Na mesa ao lado

Anos atrás estive em uma rede de restaurantes durante uma campanha publicitária, apelidada de concurso cultural. Era um convite para que os frequentadores ouvissem histórias nas mesas ao redor e que depois, as compartilhassem nas redes sociais usando uma hastag. E o prêmio? As mais legais “poderiam” ser reproduzidas nas páginas do restaurante.

Num primeiro momento achei estranho ir a um lugar para ficar ouvindo a conversa de outrem, principalmente se estivesse acompanhado. Seu par se acharia desinteressante ao vê-lo com as orelhas esticadas para a conversinha ao lado.

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Acontece que no nosso caso, éramos uma estudiosa do comportamento humano e um cronista. Combinamos de ouvir o que vinha da mesa da direita, onde havia outro casal. A conversa era impublicável. Pelo menos aqui neste espaço. Não fez falta. Não pretendíamos participar do “concurso”.

Daquele dia em diante, toda vez que frequentamos cafés – que costumam ter mesinhas coladas – procuramos nos concentrar nas nossas conversas. Mas vez por outra aparece um tema interessante nos arredores e assim, fazemos aquilo que chamamos de observação social. Nem sempre funciona. Quando o café chega à mesa, nossa atenção se volta para a xícara e já nos perdemos da história ao lado.

Em minha defesa, como contador de histórias, sigo a tese do Luiz Antônio Assis Brasil, autor de “A margem imóvel do rio” : “Um escritor não depende de uma súbita inspiração, mas, sim, de um estado permanente de atenção ao que está a sua volta”.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Depositphotos

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