Vem logo, seu café vai esfriar!

Meu pai não fala, ele dá bronca. Esse é o jeitão do sr. Osvaldo: ríspido, bruto, grosseiro. Dono da própria mecânica, ele não tem tempo para essas coisas de ‘por favor’, ‘obrigado’ ou ‘com licença’.

Meu pai avisa a todo momento que ele tem mais o que fazer e precisa dar duro pra ganhar a vida. Desde que me lembro por gente, a rotina dele é essa: o despertador toca às 5h15, o sr. Osvaldo toma banho e passa um litro de café forte e sem açúcar.

Só dá tempo de molhar a boca com um gole, o resto vai para o trabalho na garrafa térmica vermelha. Às 12h30 ele tem pausa para o almoço. Prepara mais uma garrafa de café. Às 17h, é hora de encerrar o expediente e tomar mais um cafezinho quando chega em casa às 17h30.

Nesse último, eu tenho o orgulho de dizer que conquistei meu lugar. 

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A verdade é que a minha presença nesse café da tarde foi resultado da minha teimosia. Lembro que tinha uns 6 anos quando me arrisquei a chegar perto dele na cozinha.

Minha mãe alertava: “Lígia, não perturbe o seu pai, ele vai te dar bronca”. Certa ela, mas curiosa eu sou. E comecei a chegar perto do meu pai, sempre com um bom motivo. “Pai, tirei nota azul na prova”. “Pai, hoje eu caí da bicicleta”. “Pai, aprendi a fazer conta de dividir”. 

É que mesmo bem menininha eu saquei que meu pai gostava de ouvir uma boa aventura. “Se cair, tem que levantar sem chorar e tentar de novo, assim você fica mais esperta”. Aconselhava ele naquele tom de bronca.

Mal sabia o meu pai que eu morria de medo de andar na bicicleta que ele tirou as rodinhas.

Mal sabia o meu pai que o tombo tinha doído pra caramba!

Mal sabia meu pai que eu omitia tudo isso só pra tentar ser motivo de orgulho pra ele. 

Minha maior alegria aconteceu quando completei 9 anos: “Lígia, vem tomar seu café, antes que esfrie”. Era uma ordem e eu me senti promovida!

Finalmente fui convidada a beber a minha própria xícara de café! Dei uma bela golada. O gosto? Eca, era amargo demais! Mas e daí? Essa era a minha chance de ficar perto do meu pai e participar do cafézinho das 17h30!

Pedir açúcar? Fazer careta? Jamais! O café era igualzinho ao dono: difícil de engolir mesmo. 

“Seu café está pronto, vem logo antes que esfrie”, gritava meu pai, todos os dias durante anos e anos da minha vida.

O ritual era o de sempre: sentávamos na mesa, dividíamos umas bolachinhas e algumas histórias.

Tinha dia que ele só falava dos problemas do trabalho, como o funcionário que faltou ou o torno que quebrou. Confesso que eu não entendia nada do assunto, mas estava ali atenta e presente. Mas o bom mesmo era quando ele estava inspirado pra me contar uma história da vida dele. Esse era o meu troféu! 

Foi assim, por exemplo, que eu soube que meu pai tinha sido atropelado, quebrou o fêmur da perna esquerda e dirigiu por seis meses com um cabo de vassoura apertando o acelerador.

Também foi durante um cafezinho que ele me contou que quando chegou em São Paulo vendeu biju no farol e depois trabalhou como marreteiro na avenida da Sé.

Ele também me disse como construiu a nossa casa, sozinho, com as próprias mãos, durante cinco anos! “Uau, meu pai já fez um montão de coisas”, eu pensava com orgulho.

Numa dessas conversas, ele me contou do dia que atropelou o Chaninho ao entrar na garagem. O gatinho não resistiu e meu pai o enterrou no quintal. Se não romantizei a história, acho que vi os olhos do sr. Osvaldo cheios de lágrimas. 

Tudo isso eu pude descobrir enquanto saboreava o café amargo do meu pai. E com o passar dos anos, fizemos desse momento o nosso momento.

Entre um gole e outro, ele também me fazia perguntas. “Está gostando do novo trabalho? Como anda a faculdade? Seu chefe gosta de você?”. Nosso papo acontecia assim, com hora marcada, no cafézinho da tarde.

Bem, muita coisa mudou na nossa rotina desde então. Eu não moro mais na casa do meu pai e também não moro mais no mesmo país.

Tô longe e sou a responsável pelo o meu próprio café amargo de todo dia. Já o meu pai, está de cabelinho branquinho e se tornou um vovô de sorriso fácil e coração mais mole.

Calma, não se iluda: sr. Osvaldo continua grosseirão do jeitão dele, sem papo pra essas coisas de “sentimentos”.

Eu, que passei a minha vida esperando pelo dia que escutaria um “eu te amo” vindo da boca dele, entendi, finalmente entendi, que o amor do meu pai se expressa de outra forma. É amargo e tem gosto de café. 

Lígia Scalise

Sou jornalista especialista em pesquisar histórias, entrevistar pessoas e produzir conteúdo. A verdade é que sou apaixonada por escutar e contar uma boa história! Faço isso através da narrativa humanizada e escrita afetiva. Já trabalhei como repórter para revistas, produtora de reportagens especiais e documentários para TV e RP para agências. Em 2018, larguei casa, crachá e zona de conforto e me joguei no mundão.

Hoje estou me arriscando em Londres, estudando Psicologia, e produzindo conteúdo como freelancer. Nas horas vagas, tô lendo sobre astrologia e escutando música brasileira.

Foto: Depositphotos

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