A parábola do café

Na casa dos meus pais não tem hora para tomar café. Vez por outra, estou falando com eles, perto da meia-noite, e minha mãe diz: “Vou lá tomar um cafezinho” e dá tchau! E nesse caso, não é desculpa para encerrar a ligação. Posso garantir que não interfere em nada no sono deles. Contrariando o que dizem os especialistas.

Os meus velhos tomam tanto café, que usam um método regional muito peculiar, chamado de “essência”, que consiste no preparo de um café passado no filtro de papel ou de pano, de modo que fique superconcentrado. Essa essência fica numa jarra, e toda vez que dá vontade de tomar um cafezinho, é só pegar uma dose e preencher a xícara com água quente. Assim eles consomem um café amargo e oxidado. Contrariando a sugestão dos especialistas.

Outro dia recebi uma parábola – aqueles textos que fazem uma volta e tem uma moral no final – que contava a história de um professor que convidou para uma conversa, seus ex-alunos que reclamavam de “stress”. O mestre ofereceu café aos bem-sucedidos profissionais. De posse de um bule, ele pediu que cada um pegasse uma xícara. Havia uma de cada tipo: porcelana, plástico, vidro e cristal. Depois que todo mundo tomou seu café, o professor concluiu: “Viram? Todos vocês pegaram a melhor xícara que puderam. Isso é natural, todo mundo prefere o melhor. E é isso que gera o stress de vocês. Asseguro que nenhuma delas acrescentou qualidade ao café. O que vocês queriam era o café, mas institivamente ficaram preocupados com a embalagem e deixaram de lado o que mais importava”.

Depois de ler esta parábola, fui consultar a Cinthia Bracco, da Coluna Litros de Café, minha “vizinha” aqui no @UmCafezinho: “O ideal é usar xícara de porcelana, pois não vai interferir no sabor da bebida e vai manter a temperatura por mais tempo. Antes de servir o café, o legal é aquecer a xícara com água quente para que ela também fique quentinha, ajudando ainda mais a manter a temperatura”. Nesse caso foi a especialista que contrariou o profeta.

Contrariando Millôr Fernandes, em “A Bíblia do caos”: “O especialista é o que só não ignora uma coisa”.

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Marcelo Lamas é cronista. Aos questionar seus pares sobre qual seria a “especialidade” do autor, ouviu: contar histórias e mudar de assunto repentinamente.
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Foto: Pixabay

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2 comentários em “A parábola do café

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