O café da quarentena

Aqui em Santa Catarina, a quarentena começou um pouco antes que o restante do país e coincidiu bem no meio do cronograma da obra do apartamento que vamos morar em breve.

O governador proibiu, logo de cara, os serviços básicos que precisávamos, como eletricistas, encanadores e demais instaladores – que já estavam contratados.

A internet e a energia elétrica nós já tínhamos instalado, e era só o que havia no apartamento. Tive que montar um home office improvisado ali mesmo, já que o prédio onde moramos hoje tem internet predial, compartilhada e lenta.

Me instalei perto de uma janela – pois não tínhamos luminárias – e logo no primeiro dia de trabalho remoto, já percebi uma melhora significativa na minha produtividade, pois a conexão não caia e eu conseguia ficar focado. Antes, a cada meia-hora tinha que ir até o corredor para reiniciar o modem do prédio.

Por volta das 10h, me caiu a ficha. Deu fome – e vontade de tomar um café. Lembrei de uma padaria, ali perto. O decreto estadual não permitia manipulação local, ou seja, só deveria ter pãozinho ensacado. Fui buscar um.

Tinha um casal em uma mesa, esperando algo para comer – lembrando que o decreto não permitia isso também.

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Não resisti e perguntei pra atendente:

– Vocês fazem café pra levar?

Ela respondeu:

– O senhor pode tomar aqui mesmo.

– Ah! Ok! Respondi.

Ela fez um café no coador de pano. Tomei e sai de lá feliz, mas com a sensação de ter cometido um delito. 

À noite, quando cheguei em casa, comentei sobre o caso e fui repreendido pela família, ameaçado de isolamento total.

No outro dia, sai cedo e esqueci de levar comida. Às 10h, me bateu a abstinência, corri lá na padaria. Mas dessa vez cometi somente MEIA transgressão. Perguntei se tinham embalagem pra levar o café. Ela disse “Sim” e fez @umcafezinho.

Na hora que me entregou, arrematou: “Só não tenho a tampinha”.

Eu estava de carro, para minimizar a convivência social. Então coloquei o copo numa sacolinha amarrada em volta. 

Quando cheguei ao apartamento vazio, abri a sacolinha, minhas mãos e a mesa ficaram muito sujas de café. Tomei o que sobrou no copo. E fui embora, pois lá ainda não havia pia, nem torneiras, nem chuveiro.

Voltei no outro dia, com um detergente, um balde, um pacote de bolachas e uma garrafa térmica bem cheia. Advinhe de quê?

Lembrando que este cronista é hipertenso e que na infância teve bronquite. Só descumpri as medidas de isolamento social por causa do café. Mesmo assim me sinto constrangido com essas duas infrações. 

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Papo no cafezinho”, livro em trabalho de parto.@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Photo by Dimitri Bong on Unsplash

3 comentários em “O café da quarentena

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