Na mesa ao lado

Anos atrás estive em uma rede de restaurantes durante uma campanha publicitária, apelidada de concurso cultural. Era um convite para que os frequentadores ouvissem histórias nas mesas ao redor e que depois, as compartilhassem nas redes sociais usando uma hastag. E o prêmio? As mais legais “poderiam” ser reproduzidas nas páginas do restaurante.

Num primeiro momento achei estranho ir a um lugar para ficar ouvindo a conversa de outrem, principalmente se estivesse acompanhado. Seu par se acharia desinteressante ao vê-lo com as orelhas esticadas para a conversinha ao lado.

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Acontece que no nosso caso, éramos uma estudiosa do comportamento humano e um cronista. Combinamos de ouvir o que vinha da mesa da direita, onde havia outro casal. A conversa era impublicável. Pelo menos aqui neste espaço. Não fez falta. Não pretendíamos participar do “concurso”.

Daquele dia em diante, toda vez que frequentamos cafés – que costumam ter mesinhas coladas – procuramos nos concentrar nas nossas conversas. Mas vez por outra aparece um tema interessante nos arredores e assim, fazemos aquilo que chamamos de observação social. Nem sempre funciona. Quando o café chega à mesa, nossa atenção se volta para a xícara e já nos perdemos da história ao lado.

Em minha defesa, como contador de histórias, sigo a tese do Luiz Antônio Assis Brasil, autor de “A margem imóvel do rio” : “Um escritor não depende de uma súbita inspiração, mas, sim, de um estado permanente de atenção ao que está a sua volta”.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Depositphotos

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A mão boa

Já falei neste espaço que diariamente passo na padaria depois do expediente. O lugar é famoso pelo pão ciabatta, mas ali também é servido o melhor espresso da cidade, na minha opinião.

O dono do lugar é o tio Carlinhos. Ele não é meu tio, nem de ninguém que eu conheça, mas o seu jeito simpático fez a alcunha se espalhar entre os frequentadores da padaria, que sempre ocupam as mesmas mesas, lugares e horários, coisa de cidade pequena. Os atenciosos atendentes já sabem os nomes dos clientes, no meu caso, colocam o nome da minha namorada na comanda, mesmo quando estou sozinho.

Antes de ser um cafeólatra – e cronista do @umcafezinho – jamais acreditaria no que vou dizer: poderia estar vendado e mesmo assim saberia quando fora o tio Carlinhos que tirara o café da máquina.

No começo da semana, estive com uma tosse que não passava. Como bom brasileiro optei primeiro pela automedicação com xarope fitoterápico que curava todo tipo de doença – inclusive o mau hálito e dentre os seus muitos ingredientes tinha limão bravo, sucupira e assa peixe na fórmula. Como a tosse insistia fui ao hospital (medicação na veia, nebulização, raio X) e sai de lá com uma lista de remédios para tomar por alguns dias.

Ontem, quando estava saindo da padoca do tio Carlinhos, dei uma tossida e ele sensibilizado me entregou um bilhetinho com uma receita caseira: beterraba + cebola roxa + açúcar.

O médico tinha recomendado evitar tomar qualquer xarope, porque poderia estimular a tosse. Só que a minha crença foi maior no bilhete que passou pela mão do Carlinhos do que na alopatia receitada.

A tosse passou. Nunca saberei quem contribuiu mais. Talvez tenham sido os 8 espressos do Carlinhos que tomei nos últimos dias.

Cápsula de @UmCafezinho:

“A única maneira de se conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer”.
Mark Twain

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentiveis”.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Tom Holmes / Unsplash

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Tem café nas eleições?

Há duas décadas precisei mudar de estado por conta de uma oportunidade de trabalho. Era um ano de eleições e fui me informar acerca da justificativa (de ausência) eleitoral. Basicamente, você só precisava ir até uma agência dos Correios no dia da eleição. Isso mesmo, só lá que era possível se justificar.

Acontece que nas cidades pequenas só tem uma agência central. A fila era enorme. Digo, as filas, porque era necessário entrar primeiro em uma, onde você comprava (R$) a justificativa. Depois era só preencher o documento e entrar em uma outra fila e, de fato, se justificar.

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Passadas as primeiras eleições, já conhecia todos os forasteiros do condado, incluindo as meretrizes, afinal, elas dificilmente trabalham em suas cidades de origem. Como ficaria as reputações das famílias?

Assim que resolvi transferir meu domicílio passei a ser chamado para trabalhar nas eleições. Só achei ruim quando recebi a convocação. Logo depois do primeiro expediente já percebi a importância de participar do processo e me senti um cidadão de verdade.

No próximo mês estarei lá novamente. Por volta das dez horas, o delegado do prédio, diretor da escola, vai passar de sala em sala, avisando: “O café está pronto lá na cozinha”. E é nessa hora, que saio correndo, deixando a urna eletrônica para trás e aos cuidados dos outros mesários. Pouco importa a origem do café, a torra, a moagem ou o método de preparo. O que importa é quebrar a abstinência e esperar o sujeito passar novamente lá pelas três da tarde.

CÁPSULA DE UM CAFEZINHO – O que eles disseram…

“O que mantém nossa fé na democracia representativa é a esperança, seguidamente frustrada mas sempre renovada, de que os bons prevalecerão sobre os ruins”.

Luis Fernando Verissimo

 

Marcelo Lamas é cronista e presidente de mesa na seção 124 – 87a zona eleitoral/SC. Autor de Indesmentíveis.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Tim Arterbury on Unsplash

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