Tem café nas eleições?

Há duas décadas precisei mudar de estado por conta de uma oportunidade de trabalho. Era um ano de eleições e fui me informar acerca da justificativa (de ausência) eleitoral. Basicamente, você só precisava ir até uma agência dos Correios no dia da eleição. Isso mesmo, só lá que era possível se justificar.

Acontece que nas cidades pequenas só tem uma agência central. A fila era enorme. Digo, as filas, porque era necessário entrar primeiro em uma, onde você comprava (R$) a justificativa. Depois era só preencher o documento e entrar em uma outra fila e, de fato, se justificar.

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Passadas as primeiras eleições, já conhecia todos os forasteiros do condado, incluindo as meretrizes, afinal, elas dificilmente trabalham em suas cidades de origem. Como ficaria as reputações das famílias?

Assim que resolvi transferir meu domicílio passei a ser chamado para trabalhar nas eleições. Só achei ruim quando recebi a convocação. Logo depois do primeiro expediente já percebi a importância de participar do processo e me senti um cidadão de verdade.

No próximo mês estarei lá novamente. Por volta das dez horas, o delegado do prédio, diretor da escola, vai passar de sala em sala, avisando: “O café está pronto lá na cozinha”. E é nessa hora, que saio correndo, deixando a urna eletrônica para trás e aos cuidados dos outros mesários. Pouco importa a origem do café, a torra, a moagem ou o método de preparo. O que importa é quebrar a abstinência e esperar o sujeito passar novamente lá pelas três da tarde.

CÁPSULA DE UM CAFEZINHO – O que eles disseram…

“O que mantém nossa fé na democracia representativa é a esperança, seguidamente frustrada mas sempre renovada, de que os bons prevalecerão sobre os ruins”.

Luis Fernando Verissimo

 

Marcelo Lamas é cronista e presidente de mesa na seção 124 – 87a zona eleitoral/SC. Autor de Indesmentíveis.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Tim Arterbury on Unsplash

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Cafezinho na biblioteca

Outro dia vi uma lista de passeios de férias de um conhecido. Na verdade era um plano minucioso, com horários de chegada e saída de cada lugar, assim como os tempos dos deslocamentos. A princípio o critiquei, depois cheguei à conclusão de que, fora a exatidão dos horários, faço a mesma coisa.

Toda vez que viajo, levo na mala pelo menos um exemplar do meu livro e assim vou espalhando minhas histórias por aí. Se fizer uma estatística na ponta do lápis, cerca de um terço de todos os livros que lancei foram doados. Por respeito aos leitores que compraram, faço as doações para bibliotecas, escolas, livreiros e multiplicadores de leitura. Já recebi mensagem de um rapaz que cuidava de uma tia no hospital e que encontrou o meu livro por lá. Ele me disse que encontrou algum conforto naquelas páginas. E ai pode estar um dos motivos pelos quais escrevo.

Quando estou em férias, procuro agendar horários em bibliotecas e, em contrapartida, fico conhecendo lugares fantásticos, como a Biblioteca Joanina, da Universidade de Coimbra em Portugal.

Recentemente estive na Argentina e depois de um dia de passeio fisicamente exaustivo atrás de cafeterias – da minha listinha – faltava fazer o tour guiado na Biblioteca Nacional Mariano Moreno no finalzinho da tarde. Fomos recebidos pela professora voluntária Sra. Susana Jurado, de 87 anos (!). A senhorinha nos conduziu por uma visita de três horas passando por todos os andares da riquíssima biblioteca. Foi uma aula de etimologia, historia e cultura geral. Até esquecemos do cansaço.

Na sala de pesquisas da BN existe um café. Sim, ali mesmo, na sala de estudos, pertinho das mesas. Acontece que em nenhuma BN do planeta você pode retirar os livros de lá. Na unidade Argentina – que funciona até às 23h – você solicita a obra, ela é trazida de um andar climatizado, sem acesso e sem iluminação natural para evitar as traças e a umidade.

