Simplicidade

Recentemente fiz uma expedição ao Uruguai e o que mais me impressionou por lá foi a simplicidade das coisas. A seguir listo uma pequena amostra do que me encantou:

O povo

As pessoas são agradáveis, tranquilas e prestativas, o que se percebe desde o serviço de imigração. No Uruguai, se você quiser falar com o presidente, basta esperar a saída do expediente, pois ele tem que caminhar até o local onde é permitido estacionar. Devido à população não ser tão grande – mas ser altamente politizada – as decisões são tomadas mais rapidamente, a lei do divórcio, por exemplo, foi decretada 70 anos antes que no Brasil.

Você vai gostar de ler:

O homem do Guiness

Voltei a visitar o “Museo de Colecciones Arenas”, em Colônia do Sacramento. Entre frascos de perfumes, pins, chaveiros e bonés, o que se destaca é a maior coleção de lápis do mundo. É o próprio Sr. Emílio Arenas que apresenta as curiosidades do acervo. Ele tem uma cafeteira de 1860, que funcionava originalmente à carvão e que após uma reforma na Argentina, foi modernizada para o gás. Quando perguntamos se ele não tinha problemas com cupins, pois a coleção é cuidadosamente organizada em caixas de madeira, ele respondeu: “Uso Jimo”. Simples assim.

Café

Como sabia que no país vizinho aceitam qualquer moeda, catei todos os níqueis e cédulas de viagens passadas. Para não ficar perdido nas conversões, fazia as contas baseado no preço de um cafezinho(100 pesos). Essa utilidade do café eu ainda não havia experimentado! Em uma loja de esportes, gostei muito de um par de tênis. Não o comprei. Achei que 55 cafezinhos era um valor absurdo.

É importante dizer que só tomamos bons cafés lá no país vizinho – seguramente com boas doses de grãos brasileiros. Eles não vinham harmonizados com chocolatinho para disfarçar o amargor. Todos chegavam ao nosso paladar na temperatura certa, bem quente! Nas nossas incursões pelo Brasil, percebemos por vezes muito glamour nas cafeterias e pouca temperatura dentro das xícaras.

 

Marcelo Lamas é o autor de Indesmentíveis (Camus Ed.). Para poder experimentar mais opções de cafés, padronizou as doses em tamanho pequeno.

@marcelolamasbr / marcelolamasbr@gmail.com / Facebook: @marcelolamasescritor

Foto: Marcelo Lamas

Compartilhe com seus amigos:

Cidade fantasma

Estava em férias e voltei para a pequena/média cidade do interior onde vivo, pois precisava resolver uns problemas burocráticos. Fui ao cartório e a Jéssica – sim, aqui as pessoas se conhecem pelos nomes – já avisou que eu teria problemas para conseguir pagar uma taxa da prefeitura.

E foi o que aconteceu. A pessoa responsável pelos tributos estava em férias. Vou ter que esperar ela voltar. Também tentei fazer uma doação de sangue e advinhe? Hemocentro com as luzes apagadas. Fiquei bem chateado com isso. Aliás, a cidade toda estava assim, com plaquinhas de FECHADO, penduradas nas portas. As empresas encerram as atividades antes do Natal e só abrem no meio de janeiro. Como há várias praias num raio de 80 km, parece que boa parte da população migra pra lá. Só tinha uma barbearia funcionando e tive que esperar um bom tempo na fila para cortar o cabelo.

Com tudo isso, só não pensei em enforcamento – alternativa comum nos arredores – porque a melhor cafeteria da cidade só fez uma pausa entre as datas festivas, coincidentemente enquanto eu não estava.

Aqui, o condado é naturalmente protegido por morros e rios, o que impede as ações criminosas, além de ter uma polícia bem equipada pelo empresariado. Tudo isso rendeu o título oficial de cidade mais segura do país.

Certa vez, solicitei à prefeitura que desligasse os semáforos (e as máquinas de multa) na madrugada, para não ficar parado como “presa” debaixo do sinal vermelho. A resposta foi que não havia ocorrências desse tipo nesta latitude. Para essa negativa do poder público não fiquei estressado.

Parafraseando Mario Quintana (1906-1994): “Uma boa frase acaba com qualquer desentendimento”.

