Medo de Vírus

O seu Lamas, meu pai, sempre gostou de fotografias. Tem uma coleção enorme de originais em P&B, de times de futebol, nos quais ele jogava desde a década de 1950. Lembro que sempre tivemos câmera em casa, desde a pequena Kodak Instamatic, que tinha flashes descartáveis e depois evoluindo até as máquinas digitais.

Acontece que meu pai não usa computador, sempre imprime as suas fotos preferidas e as coloca em uns porta-retratos, numa parede infinita que ele tem na garagem. Numa ocasião, cansado de anotar meu e-mail e celular em guardanapos de papel nos eventos literários, providenciei cartões de visita. Quando entreguei um deles para o seu Lamas, ele pediu uma caixinha, e toda vez que alguém fazia uma foto, dizia: “Envia para o meu filho, por favor?”. Adiante, ficava me cobrando o recebimento.

Recentemente, meus pais participaram de uma colônia de férias. No primeiro dia, a recreadora bateu uma foto dos “velhos” e recebeu meu cartão. Toda vez que falava com ele, me questionava: “Recebeste a foto?”. Depois de uma semana de atividades, como bingo, pingue-pongue, caminhada e teatro, Seu Lamas, foi taxativo:

– Marcelo! A Íris ainda não te enviou a foto? Ela disse que mandou vários e-mails!
– Pera aí… Tu disseste Íris?
– Sim, a recreadora.
– Deixa eu olhar minha lixeira…
– Lixeira?
– Sim pai. O primeiro e-mail que ela mandou tinha como assunto: “FOTOS DO CASAL NA PISCINA”.
– E o que que tem isso?
– Achei que fosse vírus, e passei a apagar tudo que chegava dessa Íris.

Semana passada, me cadastrei no site de uma universidade americana, a pedido de um colega, para recomendá-lo profissionalmente a uma bolsa de estudos. Ontem, ele me indagou sobre o recebimento do e-mail de confirmação. Estou quase certo que o apaguei. Sabe como é? Mensagem em inglês e cheia de palavras em caixa alta, certeza de que é vírus.

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Marcelo Lamas tem medo de vírus do mundo digital e no mundo real esquece de segurar com a mão esquerda as xícaras de café que empunha na rua, como faz religiosamente um amigo, dizendo que isso diminui as chances de contrair qualquer doença do usuário anterior, desde que aquele não fosse canhoto.

@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto Pixabay

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