Você recebe o livro em uma área restrita, onde pode fazer suas anotações, de posse somente de um caderno e de uma caneta. Então você pode voltar para as mesas maiores, onde as pessoas fazem trabalhos individuais ou em grupo, movidos a café. “Caso alguém vire o copo de café sobre os materiais, só vai prejudicar a si mesmo”, explicou a “maestra jubilada”. Só não tomei um café ali, porque já havia ultrapassado a minha cota diária. E aí está o que eu precisava: um motivo para voltar lá.

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Cápsula de @UmCafezinho – O que eles disseram…

“A biblioteca é o lugar onde começamos a nos conhecer”.

Luis Fernando Verissimo

 

Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis, Arrumadinhas e Mulheres casadas têm cheiro de pólvora.
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Foto: Depositphotos

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Deus não dorme

Dizer que a crônica fala do quotidiano é uma redundância. Mas também é uma meia-verdade, porque boa parte do que relatamos são os acontecimentos não rotineiros, os imprevistos, os inusitados.

Era uma manhã de sábado. Saí de casa para tomar um espresso com leite na padaria e depois explorar uma livraria. Até aqui seria o quotidiano.

Acontece que depois de arrancar do primeiro semáforo, o trânsito parou. Consegui segurar, mas a condutora que vinha na sequência não e houve a colisão. Só com danos materiais. Ainda bem.

Após os procedimentos legais, o policial me disse: “Você pode ir embora e a ‘infratora’ fica aqui!”. Segui meu rumo, cheguei à padaria e pedi meu café.

Enquanto pensava nos desdobramentos, lembrei que a condutora tinha me pedido uma carona, já que o veículo dela seria recolhido. Voltei lá. A polícia estava indo embora. Ela estava na calçada com uma caixa de som enorme e mais uma montanha de coisas. Além de uma papelada na mão, que eram as multas recebidas por todas as irregularidades. Carreguei tudo e deixei a condutora em casa.

Quando contei a história aos meus chegados, disseram que fui inconsequente de levar uma pessoa estranha dentro do meu carro blá, blá, blá. Na segunda-feira, quando a procurei para passar as coordenadas sobre o pagamento da minha franquia, a pessoa, até então agradecida, passou a me acusar de culpado, de querer extorqui-la, de não ter palavra (?), que um dia aconteceria comigo(sic)… Mas TODAS essas ofensas – que eram textos enormes – terminavam com a frase: “Porque Deus não dorme!”.

A partir daí tomei três providências: abri outro BO relatando as ameaças, redigi esta crônica e concluí, seguindo a crença dela, que se Deus não dorme é porque ele deve tomar muito café. Pena que não pude compartilhar com ela, pois àquela altura, eu já a tinha bloqueado de todas as formas.

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CÁPSULA DE UM CAFEZINHO – O que eles disseram…

“Não importa se eu acredito em Deus. O que me importa é se Deus acredita em mim”. Mario Quintana (1906-1994).

 

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis” (Camus Editora), entre outros.
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Overdose

O pessoal da firma estava ansioso para conhecer a nova cervejaria artesanal da cidade. Uma colega aniversariante chamou a turma e disse: “Vamos lá amanhã! Cada um paga suas cervejas e eu as comidas!”.

Era uma combinação explosiva: o desejo de conhecer cada cerveja que saia das 14 torneiras e o sálario que caiu na conta corrente junto com a participação nos lucros e resultados da companhia.

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Animada por uma banda de rock, a festa entrou na madrugada com toda aquela comilança e “beberragem” – neologismo que parece ter sido criado pela minha tia Elma, de tanto que ela usa.

Na hora de ir embora, fiquei por último na fila do caixa. O dono do boteco passou minha comanda várias vezes. Ele não queria acreditar que este cronista “tirou” o lugar de outro potencial cliente tomador de chopp, pois houve fila a noite inteira – o bar tem 60 lugares. Minha conta registrou míseros R$ 6,60 pelo consumo de duas águas.

Saí de lá, carregando metade do bolo de aniversário, já que me acharam habilitado para transportá-lo pra casa. Desviei do caminho e fui até o posto 24h que dá treinamento de barista aos atendentes. Lá tomei uma overdose de café. Uma beberragem, como diria a tia Elma. Se tivesse café naquela cervejaria, eu seria um cliente bem mais “interessante” para o botequeiro.

