O preço do café especial

Você já questionou o preço do café especial? Na cafeteria onde trabalho é só o que servimos. Sempre que aparece um cliente novo, a gente tenta explicar a proposta da loja e passar o máximo de informações sobre a bebida. Mesmo assim, algumas pessoas não entendem o motivo de termos uma pacotinho de café de 250g custando R$ 65. Alguns reclamam até do valor do espresso (R$ 5,50). Muitos locais servem café gourmet ou, pior, de commodity, e cobram mais que isso.

No final das contas, tudo acaba sendo uma questão de prioridade. Mas, é legal que as pessoas entendam a razão do preço do café especial. Vou compartilhar uma experiência que tive no Espírito Santo, na fazenda onde é cultivado esse café de R$ 65, o queridinho Paraíso.

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Preço do café especial: entenda o caminho do cafezal à xícara

Eu e mais três pessoas saímos de São Paulo numa manhã de sexta-feira. Depois de 14 horas de estrada, chegamos à região de Castelo. No dia seguinte, acordamos bem cedinho para continuar a nossa aventura. Nos encontramos com o Edmilson. Ele nos apresentou ao proprietário da fazenda, Rondineli Sartori, que também já tinha sido guia turístico lá.

O nosso destino era a fazenda do Paraíso. No caminho, foram nos contando um pouco sobre aquele cenário lindo e montanhoso, lotado de pés de café. Fizemos uma parada e tivemos o prazer de conhecer o Carlos Alberto Altoé, produtor do Café Vale do Caxixe, também especial.

Entramos numa sala com um balcão com diversos métodos, equipamentos para embalar e uma máquina de torra de 10 kg. É nela que o Carlos desenvolve os perfis de torra da sua produção. Ele fez questão de preparar uma café pra gente, na Hario V60. Pela janela, a gente conseguia ver um pequeno terreiro suspenso cheio de grãos de Catuaí Vermelho.

Saindo de lá, fomos ao Sítio Bateia. Conhecemos o irmão do Rondineli, sua cunhada e sobrinhos. Nós, um pouco tímidos, preocupados por estar incomodando em pleno sábado. Eles, orgulhosos, explicavam pra gente tudo o que podiam, das variedades às técnicas de poda. Até almoço nos ofereceram! Depois de comer, fomos morro acima conhecer o cafezal.

Lá eles fazem colheita manual seletiva, vão colhendo somente os frutos maduros. Isso significa que as pessoas da colheita precisam passar várias vezes em um mesmo pé de café. Feito isso, eles separam os lotes em seus dois pequenos terreiros para os processos de pós-colheita.

Toda a família participa da produção. As crianças estudam e ajudam nas tarefas do sítio. Até a sobrinha do Rondineli, de 10 anos, me disse toda feliz que é ela a pessoa que mexe o café no terreiro. Depois disso, vocês podem imaginar que minha responsabilidade aumentou na hora de extrair o café deles lá na cafeteria, não é?

Esse café, que teve cuidados minuciosos para que pudesse desenvolver as características de um grão especial, vai para a cafeteria onde trabalho. O mestre de torra desenvolve um perfil para que nós, baristas bem treinados, tenhamos a possibilidade de extrair o melhor desse café. É um cuidado que se tem desde a plantação até a extração. É muita dedicação e estudo para que a gente possa oferecer a xícara perfeita.

Existe ainda uma escala de pontuação que vai até 100. Para ser considerado especial, o café precisa atingir no mínimo 80 pontos. O Paraíso foi pontuado com 92. Esse é o resultado de toda uma cadeia de produção que justifica o preço do café especial na prateleira.

Como tudo acaba em pizza, o nosso dia por lá não foi diferente. Jantamos em uma pizzaria e, conversando sobre tudo o que tinha acontecido, concluímos que todas as partes desse processo possuem uma importância enorme. O barista tem uma tarefa que vai além de tirar um bom espresso. Ele é quem deve fazer o papel de contar ao cliente tudo o que envolve a produção de um café especial e como as pessoas que se mantém nesse ramo simplesmente amam o que fazem. E isso tem um valor que não se calcula.

Eu tive um dos dias mais legais da minha vida. O melhor foi saber que eles também gostaram de nos receber. Acho que foi uma troca bem interessante. Hoje agradeço imensamente por ter a sorte de viver em um país produtor de cafés tão bons e ter a possibilidade de ver de perto a origem disso.

 

Cinthia Bracco atuou quase 9 anos nas áreas de Comunicação e Marketing, mas não conseguiu fugir do que realmente queria o seu coração. Em novembro de 2016 tornou-se barista profissional e trabalha em uma cafeteria, em São Paulo, onde vem aprendendo e se desenvolvendo em sua nova profissão. É vegana, tem um Bull Terrier chamado Tofu, fã de Battlestar Galactica e simplesmente adora comer. Em seu tempo livre, vai a cafeterias (sim, o barismo acaba fazendo parte da vida), brinca com o cachorro, cozinha, assiste séries/filmes e cuida de suas plantas.

Fotos: Cinthia Bracco

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