Que tenhamos bons cafezinhos em 2018!

Leia também:

 

Marcelo Lamas é cronista. Reside em Jaraguá do Sul (170 mil habitantes), no norte de Santa Catarina, estado no qual metade dos municípios não tiveram mortes violentas em 2017.
@marcelolamasbr
facebook: marcelolamasescritor
e-mail: marcelolamasbr@gmail.com

Foto: depositphotos

Compartilhe com seus amigos:

Presente de Natal

Véspera do aniversário de Cristo. Depois de dirigir por doze horas, cheguei ao extremo sul do Brasil para passar as festas de fim–de–ano com meus pais. Mal tinha largado a mala, fui intimado pela mãe: “Marcelo! Recebi um telefonema da Santa Casa. Está faltando alguém para ser o Papai Noel. Acho que podes ajudar”.

Você vai gostar de ler:

Também era o meu primeiro dia de férias e ainda estava meio amassado da viagem. Na hora, lembrei da máxima da sabedoria popular: “Se família fosse bom, Deus tava cheio de irmãos”. O termômetro marcava 35°C, vestir uma fantasia de mangas longas e com barba comprida não estava nos planos daquela tarde ensolarada. E tinha o agravante de ter que colocar uma almofada na barriga, para disfarçar meu modesto peso, insuficiente para o novo cargo. 

Porém, a consciência pesou. Minha mãe sempre trabalhou no Centro Cirúrgico daquele hospital e, mesmo após a aposentadoria, continuava ministrando aulas de Enfermagem e Obstetrícia na Santa Casa. Lembrei das inúmeras festas de funcionários que frequentei na infância, dos presentes, doces e refrigerantes ganhos. Na instituição, havia o ícone Padre Barbieri, um franciscano sexagenário que dava aulas de reforço em várias ciências e que me ajudava com os problemas da matemática.

Resolvi retribuir as gentilezas e fui para o nobre evento. Juntamente com a equipe do presépio, andei pelos corredores, quartos e salas do hospital, cumprimentando as pessoas e distribuindo pequenos panetones.  Fiz uma voz que julguei ser parecida com a do Noel oficial. Na maternidade, as mães faziam questão que eu segurasse suas pequenas jóias. Na pediatria, as crianças comemoravam minha chegada. Na geriatria, os idosos ficavam emocionados, como se estivessem diante de um ídolo. Outros, “esquecidos” pelas famílias, incontidos, mostravam alguma nova esperança. 

Leia também: 

Na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) uma jovem paciente que parecia estar há tempo imóvel, com uma lenta e esforçada piscada de olhos, “me disse”: “Obrigado por ter vindo!“. Foi meu presente de Natal inesquecível. Naquela tarde, nem senti falta do meu sagrado cafezinho.

Feliz Natal!

 

Marcelo Lamas é cronista. Em 1978 pediu uma irmãzinha (a Susana) para o Papai Noel. 

*Crônica original publicada no livro “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora” – Design Editora, 2009.
marcelolamasbr@gmail.com
@marcelolamasbr

Facebook: @marcelolamasescritor

Foto: Depositphotos

Compartilhe com seus amigos:

Negócios virtuais

Por conta da mudança para outro apartamento, minha namorada precisou se desfazer de algumas coisas. Ela tem uma boa coleção de quadros sobre café, inclusive o de uma embalagem estampada, sobre o qual, até o cafeicultor dono da marca, ficou espantado ao saber.

Num dia que eu estava de folga, ela me ligou do trabalho:

– Marcelo, podes entregar um quadro que vendi pela internet?

– Posso, qual deles?

– Aquele branco, que tem uma flor! Anturium ou lírio..

– Não é de café?

– Claro que não! (risos)

Parti para a operação. Era um pouco mais complicado do que pensei. O quadro era grande. Para tirá-lo do lugar tive que subir na mesa, contrariando meus conhecimentos sobre a NR 35 (Trabalho em Altura).

Além da minha descoordenação habitual, tinha o agravante de o quadro ser todo de vidro, até a moldura. Consegui remover o corpo, colocar no carro e fazer o carreto.