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Cápsula de @UmCafezinho – O que eles disseram…

“Há pessoas que só bebem em circunstâncias muito especiais. Mas consideram especiais todas as circunstâncias em que bebem”. Millôr Fernandes (1923-2012)

 

Marcelo Lamas é cronista. Acredita que qualquer estabelecimento só é bom se tiver um bom café. Autor de “Indesmentíveis”, entre outros.
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Coca-café

Mal o G1 deu a notícia de que a Coca-Cola anunciou a venda no Brasil de sua versão com sabor de café, e o meu celular começou a receber mensagens de várias latitudes.

Bem que o motivo poderia ser a tentativa dos meus amigos de colaborar com este cronista de um site/projeto de estilo de vida dedicado ao café (@umcafezinho). Mas não era.

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Os meus comparsas mais antigos me relacionam mais ao refrigerante do que ao cafezinho. E eles têm razão.

Acontece que na maior parte da minha vida, fui um consumidor sem freio da bebida originada nos Estados Unidos. Ainda outro dia, comentei com minha enteada – que tem 12 anos, nunca tomou refrigerante, mas anda por aí com um moleton da Coca-Cola – que minha primeira palestra no colégio foi sobre a história de John Pemberton (1881-1888), farmacêutico e inventor da fórmula do refrigerante mais vendido no planeta. E a segunda palestra da minha vida, já em outra escola, foi sobre o quê? Advinhe.

Ao longo de duas décadas, perdi a conta de quantas vezes citei a força do meu relacionamento com a bebida gelada. Cheguei a usar numa assinatura de crônica em um livro que participei: “Marcelo Lamas é articulista (…) e prefere Coca-Cola”.

Sempre fui muito fiel. Era só Coca-Cola. Cheguei a comprar uma geladeira maior, pois concluí que não era (é) à toa que toda a propaganda trazia a bebida em um copo cheio de gelo. A combinação ideal.

Depois de muita campanha da minha mãe, que é professora da área da saúde, consegui me desvencilhar de todo aquele consumo do refrigerante e do índice limítrofe de glicose do sangue.

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Se viciado é que aquele que consome algo com frequência, fui um viciado em Coca-Cola. Sempre saia da empresa no horário do almoço e pegava uma garrafinha (ks) no boteco. Hoje em dia, a coisa mudou muito. Já falei aqui: saio da firma e vou pegar um espresso no posto da esquina. Todos os dias.

Aguardemos a chegada da Coca-Cola Plus Café Espresso, com 40% a mais de cafeína e menos açúcar. Minha sorte está lançada.

 

Marcelo Lamas é cronista. Recebeu recomendação do cardiologista para evitar cafeína. Optou por não ter muita expectativa de vida do que viver triste. Autor de “Indesmentíveis”.
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Foto: Divulgação/Coca-Cola

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Aquele blazer

Há uns vinte anos, o chefe chegou à minha mesa e perguntou:

– Marcelo, teu passaporte está em dia?
– Está sim! Por quê?
– Vais para Barcelona na semana que vem!

Naquela época pré-histórica da internet, não havia muita informação disponível. Saí entrevistando os colegas viajados: “Marcelo, fica esperto! Lá está muito frio!”.

Depois do expediente fui a uma loja da cidade e pedi um blazer de lã. A vendedora estranhou, estava muito quente: “Vou ver se tem alguma coisa lá em cima, no estoque”. Ela voltou de lá com um casaco dentro de uma capa e disse: “Só temos esse “filho único”. Coloquei o blazer e parecia ser um sob medida. A peça não tinha preço. Ela puxou outro casaco da arara, com uma etiqueta de promoção e me disse: “Vou fazer por esse valor aqui”. Paguei os R$ 100,00 e fui embora faceiro. Fiz a viagem e cumpri a missão da chefia.

