis. Segundo seus colegas de trabalho, se tivesse nascido animal, seria um cachorro perdigueiro.
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Foto: Marcelo Lamas / Cafeteria @bellocacau

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Simplicidade

Recentemente fiz uma expedição ao Uruguai e o que mais me impressionou por lá foi a simplicidade das coisas. A seguir listo uma pequena amostra do que me encantou:

O povo

As pessoas são agradáveis, tranquilas e prestativas, o que se percebe desde o serviço de imigração. No Uruguai, se você quiser falar com o presidente, basta esperar a saída do expediente, pois ele tem que caminhar até o local onde é permitido estacionar. Devido à população não ser tão grande – mas ser altamente politizada – as decisões são tomadas mais rapidamente, a lei do divórcio, por exemplo, foi decretada 70 anos antes que no Brasil.

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O homem do Guiness

Voltei a visitar o “Museo de Colecciones Arenas”, em Colônia do Sacramento. Entre frascos de perfumes, pins, chaveiros e bonés, o que se destaca é a maior coleção de lápis do mundo. É o próprio Sr. Emílio Arenas que apresenta as curiosidades do acervo. Ele tem uma cafeteira de 1860, que funcionava originalmente à carvão e que após uma reforma na Argentina, foi modernizada para o gás. Quando perguntamos se ele não tinha problemas com cupins, pois a coleção é cuidadosamente organizada em caixas de madeira, ele respondeu: “Uso Jimo”. Simples assim.

Café

Como sabia que no país vizinho aceitam qualquer moeda, catei todos os níqueis e cédulas de viagens passadas. Para não ficar perdido nas conversões, fazia as contas baseado no preço de um cafezinho(100 pesos). Essa utilidade do café eu ainda não havia experimentado! Em uma loja de esportes, gostei muito de um par de tênis. Não o comprei. Achei que 55 cafezinhos era um valor absurdo.

É importante dizer que só tomamos bons cafés lá no país vizinho – seguramente com boas doses de grãos brasileiros. Eles não vinham harmonizados com chocolatinho para disfarçar o amargor. Todos chegavam ao nosso paladar na temperatura certa, bem quente! Nas nossas incursões pelo Brasil, percebemos por vezes muito glamour nas cafeterias e pouca temperatura dentro das xícaras.

 

Marcelo Lamas é o autor de Indesmentíveis (Camus Ed.). Para poder experimentar mais opções de cafés, padronizou as doses em tamanho pequeno.

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Foto: Marcelo Lamas

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Cidade fantasma

Estava em férias e voltei para a pequena/média cidade do interior onde vivo, pois precisava resolver uns problemas burocráticos. Fui ao cartório e a Jéssica – sim, aqui as pessoas se conhecem pelos nomes – já avisou que eu teria problemas para conseguir pagar uma taxa da prefeitura.

E foi o que aconteceu. A pessoa responsável pelos tributos estava em férias. Vou ter que esperar ela voltar. Também tentei fazer uma doação de sangue e advinhe? Hemocentro com as luzes apagadas. Fiquei bem chateado com isso. Aliás, a cidade toda estava assim, com plaquinhas de FECHADO, penduradas nas portas. As empresas encerram as atividades antes do Natal e só abrem no meio de janeiro. Como há várias praias num raio de 80 km, parece que boa parte da população migra pra lá. Só tinha uma barbearia funcionando e tive que esperar um bom tempo na fila para cortar o cabelo.

Com tudo isso, só não pensei em enforcamento – alternativa comum nos arredores – porque a melhor cafeteria da cidade só fez uma pausa entre as datas festivas, coincidentemente enquanto eu não estava.

Aqui, o condado é naturalmente protegido por morros e rios, o que impede as ações criminosas, além de ter uma polícia bem equipada pelo empresariado. Tudo isso rendeu o título oficial de cidade mais segura do país.

Certa vez, solicitei à prefeitura que desligasse os semáforos (e as máquinas de multa) na madrugada, para não ficar parado como “presa” debaixo do sinal vermelho. A resposta foi que não havia ocorrências desse tipo nesta latitude. Para essa negativa do poder público não fiquei estressado.

Parafraseando Mario Quintana (1906-1994): “Uma boa frase acaba com qualquer desentendimento”.

Que tenhamos bons cafezinhos em 2018!

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Marcelo Lamas é cronista. Reside em Jaraguá do Sul (170 mil habitantes), no norte de Santa Catarina, estado no qual metade dos municípios não tiveram mortes violentas em 2017.
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Presente de Natal

Véspera do aniversário de Cristo. Depois de dirigir por doze horas, cheguei ao extremo sul do Brasil para passar as festas de fim–de–ano com meus pais. Mal tinha largado a mala, fui intimado pela mãe: “Marcelo! Recebi um telefonema da Santa Casa. Está faltando alguém para ser o Papai Noel. Acho que podes ajudar”.