Chegando ao destino, lá estava eu na portaria de um condomínio fechado. Tive que fazer um cadastro de entregador e foi difícil convencer o porteiro que eu não tinha nota fiscal, tampouco CNPJ ou nome da firma.

Enquanto fazia o procedimento, pensava o que levaria uma pessoa que mora num lugar tão requintado, querer comprar um quadro de segunda-mão de outrem? Vai ver o quadro era uma obra de valor e eu estava por fora.

Quando finalmente cheguei à residência 8, fui recepcionado por uma moça vestida de empregada de novela. Confirmei a compra e ela me pediu para colocar dentro da casa.

Começou um novo drama. Não encontrava um lugar para colocar o quadro, num primeiro momento achei que a casa era tão grande que eu não via as paredes. Depois observei que o lugar era extremamente decorado. Só achei um cantinho para coloca-lo no chão, de costas, com a gravura para cima.

Leia também: 

Fui embora decepcionado, pensei que nesses lugares também se oferecia   @UmCafezinho, já fazia umas três horas que estava na labuta e já começava minha crise de abstinência.

Em tempo: minha namorada é a coffee lover, colecionadora de quadros e latas de café, mas o viciado da relação sou eu.

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”. Ao observar seus “negócios virtuais” comprovou o ditado popular “Ninguém é tão feio quanto o RG, nem tão bonito quanto nas redes sociais”. Com base na foto, nunca encontraríamos a pessoa na rodoviária.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com
Facebook: @marcelolamasescritor

Compartilhe com seus amigos:

Vizinhança

A vida em condomínio não é fácil. Comecei a sentir isso quando precisei mudar de cidade e fui dividir apartamento com dois colegas do novo trabalho. 

Já era perto do final do ano quando a Dona Brunilde tocou a campainha do 703 e sem formalidade alguma, nem educação, esbravejou: “Onde está a guirlanda?”.

Eu nem fazia ideia do que ela estava falando, e respondi:

– O quê?

– A guirlanda de Natal que estava lá na portaria…

Demorei para deduzir que tratava-se de uma alegoria e que, por sermos os únicos solteiros do prédio éramos os suspeitos.

Ficamos os dois sem acreditar. Eu na desconfiança dela e ela na minha resposta. 

Foi a minha primeira (má) impressão sobre a vida em comunidade. E a dona Brunilde apareceu por lá algumas outras vezes.

**********

Semana passada, no condomínio que estou atualmente, uma moradora disparou a seguinte mensagem no grupo de mensagens prédio:

“Boa tarde, gostaria de saber que planta é aquela no hall de entrada? Desculpem, mas achei de extremo mal gosto, tanto a planta como o vaso. Se é para fazer decoração, tem que chamar um profissional, pois isso desvaloriza o prédio”.

Fiquei curioso para ver e quando o fiz, concordei plenamente com a vizinha reclamante,  alem de feia a planta artificial tem quase dois metros.

Acredito que os outros também, porém ninguém manifestou-se. Talvez para evitar uma indisposição com o dono(a) da obra de arte.

Como se não pudesse piorar, no dia seguinte, apareceram umas flores vermelhas gigantes que remetiam a uma árvore de natal. Mais dois dias e brotaram  umas miniaturas de passarinhos dentro de uns ovos quebrados, o que piorou muito o mau gosto anterior.

Nunca saberemos se foi reação do dono(a) da árvore ofendido por ter sido criticado; se foi a vizinha que enviou a mensagem vingando-se de todos que se omitiram e que agora tomarão alguma ação, porque do jeito que está não dá pra ficar; se foram os três moradores do prédio que ostentam passarinhos em cativeiro, querendo expandir seu hobby; ou ainda o sindico querendo mostrar algum investimento que justifique o reajuste que era pra uma reforma e ficou permanente.

Espero que desta vez, não esteja na lista de suspeitos.

************

No seriado americano “Desperate Housewives” (Donas de Casas Desesperadas), os moradores de um vilarejo, recepcionam novos vizinhos com um bolo, inserindo os novatos na pequena sociedade.

Essas vivências que relatei poderiam passar batidas, caso a fórmula americana tivesse sido aplicada aqui. E se a “correria” fosse usada como desculpa para escapar do encontro de boas vindas, a saída seria o convite para um cafezinho, bem quente e sem açúcar, por favor!