Quando chegou o nosso inverno fui para o trabalho com o meu blazer. Como a cidade tem tradição têxtil, já chamou a atenção dos meus colegas que quiseram experimentá-lo. Quando estavam fuçando no casaco, perceberam que era de uma grife internacional, caríssima! Eu nem sabia da fama. Já me considerava satisfeito por ter um casaco que não tinha “cotoveleiras” de couro, pois meses antes havia chegado à cidadezinha um carregamento de roupas usadas dos Estados Unidos e todo mundo da empresa usava aquele modelo de blazer. Usava, não! Usam até hoje! Inclusive eu! Mesmo sendo uma peça clássica, com a tendência slim, o meu blazer de grife parece o casaco do trapalhão Didi. Mas não sou louco de deixar uma peça daquela no armário.

A propósito: foi na viagem do começo desta história que tive noção da fama dos cafés brasileiros e colombianos. As cafeterias eram cheias de plaquinhas identificando as origens. Até então, para mim, os cafés eram todos iguais. Foi usando aquele blazer que comecei a mudar de ideia.

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Cápsula de @UMCAFEZINHO – O que eles disseram…
“O estilo é uma dificuldade de expressão.” Mario Quintana (1906-1994)

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”. Trabalha há 23 anos no mesmo endereço.
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Foto: Depositphotos

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Paixões nacionais

Na abertura da Copa do Mundo publicamos aqui em @UmCafezinho a história do ramo de café estampado dentro do escudo da seleção brasileira no torneio de 1982, quando o IBC (Instituto Brasileiro do Café) buscava aumentar a participação do fruto no mercado internacional.

Nossa crônica foi citada e divulgada em vários sites do mundo do café, devido à relação entre duas de nossas paixões nacionais: a bebida quente e o futebol.

Em 1982, um jornalista que saia do estádio após a derrota da nossa “invencível” seleção foi consolado por um gringo que apontou para um outdoor do IBC numa esquina de Sarriá/Espanha e disse: “Não fique triste. Vocês ainda tem o melhor café do mundo!”.

Há uma outra história com futebol e café que este cronista cafezeiro gostaria de compartilhar. Os dois “templos” de futebol que frequento têm café a venda para esquentar os torcedores nas arquibancadas geladas do inverno gaúcho. Eles são:

  1. A moderna Arena do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense que disputa a série A
  2. O velho estádio Bento Freitas, onde o Brasil de Pelotas joga a série B do Campeonato Brasileiro.

Há uma grande diferença entre eles: A relação entre os cafés é inversa. No estádio velho, do interior,  o café é especial e na arena “gourmet” o café é convencional.

Talvez nem todo mundo tenha percebido isso, o pessoal vai lá pra ver o jogo, mas eu também vou pelo café.

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Marcelo Lamas é cronista, autor de “Indesmentíveis”. Antes de sair de casa, escolhe o caminho por onde encontrará os melhores cafés.
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Foto: Depositphotos

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O café brasileiro na Copa do Mundo

Começa hoje a copa do mundo de futebol, o que para muitos é o maior espetáculo da terra. Por aqui há um preconceito enraizado de que pessoas mais esclarecidas, os intelectuais, os eruditos, não deveriam apreciar o esporte. Nelson Rodrigues definiu assim: “O futebol é o ópio do povo”. Já o filósofo Millôr Fernandes complementou: “O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”. No próximo domingo, dia de jogo do Brasil, veremos as pessoas andando por aí vestidas de amarelo e mesmo aqueles mais críticos, acabam se rendendo ao “nacionalismo”.

E por que a cor predominante do uniforme não é o verde, como nossa bandeira? Até 1950, nossa seleção usava o branco. Com a derrota para o Uruguai, na final jogada no Maracanã – numa tragédia similar ao 7×1 – parte da culpa foi jogada sobre a camisa que não ganhava títulos.

Em 1953, o gaúcho Aldyr Schlee, aos 19 anos, vencia um concurso nacional, criando a harmoniosa combinação camisa amarela + calção azul + meias brancas. Como havia a exigência de utilizar todas as cores da bandeira, ele optou por colocar o verde nos detalhes das meias, da gola e das mangas. E assim ele criava um símbolo nacional, identificado em qualquer parte do planeta.

