Meias-verdades

Dizer somente a verdade não é a maior virtude dos contadores de histórias. Faz parte da nossa natureza acrescentar algum detalhe ao original. Em muitos casos este já nos chega alterado, pois o interlocutor, por conta própria, tomou o cuidado de deixar o acontecido “mais fantástico” antes de compartilha-lo com o escritor.

Confesso que minha consciência pesa quando digo que escrevo sobre o cotidiano, pois a minha definição é uma soma de meias-verdades. Por vezes é uma soma propriamente dita, junto duas situações com similitude e escrevo uma crônica só.

Aconteceu com um amigo: ficou preso num motel porque faltou energia elétrica e noutra vez – com outra namorada, ficou preso porque estragou um ônibus na saída do estabelecimento. Tudo isso foi parar no meu livro e o sujeito aparece com uma noiva na noite de autógrafos, que não poderia saber da presença dele na escritura e eu tendo que disfarçar, não podendo dar aquele efusivo abraço de agradecimento, que as demais personagens receberam. Apenas seguimos a máxima do professor Leandro Karnal: “Mentir é indispensável ao convívio social”.

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Outro dia, voltei de uma viagem corrida e trouxe para a namorada um café moído, comprado por sete reais, num posto de beira de estrada. Quando perguntei se o café era bom, o fiz esperando uma resposta “social”, escapista. Porém, ela pegou a lata com o café, abriu a tampa, colocou perto de mim – de modo que sentisse um cheiro forte de queimado – e perguntou: “O que tu achas?”.

Um recente estudo da Universidade de Oakland – Califórnia, apontou que cerca de 5% das pessoas mentem para promover o humor (despertar o riso nos outros). Depois que li o artigo, passei a dormir mais tranquilo.

 

MARCELO LAMAS é de uma família com mentirosos notáveis. Se tiver uma competição caseira, o autor não alcançará o pódio. Autor de Indesmentíveis, entre outras verdades.

@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Pixabay

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Café com açúcar

O apreciador(a) de cafés mais erudito pode nem chegar ao final desta linha. Pode desistir da leitura achando ofensa a suposta sugestão deste cronista (Açúcar ou adoçante, senhor?). Não é bem isso.

Na semana passada visitamos a Fenadoce, em Pelotas / RS. A tradição começou logo na fundação da cidade, quando os navios levavam o charque (carne salgada) para o nordeste e de lá traziam grandes volumes de açúcar que eram transformados em doces finos, confeccionados à base de gemas de ovos – as claras eram usadas para engomar – no interior dos casarões dos barões e baronesas e servidos em festas, banquetes e saraus. A origem doceira portuguesa foi se transformando com a criatividade das etnias africana, alemã, italiana, polonesa, libanesa, francesa e árabe do sul do Brasil.

A combinação de um bom café com o quindim -estrela principal da Fenadoce – é imbatível. Só experimentando para sentir. Você também pode escolher outros doces da enorme lista com indicação de procedência e selo do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual) que garante e padronização e qualidade.

Em Pelotas não há chimarródromo, como se poderia imaginar para uma cidade do extremo sul. Em contrapartida, o Café Aquários é patrimônio histórico e cultural da cidade de cerca de 350 mil habitantes. Ali é servida uma essência de café concentrado que é misturada com água quente em xícaras previamente escaldadas numa caldeira gigante, num ritual típico das residências pelotenses.Outro lugar de destaque é o Espaço 35, que serve cafés de torrefação própria com tradição de várias décadas e cuja moderna cafeteria tem um ambiente que é referência nacional.

Como a próxima Feira Nacional do Doce só acontecerá daqui a um ano, quem quiser aparecer antes para uma aventura gastronômica, não irá se arrepender. É só chegar e baixar o aplicativo Pelotas Tem! Palavra de Pelotense.

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Marcelo Lamas é apreciador de cafés e de doces. É gaúcho com cidadania catarinense e bairrista, como se vê. Autor de Indesmentíveis (Camus Editora), entre outros livros.

@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Marcelo Lamas

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Café corporativo

Recém-chegado ao mercado de trabalho, como estagiário em um escritório, consegui deixar a Termolar azul deslizar das minhas mãos e cair no chão. Lembro bem da cena: o café preto se esvaindo no carpete marrom – e junto dele minha chance de ser contratado.
Fiquei assustado e congelei diante da cena, mas uma moça que sentava pertinho do cafezinho da firma, viu a situação, tirou um pano não sei de onde, e rapidinho estancou a sangria.

E foi justamente a moça que mais me zoava, que nunca pronunciava meu nome e só usava a alcunha “o estagiário”. Tinha a impressão de que era a mais mal humorada do escritório.

Depois daquele ocorrido, percebi que a aparente indiferença não passava de uma brincadeira, a qual não tinha maturidade para perceber.

Foram muitos cafezinhos até que se iniciasse uma amizade que já passa de duas décadas. Sei de casos de conversas por ali que foram parar em altares.

Ouvi um empresário dizer que conseguia medir a situação do mercado pelo consumo de café do escritório, nos meses em que havia mais consumo o pessoal estaria com menos trabalho, ou seja, o setor econômico que ele atuava estava em baixa.

Falando em café de firma, encerro com a frase famosa de Abraham Lincoln (1809-1865): “Se isto for um café, por gentileza, me traga um chá; mas se isto for um chá, por favor, me traga um café”.