Leia também: 

Parafraseando nosso filósofo brasileiro Millôr Fernandes: “Se o homem das cavernas soubesse o que ia acontecer, teria ficado lá dentro”.

 

Marcelo Lamas é cronista e autor de “Indesmentíveis”. Nunca será sindico.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com
Facebook: @marcelolamasescritor

Foto: depositphotos

Compartilhe com seus amigos:

A parábola do café

Na casa dos meus pais não tem hora para tomar café. Vez por outra, estou falando com eles, perto da meia-noite, e minha mãe diz: “Vou lá tomar um cafezinho” e dá tchau! E nesse caso, não é desculpa para encerrar a ligação. Posso garantir que não interfere em nada no sono deles. Contrariando o que dizem os especialistas.

Os meus velhos tomam tanto café, que usam um método regional muito peculiar, chamado de “essência”, que consiste no preparo de um café passado no filtro de papel ou de pano, de modo que fique superconcentrado. Essa essência fica numa jarra, e toda vez que dá vontade de tomar um cafezinho, é só pegar uma dose e preencher a xícara com água quente. Assim eles consomem um café amargo e oxidado. Contrariando a sugestão dos especialistas.

Outro dia recebi uma parábola – aqueles textos que fazem uma volta e tem uma moral no final – que contava a história de um professor que convidou para uma conversa, seus ex-alunos que reclamavam de “stress”. O mestre ofereceu café aos bem-sucedidos profissionais. De posse de um bule, ele pediu que cada um pegasse uma xícara. Havia uma de cada tipo: porcelana, plástico, vidro e cristal. Depois que todo mundo tomou seu café, o professor concluiu: “Viram? Todos vocês pegaram a melhor xícara que puderam. Isso é natural, todo mundo prefere o melhor. E é isso que gera o stress de vocês. Asseguro que nenhuma delas acrescentou qualidade ao café. O que vocês queriam era o café, mas institivamente ficaram preocupados com a embalagem e deixaram de lado o que mais importava”.

Depois de ler esta parábola, fui consultar a Cinthia Bracco, da Coluna Litros de Café, minha “vizinha” aqui no @UmCafezinho: “O ideal é usar xícara de porcelana, pois não vai interferir no sabor da bebida e vai manter a temperatura por mais tempo. Antes de servir o café, o legal é aquecer a xícara com água quente para que ela também fique quentinha, ajudando ainda mais a manter a temperatura”. Nesse caso foi a especialista que contrariou o profeta.

Contrariando Millôr Fernandes, em “A Bíblia do caos”: “O especialista é o que só não ignora uma coisa”.

Leia também: 

 

Marcelo Lamas é cronista. Aos questionar seus pares sobre qual seria a “especialidade” do autor, ouviu: contar histórias e mudar de assunto repentinamente.
@marcelolamasbr
E-mail: marcelolamasbr@gmail.com
Facebook: marcelolamasescritor

Foto: Pixabay

Compartilhe com seus amigos:

Autodidata

Toda vez que escuto alguém dizer que é autodidata fico com vontade de rir. Não é questão de soberba. Na hora que ouço a palavra, lembro da máxima do Mario Quintana: “O autodidata é o ignorante por conta própria”.

Também fico com a consciência pesada, pois escolhi fazer minhas formações técnica e superior na área de exatas, embora tivesse orientação profissional à época que sugeria migrar para humanas.

Assim, para exercer meu hobby de escrever, procuro participar de oficinas de literatura anualmente. Lembro de uma ocasião em que fui visitar um escritor renomado, já passado dos setenta anos, que durante nossa conversa me perguntou várias vezes: “Mas onde mesmo que fizeste jornalismo?”, e eu tinha que explicar que era apenas um contador de histórias.

Nas últimas duas semanas, tirei férias do meu trabalho formal numa indústria vital e fui atrás de mais um curso de criação literária. Como minha agenda não estaria toda ocupada – e assombrado pelo Mario Quintana – fui atrás de outro curso.

