De costas para o café

Na empresa, a minha mesa fica de costas para o cantinho do café. Não é uma simples coincidência; antes, eu ficava de frente. Será que alguém percebeu minha distração antiga que era capturar histórias acontecendo ali nos arredores e sugeriu a mudança aos superiores? Talvez seja teoria da conspiração, só mudaram por mudar. Nunca saberei.

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Lá no trabalho os aniversariantes recebem um cartão corporativo. Como são muitas pessoas no mesmo ambiente, quando o envelope pardo passa para coletar os cumprimentos é um divertimento ler as homenagens, as declarações de colegas que viram amigos mais íntimos – ratificadas pelas redes sociais – e também é engraçado ler aqueles apelidos familiares carinhosos, que “vazaram” na empresa quando algum parente apressado telefonou e pediu para falar com a Nani, com o Degão ou com o Teló. Fazendo um mea culpa, lá em casa meu pai me chamava de Cheiroso, por causa da minha pouca proximidade com o chuveiro, na infância. Por sorte, esta informação (ainda) não chegou à firma.

Na semana passada, começou a circular um cartão que deu o que falar. UM colega fez uma declaração inusitada para UMA aniversariante. Conforme o cartão ia passando, as pessoas vinham me mostrar, alguns até sugerindo que a situação merecia virar uma crônica. Todo mundo comentando, exceto a homenageada, que estava blindada até que a data chegasse, mas estava na boca do povo, sem saber.

O escritor Ruy Castro disse que precisa esperar dez anos da morte de um biografado para pode escrever a história com fidelidade. Eu só precisava esperar que a história terminasse e aguardava por isso: Qual seria a reação da homenageada? O autor do texto também estava com medo do desdobramento, devido toda repercussão.

Ah! Sim! O que estava escrito? Consegui autorização para transcrever:

“Quem dera tirar uma cópia tua e levar para a minha casa!”.

Nesta segunda-feira após a “solenidade” de entrega, ela disse que foi a homenagem mais criativa que recebeu em todos os seus 17 cartões da firma. É possível que o sujeito já tivesse disto isso pessoalmente, ali no cafezinho. Só que o observador social aqui estava de costas.

Parafraseando David Coimbra: “Não posso contar tudo, causaria separações, destruiria reputações.”.

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Marcelo Lamas é cronista desde 1994. Para não se comprometer só escreve “Parabéns” no cartão de aniversário corporativo. Autor de “Indesmentíveis”, entre outros.

@marcelolamasbr

marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Depositphotos

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