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Também era o meu primeiro dia de férias e ainda estava meio amassado da viagem. Na hora, lembrei da máxima da sabedoria popular: “Se família fosse bom, Deus tava cheio de irmãos”. O termômetro marcava 35°C, vestir uma fantasia de mangas longas e com barba comprida não estava nos planos daquela tarde ensolarada. E tinha o agravante de ter que colocar uma almofada na barriga, para disfarçar meu modesto peso, insuficiente para o novo cargo. 

Porém, a consciência pesou. Minha mãe sempre trabalhou no Centro Cirúrgico daquele hospital e, mesmo após a aposentadoria, continuava ministrando aulas de Enfermagem e Obstetrícia na Santa Casa. Lembrei das inúmeras festas de funcionários que frequentei na infância, dos presentes, doces e refrigerantes ganhos. Na instituição, havia o ícone Padre Barbieri, um franciscano sexagenário que dava aulas de reforço em várias ciências e que me ajudava com os problemas da matemática.

Resolvi retribuir as gentilezas e fui para o nobre evento. Juntamente com a equipe do presépio, andei pelos corredores, quartos e salas do hospital, cumprimentando as pessoas e distribuindo pequenos panetones.  Fiz uma voz que julguei ser parecida com a do Noel oficial. Na maternidade, as mães faziam questão que eu segurasse suas pequenas jóias. Na pediatria, as crianças comemoravam minha chegada. Na geriatria, os idosos ficavam emocionados, como se estivessem diante de um ídolo. Outros, “esquecidos” pelas famílias, incontidos, mostravam alguma nova esperança. 

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Na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) uma jovem paciente que parecia estar há tempo imóvel, com uma lenta e esforçada piscada de olhos, “me disse”: “Obrigado por ter vindo!“. Foi meu presente de Natal inesquecível. Naquela tarde, nem senti falta do meu sagrado cafezinho.

Feliz Natal!

 

Marcelo Lamas é cronista. Em 1978 pediu uma irmãzinha (a Susana) para o Papai Noel. 

*Crônica original publicada no livro “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora” – Design Editora, 2009.
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Negócios virtuais

Por conta da mudança para outro apartamento, minha namorada precisou se desfazer de algumas coisas. Ela tem uma boa coleção de quadros sobre café, inclusive o de uma embalagem estampada, sobre o qual, até o cafeicultor dono da marca, ficou espantado ao saber.

Num dia que eu estava de folga, ela me ligou do trabalho:

– Marcelo, podes entregar um quadro que vendi pela internet?

– Posso, qual deles?

– Aquele branco, que tem uma flor! Anturium ou lírio..

– Não é de café?

– Claro que não! (risos)

Parti para a operação. Era um pouco mais complicado do que pensei. O quadro era grande. Para tirá-lo do lugar tive que subir na mesa, contrariando meus conhecimentos sobre a NR 35 (Trabalho em Altura).

Além da minha descoordenação habitual, tinha o agravante de o quadro ser todo de vidro, até a moldura. Consegui remover o corpo, colocar no carro e fazer o carreto.

Chegando ao destino, lá estava eu na portaria de um condomínio fechado. Tive que fazer um cadastro de entregador e foi difícil convencer o porteiro que eu não tinha nota fiscal, tampouco CNPJ ou nome da firma.

Enquanto fazia o procedimento, pensava o que levaria uma pessoa que mora num lugar tão requintado, querer comprar um quadro de segunda-mão de outrem? Vai ver o quadro era uma obra de valor e eu estava por fora.

Quando finalmente cheguei à residência 8, fui recepcionado por uma moça vestida de empregada de novela. Confirmei a compra e ela me pediu para colocar dentro da casa.

Começou um novo drama. Não encontrava um lugar para colocar o quadro, num primeiro momento achei que a casa era tão grande que eu não via as paredes. Depois observei que o lugar era extremamente decorado. Só achei um cantinho para coloca-lo no chão, de costas, com a gravura para cima.

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Fui embora decepcionado, pensei que nesses lugares também se oferecia   @UmCafezinho, já fazia umas três horas que estava na labuta e já começava minha crise de abstinência.

Em tempo: minha namorada é a coffee lover, colecionadora de quadros e latas de café, mas o viciado da relação sou eu.

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”. Ao observar seus “negócios virtuais” comprovou o ditado popular “Ninguém é tão feio quanto o RG, nem tão bonito quanto nas redes sociais”. Com base na foto, nunca encontraríamos a pessoa na rodoviária.
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Vizinhança

A vida em condomínio não é fácil. Comecei a sentir isso quando precisei mudar de cidade e fui dividir apartamento com dois colegas do novo trabalho. 

Já era perto do final do ano quando a Dona Brunilde tocou a campainha do 703 e sem formalidade alguma, nem educação, esbravejou: “Onde está a guirlanda?”.

Eu nem fazia ideia do que ela estava falando, e respondi:

– O quê?