Ocupando o espaço da crônica do cotidiano neste projeto @UmCafezinhoque tem café como ponto de partida”, resolvi investir num curso sobre a bebida e, além de ter contato com pessoas de várias tribos – e estados , encontrei três pluralidades importantes sobre o café:

  1. Ciência: há muito estudo desde o plantio do fruto, as condições de solo, altitude, forma de colheita, entre outros;
  2. Exata: é possível fazer um café excelente, com temperaturas, quantidades e tempos, seguindo as receitas dos baristas;
  3. Humana: faz parte do estilo de vida de empreendedores, baristas e entusiastas que formam uma classe unida, heterogênea e sem preconceitos, na qual a palavra concorrente parece não fazer sentido.

A propósito: No próximo final de semana, este cronista vai participar de um curso de literatura de cordel. Caso algum dia, resolva se aventurar por ali, não poderá ser acusado de ser “autodidata” pela concorrência.

 

Marcelo Lamas é cronista. Já visitou mais de cem cafeterias, e as melhores foram aquelas recomendadas pelo visitado anteriormente.
@marcelolamasbr
Facebook: marcelolamasescritor
E-mail: marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Pixabay

Compartilhe com seus amigos:

Invenções

Qual foi a principal invenção da humanidade? A resposta dos (as) leitores (as) pode ser a mais variada, desde a roda até a internet. É provável que os seguidores de @UmCafezinho possam ter respondido pelo impulso cafeinólatra e terem bradado: “Foi o filtro de café!”.

Em uma publicação recente a revista National Geographic fez uma lista com as dez mais importantes invenções, a saber:

  1. Tipografia
  2. Lâmpada
  3. Avião
  4. Computador Pessoal
  5. Vacina
  6. Automóvel
  7. Relógio
  8. Telefone
  9. Geladeira
  10. Câmera Fotográfica

Para surpresa de muitos, ela apontou a TIPOGRAFIA em primeiro lugar. A publicação explicou a lógica: “A tipografia permitiu a difusão da palavra impressa e da alfabetização, o que, por sua vez, facilitou o compartilhamento das ideias e a invenção de outras coisas”.

Lembro dos meus primeiros contatos com a tipografia: Eram os anúncios de revistas e jornais que meu pai recortava e me ajudava a decorá-los, relacionando a marca (os tipos gráficos) ao produto. Para os leigos, eu já sabia ler aos 5 anos.

As pessoas ficavam espantadas quando me viam andando pela rua, de mãos dadas com a mãe e “lendo” em voz alta as fachadas. Fazia de propósito. Numa esquina, havia uma loja com prédio imponente, cujo nome, nunca erraria. Ali, não eram os tipos gráficos da logomarca que chamavam minha atenção. Não era uma questão visual. A sensação vinha antes de avistá-la. Era o cheiro da torrefação de cafés da cidade. Ficava entorpecido. Por vezes, até me culpo, pois a minha primeira lembrança de café é daquele aroma, enquanto a maioria lembra do café que suas avós faziam no fogão à lenha.

A propósito, todos dizem que aquele café da -sua- vovó era o melhor do mundo. Por sorte, antigamente não haviam os concursos, muita gente ficaria magoada.

Parafraseando João Chiodini: “Utilizando as versões romanceadas de nossas vidas, editadas pela nossa cachola, vamos dizendo o quão eram especiais nossas datas, nossas ocasiões e nossas experiências (…)”.

Leia também:

 

Marcelo Lamas é cronista e acredita que a maior invenção foi o lápis, tanto que mantém o seu projeto original desde 1564.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com
Facebook: @marcelolamasescritor

Foto: Pixabay

Compartilhe com seus amigos:

Aprecie com moderação

Naquela época não era comum crianças gostarem de café. O “pretinho” era coisa para adultos. A turminha era chegada no achocolatado – que hoje migrou para a listinha dos vilões, aquela que começou com a carne e já chegou na farinha branca.

Quando criança, só tomava café na casa da tia Manoela. Ninguém entendia direito aquela pré-disposição, principalmente minha mãe, enciumada. Vai ver a tia Manoela usava café especial e ninguém sabia ou tinha feito curso de barista. Dizem que um terço do sucesso do café está na habilidade deste profissional.