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Marcelo Lamas é cronista. Seu trabalho no escritório e suas viagens corporativas são regadas pelos cafezinhos de firma (de todos os naipes). Autor de “Indesmentíveis” (Camus Ed.), entre outros. Aqui, escreve quinzenalmente, sempre às quintas-feiras.  

@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto de destaque: Pixabay

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Vício

O sujeito chegou perto do meu posto de trabalho e mandou:

– Bem acompanhado, hein? Está saindo com a viciadinha?

– Ãh!?

Antes que esse diálogo acabasse, alguém o chamou para atender um telefonema e a conversa ficou inacabada.

Fiquei assustado com a acusação feita pelo sujeito, mas não quis voltar ao assunto para não parecer desinformado. Naquela noite que saí com a Ingrid, ela disse que não bebia álcool e pediu um suco de melancia. Qual vício seria? Certeza que era ilícito!

Quanto a mim, tinha omitido a coleção de camisas de futebol. Se soubesse disso, talvez a gata tivesse me desclassificado. Preferi falar da perseguição às livrarias e bibliotecas, o que contaria mais pontos para a conquista, pois a conheci numa livraria, sentada, empunhando uma xícara e sorrindo pra mim (ou de mim), acompanhada de uma amiga em comum.

Cheguei a pensar em puxar conversa com meu colega e descobrir o vício dela, mas resisti, pois tínhamos combinado um happy hour.

Curioso e preocupado, após as formalidades das saudações, mal tínhamos sentado, fui direto:

– Nem falamos de vícios no sábado, né?

Ela deu um sorriso amarelo e rebateu:

– Vícios?

– Sim, vícios! Eu, por exemplo, coleciono camisas de futebol. E você, é viciada em que?

– Ahmmm… Até pegam no meu pé por causa disso…

– Sério! E o que é?

– Café!

– Café? E café pode ser vício?

– Pode sim! Além de apreciar a bebida, coleciono tudo que há a respeito: xícaras, bules, embalagens vazias, latas, quadros, revistas, livros, fotografias, coadores, guias e até minha caricatura na parede feita com café.

No dia seguinte, chequei com meu colega, se o vício era mesmo a bebida que só perde para água em consumo. Ele confirmou! Sendo sabedor de que era algo lícito, dentro de semanas, atamos um namoro sério.

Com a convivência estou descobrindo um mundo novo, desconhecia até as válvulas para apreciar os diferentes aromas de cafés nas prateleiras dos supermercados. Quando viajo a trabalho, não deixo de procurar um café regional para apreciarmos seja feito no coador de pano, sifão, aeropress, prensa francesa ou na Hario V60.

Aos poucos estou me familiarizando com os termos dos “Coffee Lovers”. Estou treinando o meu paladar, até o distinto café do jacu experimentei – e só depois ela me contou a origem. Fizemos algumas viagens para atestar as sugestões e a minha avaliadora particular é bem rigorosa com o tratamento que os baristas dão aos grãos.

Frequentamos semanalmente um cinema que tem uma ótima loja de cafés ao lado. Ainda não sei se ela me acompanha porque pegou gosto pelos filmes – outro vício meu – ou se vai por causa do espresso que tomamos antes da sessão.

Outro dia, conversávamos sobre o futuro e combinamos: se tiver matrimônio, os convidados serão agraciados com um bom café no cardápio.

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Marcelo Lamas é cronista há 20 anos. Autor dos livros Indesmentíveis, Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora e Arrumadinhas. Aqui, escreve quinzenalmente, sempre às quintas-feiras. E-mail: marcelolamas@globo.com

Foto: Pixabay

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Quotidiano

Semanas atrás, recebi da namorada um direct de uma postagem de @UmCafezinho dizendo que havia espaço para novos colunistas. Percorri todo o mapa do site, conheci o projeto e após trocar mensagens com a editora, a Fernanda, combinamos publicar textos nesse espaço.

E aonde iremos? Bem, a minha bússola aponta para o quotidiano. Este é o meu norte há mais de duas décadas colaborando com a mídia escrita. Prefiro grafar assim, com “qu”, já que a nossa língua portuguesa permite. Essa escolha tem motivo, pois assim como uma # (hashtag) apontaria para algo digital, o “quotidiano” me remete a uma história contada por outrem, que viu, ouviu ou, até mesmo, imaginou o acontecimento. E o passou adiante.

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O poeta – e jornalista – Mario Quintana (1906-1994) dizia: “Antigamente os cafés eram sentados e conversados e hoje não são mais”. Dizem que um café do seu Mario durava horas, no cantinho da redação. Depois de muita conversa ele redigia sua coluna (Caderno H) que ficava pronta na hora “h”, ou seja, quando a edição estava praticamente fechada.

A minha intenção é contar histórias que possam ser compartilhadas ali, na hora do café, seja na empresa, na cafeteria, na calçada ou na padaria. Nos encontraremos para um (Papo no) cafezinho quinzenalmente, às quintas-feiras.

 

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”, “Arrumadinhas” e “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”. Colabora há mais de duas décadas com jornais e revistas do sul do País e aqui escreve quinzenalmente, sempre às quintas-feiras. Acredita que um café e um quindim é a combinação mais pedida na cafeteria do paraíso. E-mail: marcelolamas@globo.com

Foto: Marcelo Lamas (Quindim Imperatriz Doces Finos + Café 35. Este quindim é o original de Pelotas, tem selo de procedência e é sobremesa no Itamaraty. Dizem que já foram remessas encomendadas para a corte inglesa).

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