Foi na copa de 1982 que houve uma mudança surpreendente. A CBF mudou o escudo da seleção, inserindo UM RAMO DE CAFÉ. Como a FIFA não permitia o uso de patrocínio nos uniformes, essa foi a forma encontrada para garantir a verba publicitária do IBC (Instituto Brasileiro do Café), que buscava ampliar a divulgação da bebida no mercado internacional.

Não tenho visto aquela expectativa pelo começo dos jogos. Acredito que depois que a bola rolar, quem ainda não pegou sua camisa verde-amarela, vai correr lá no armário. Ninguém vai querer ficar de fora da festa.

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Marcelo Lamas é cronista e autor de “Indesmentíveis”. Foi jogador de futebol das categorias de base do Farroupilha / RS e coleciona camisas de futebol.
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Fotos: Acervo/CBF

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Cafés conversados

Toda cidade tem seus cafés conversados, aqueles em que o café é o motivo para um bom papo; ou uma há conversa que precisa de um lugar para acontecer.

O cronista Paulo Mendes Campos (1922-91) dizia que muitos relacionamentos terminavam em “cafés engordurados”, daqueles tradicionais, que em cidades mais antigas chegam a ser centenários.

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O escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) frequentou por vinte anos o mesmo lugar em Montevidéu, o Café Brasilero, fundado em 1877. Ele sentava em uma mesa próxima à janela e dali fazia a observação social que depois seria explorada em seus textos, alguns redigidos ali mesmo, na companhia de uma xícara de café com leite e duas medialunas (croissant).

Galeano costumava dizer: “Devo tudo aos cafés de Montevidéu, porque não tive educação formal(…). Neles aprendi a arte de viver e de narrar”. Além da literatura e dos cafés, ele era apaixonado futebol. Na época da Copa do Mundo, afixava uma plaquinha em frente sua casa, escrita de próprio punho: Cerrado por Fútbol. Era um aviso para não ser importunado por transeuntes enquanto assistia aos jogos.

Recentemente, adquiri um livro póstumo em espanhol que reúne as crônicas acerca do esporte escritas pelo autor e espalhadas ao longo de sua obra, traduzido no Brasil pela L&PM com o título “Fechado por motivo de futebol”, preço sugerido de R$ 39,90.

Marquei minhas férias para as próximas semanas. Pretendo assistir aos jogos, colocar a leitura em dia e tomar bons cafés.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”.
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Foto: Depositphotos

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Um ano, @Umcafezinho

Há um ano ocupo este espaço no @UmCafezinho. Quando me propus a ingressar no projeto, sugeri à Fernanda – idealizadora e editora – que a coluna se chamasse “Papo no cafezinho”, o que não seria uma simples alusão ao site, mas a situação propriamente dita, aquela quotidiana, da conversa enquanto degustamos um café.

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Depois de publicar as primeiras crônicas em @UmCafezinho, percebi que estava conectando minhas vivências ao universo inesgotável do café, relacionando minhas experiências à bebida dos brasileiros e nesses papos falamos que o café pode ser com açúcar, melhor se este açúcar for um quindim ou qualquer outro docinho para acompanhar – exceto aquele chocolatinho mentolado para disfarçar o café de má qualidade. Também falamos que o café pode não ser recomendado pelo seu médico e que, por sorte, há vários outros “doutores” por aí. E dissemos que o café corporativo pode ser bom, mas geralmente é ruim, entre muitas outras considerações.

É um excelente desafio encarar uma página em branco quinzenalmente buscando levar ao leitor alguns minutos de distração do seu mundo e – paradoxalmente – de concentração naquela historinha, contando sempre com a ajuda de uma pequena dose de cafeína.

Ao longo de mais de duas décadas colaborando com jornais, revistas e sites, houve várias mudanças na minha forma de pensar e de escrever, mas uma coisa não mudou: ao lado, sempre houve uma xícara de café.

Obrigado a todos pela companhia e um brinde, advinhe com o quê?

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Marcelo Lamas é cronista e conta com uma “personal café”, a coffee lover Ingrid, que o acompanha nas incursões pelo mundo da bebida e é a primeira revisora dos textos aqui publicados.
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