– A guirlanda de Natal que estava lá na portaria…

Demorei para deduzir que tratava-se de uma alegoria e que, por sermos os únicos solteiros do prédio éramos os suspeitos.

Ficamos os dois sem acreditar. Eu na desconfiança dela e ela na minha resposta. 

Foi a minha primeira (má) impressão sobre a vida em comunidade. E a dona Brunilde apareceu por lá algumas outras vezes.

**********

Semana passada, no condomínio que estou atualmente, uma moradora disparou a seguinte mensagem no grupo de mensagens prédio:

“Boa tarde, gostaria de saber que planta é aquela no hall de entrada? Desculpem, mas achei de extremo mal gosto, tanto a planta como o vaso. Se é para fazer decoração, tem que chamar um profissional, pois isso desvaloriza o prédio”.

Fiquei curioso para ver e quando o fiz, concordei plenamente com a vizinha reclamante,  alem de feia a planta artificial tem quase dois metros.

Acredito que os outros também, porém ninguém manifestou-se. Talvez para evitar uma indisposição com o dono(a) da obra de arte.

Como se não pudesse piorar, no dia seguinte, apareceram umas flores vermelhas gigantes que remetiam a uma árvore de natal. Mais dois dias e brotaram  umas miniaturas de passarinhos dentro de uns ovos quebrados, o que piorou muito o mau gosto anterior.

Nunca saberemos se foi reação do dono(a) da árvore ofendido por ter sido criticado; se foi a vizinha que enviou a mensagem vingando-se de todos que se omitiram e que agora tomarão alguma ação, porque do jeito que está não dá pra ficar; se foram os três moradores do prédio que ostentam passarinhos em cativeiro, querendo expandir seu hobby; ou ainda o sindico querendo mostrar algum investimento que justifique o reajuste que era pra uma reforma e ficou permanente.

Espero que desta vez, não esteja na lista de suspeitos.

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No seriado americano “Desperate Housewives” (Donas de Casas Desesperadas), os moradores de um vilarejo, recepcionam novos vizinhos com um bolo, inserindo os novatos na pequena sociedade.

Essas vivências que relatei poderiam passar batidas, caso a fórmula americana tivesse sido aplicada aqui. E se a “correria” fosse usada como desculpa para escapar do encontro de boas vindas, a saída seria o convite para um cafezinho, bem quente e sem açúcar, por favor!

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Parafraseando nosso filósofo brasileiro Millôr Fernandes: “Se o homem das cavernas soubesse o que ia acontecer, teria ficado lá dentro”.

 

Marcelo Lamas é cronista e autor de “Indesmentíveis”. Nunca será sindico.
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A parábola do café

Na casa dos meus pais não tem hora para tomar café. Vez por outra, estou falando com eles, perto da meia-noite, e minha mãe diz: “Vou lá tomar um cafezinho” e dá tchau! E nesse caso, não é desculpa para encerrar a ligação. Posso garantir que não interfere em nada no sono deles. Contrariando o que dizem os especialistas.

Os meus velhos tomam tanto café, que usam um método regional muito peculiar, chamado de “essência”, que consiste no preparo de um café passado no filtro de papel ou de pano, de modo que fique superconcentrado. Essa essência fica numa jarra, e toda vez que dá vontade de tomar um cafezinho, é só pegar uma dose e preencher a xícara com água quente. Assim eles consomem um café amargo e oxidado. Contrariando a sugestão dos especialistas.

Outro dia recebi uma parábola – aqueles textos que fazem uma volta e tem uma moral no final – que contava a história de um professor que convidou para uma conversa, seus ex-alunos que reclamavam de “stress”. O mestre ofereceu café aos bem-sucedidos profissionais. De posse de um bule, ele pediu que cada um pegasse uma xícara. Havia uma de cada tipo: porcelana, plástico, vidro e cristal. Depois que todo mundo tomou seu café, o professor concluiu: “Viram? Todos vocês pegaram a melhor xícara que puderam. Isso é natural, todo mundo prefere o melhor. E é isso que gera o stress de vocês. Asseguro que nenhuma delas acrescentou qualidade ao café. O que vocês queriam era o café, mas institivamente ficaram preocupados com a embalagem e deixaram de lado o que mais importava”.

Depois de ler esta parábola, fui consultar a Cinthia Bracco, da Coluna Litros de Café, minha “vizinha” aqui no @UmCafezinho: “O ideal é usar xícara de porcelana, pois não vai interferir no sabor da bebida e vai manter a temperatura por mais tempo. Antes de servir o café, o legal é aquecer a xícara com água quente para que ela também fique quentinha, ajudando ainda mais a manter a temperatura”. Nesse caso foi a especialista que contrariou o profeta.

Contrariando Millôr Fernandes, em “A Bíblia do caos”: “O especialista é o que só não ignora uma coisa”.

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Marcelo Lamas é cronista. Aos questionar seus pares sobre qual seria a “especialidade” do autor, ouviu: contar histórias e mudar de assunto repentinamente.
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