Ano passado, o cardiologista me recomendou diminuir a dosagem de café. Usei o mesmo expediente de um amigo, cujo ortopedista recomendou-lhe parar com o jogo de futebol dos sábados. Troquei de médico!

Nessa semana, na sala de espera da dentista resolvi seguir o que o Carpinejar disse: fazer as crônicas no bloco de notas e não ter ritual pra escrever. Saquei meu telefone e comecei a fazer este texto, com o aparelho na horizontal. Uma moça que estava na minha frente deve ter pensado que eu estava na jogatina, pois mal olhei pra ela quando me cumprimentou.

Ali, lembrei da infância, quando ia ao dentista e como prêmio por bom comportamento ganhava uma Coca-Cola no boteco da frente. Ainda não havia aquela listinha do mal. Ao longo dos últimos 20 anos como paciente da Dra. Mariluci, poucas vezes ela sugeriu a redução do consumo de bebidas que podem escurecer os dentes, o que facilita o nosso “relacionamento”. Mal sabe ela: assim que saio de lá, vou tomar uma dose grande de espresso com leite e comer um pastel de nata na padaria da esquina, não importa o produto que a Mariluci tenha aplicado ou a recomendação que tenha dado.

Um dos pensamentos mais difundidos do poeta Mario Quintana (1906-1994) resume tudo isso: “O passado não reconhece seu lugar, está sempre presente”.

Leia também:

 

MARCELO LAMAS é cronista. Trocou o vício de Coca-Cola por café. A tendência é que não mude mais, pois há muitas marcas a serem experimentadas e cafeterias a serem conhecidas por aí.

@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com
Facebook: @marcelolamasescritor

Foto: Pixabay

Compartilhe com seus amigos:

Carta de condolências

Embora escreva há mais de duas décadas, tenho dificuldade para fazer textos pessoais e intransferíveis, aqueles com sentimentos envolvidos, como homenagens de aniversários e de dia das mães.

Meses atrás, faleceu um cliente de uma das empresas que presto serviços. Fui acionado para escrever a carta de condolências. Antigamente havia um padrão de carta – fiz alguns desses – agora elas são customizadas.

Por sorte, conhecia o sujeito e fiz umas cinco linhas com os pesares. Também usei a técnica do reconhecimento de todas as virtudes – depois que a pessoa morreu.

Outro dia, me ligou a secretária de outra companhia, solicitando uma cartinha em homenagem póstuma ao pai falecido de um cliente. Ela não sabia o nome do homem, não sabia a causa mortis, tampouco a profissão. Quando a questionei, alegou que só tinha a informação sobre o falecimento do pai do Sr. Celso Alberto e que queria antecipar-se, deixando o documento pronto para o chefe despachar, assim que retornasse de uma reunião. Enviei a sugestão e a secretária proativa me ligou:

– Oi Marcelo!
– Oi Lucy!
– Obrigado pela carta. Tenho duas perguntas pra te fazer:
– Pode falar.
– São só essas três linhas mesmo?
– Sim, é isso! Não temos informações sobre o finado, se era operário, bancário ou professor? Se estava doente ou se foi mais uma vítima do transito…
– Ah! Tá bom!
– E a outra pergunta?
– Marcelo, o nome dele era Alberto? Como você descobriu?
– Deduzi.
– Deduziste?
– Sim. Se o nome composto do filho é Celso Alberto, e esta combinação não combina, certeza que o segundo nome foi uma auto-homenagem do pai dele.
– Acho que tu não és muito certo das ideias.
Rimos, nos despedimos e até hoje não sei o nome daquele falecido.

EM TEMPO:

Após os acontecimentos da crônica acima, o autor participou de um encontro de pessoas enlutadas (ONG Movimento Marcha do Silêncio). Espera ter melhor argumentação numa próxima carta de pêsames. Visite o site www.vamosfalarsobreoluto.com.br.

Parafraseando Mario Quintana no livro “A cor do invisível”:

Inscrição para um portão de cemitério
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!

Leia também:

 

Marcelo Lamas é cronista e só tem uma exigência póstuma: Pular a etapa do velório. Não quer deixar a última impressão de que “O café estava frio no velório do Marcelo…”.

@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com
Facebook: @marcelolamasescritor

Foto: Pixabay

Compartilhe com seus amigos: