Aquele blazer

Há uns vinte anos, o chefe chegou à minha mesa e perguntou:

– Marcelo, teu passaporte está em dia?
– Está sim! Por quê?
– Vais para Barcelona na semana que vem!

Naquela época pré-histórica da internet, não havia muita informação disponível. Saí entrevistando os colegas viajados: “Marcelo, fica esperto! Lá está muito frio!”.

Depois do expediente fui a uma loja da cidade e pedi um blazer de lã. A vendedora estranhou, estava muito quente: “Vou ver se tem alguma coisa lá em cima, no estoque”. Ela voltou de lá com um casaco dentro de uma capa e disse: “Só temos esse “filho único”. Coloquei o blazer e parecia ser um sob medida. A peça não tinha preço. Ela puxou outro casaco da arara, com uma etiqueta de promoção e me disse: “Vou fazer por esse valor aqui”. Paguei os R$ 100,00 e fui embora faceiro. Fiz a viagem e cumpri a missão da chefia.

Quando chegou o nosso inverno fui para o trabalho com o meu blazer. Como a cidade tem tradição têxtil, já chamou a atenção dos meus colegas que quiseram experimentá-lo. Quando estavam fuçando no casaco, perceberam que era de uma grife internacional, caríssima! Eu nem sabia da fama. Já me considerava satisfeito por ter um casaco que não tinha “cotoveleiras” de couro, pois meses antes havia chegado à cidadezinha um carregamento de roupas usadas dos Estados Unidos e todo mundo da empresa usava aquele modelo de blazer. Usava, não! Usam até hoje! Inclusive eu! Mesmo sendo uma peça clássica, com a tendência slim, o meu blazer de grife parece o casaco do trapalhão Didi. Mas não sou louco de deixar uma peça daquela no armário.

A propósito: foi na viagem do começo desta história que tive noção da fama dos cafés brasileiros e colombianos. As cafeterias eram cheias de plaquinhas identificando as origens. Até então, para mim, os cafés eram todos iguais. Foi usando aquele blazer que comecei a mudar de ideia.

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Cápsula de @UMCAFEZINHO – O que eles disseram…
“O estilo é uma dificuldade de expressão.” Mario Quintana (1906-1994)

Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”. Trabalha há 23 anos no mesmo endereço.
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marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Depositphotos

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Paixões nacionais

Na abertura da Copa do Mundo publicamos aqui em @UmCafezinho a história do ramo de café estampado dentro do escudo da seleção brasileira no torneio de 1982, quando o IBC (Instituto Brasileiro do Café) buscava aumentar a participação do fruto no mercado internacional.

Nossa crônica foi citada e divulgada em vários sites do mundo do café, devido à relação entre duas de nossas paixões nacionais: a bebida quente e o futebol.

Em 1982, um jornalista que saia do estádio após a derrota da nossa “invencível” seleção foi consolado por um gringo que apontou para um outdoor do IBC numa esquina de Sarriá/Espanha e disse: “Não fique triste. Vocês ainda tem o melhor café do mundo!”.

Há uma outra história com futebol e café que este cronista cafezeiro gostaria de compartilhar. Os dois “templos” de futebol que frequento têm café a venda para esquentar os torcedores nas arquibancadas geladas do inverno gaúcho. Eles são:

  1. A moderna Arena do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense que disputa a série A
  2. O velho estádio Bento Freitas, onde o Brasil de Pelotas joga a série B do Campeonato Brasileiro.

Há uma grande diferença entre eles: A relação entre os cafés é inversa. No estádio velho, do interior,  o café é especial e na arena “gourmet” o café é convencional.

Talvez nem todo mundo tenha percebido isso, o pessoal vai lá pra ver o jogo, mas eu também vou pelo café.

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Marcelo Lamas é cronista, autor de “Indesmentíveis”. Antes de sair de casa, escolhe o caminho por onde encontrará os melhores cafés.
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O café brasileiro na Copa do Mundo

Começa hoje a copa do mundo de futebol, o que para muitos é o maior espetáculo da terra. Por aqui há um preconceito enraizado de que pessoas mais esclarecidas, os intelectuais, os eruditos, não deveriam apreciar o esporte. Nelson Rodrigues definiu assim: “O futebol é o ópio do povo”. Já o filósofo Millôr Fernandes complementou: “O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”. No próximo domingo, dia de jogo do Brasil, veremos as pessoas andando por aí vestidas de amarelo e mesmo aqueles mais críticos, acabam se rendendo ao “nacionalismo”.

E por que a cor predominante do uniforme não é o verde, como nossa bandeira? Até 1950, nossa seleção usava o branco. Com a derrota para o Uruguai, na final jogada no Maracanã – numa tragédia similar ao 7×1 – parte da culpa foi jogada sobre a camisa que não ganhava títulos.

Em 1953, o gaúcho Aldyr Schlee, aos 19 anos, vencia um concurso nacional, criando a harmoniosa combinação camisa amarela + calção azul + meias brancas. Como havia a exigência de utilizar todas as cores da bandeira, ele optou por colocar o verde nos detalhes das meias, da gola e das mangas. E assim ele criava um símbolo nacional, identificado em qualquer parte do planeta.

Foi na copa de 1982 que houve uma mudança surpreendente. A CBF mudou o escudo da seleção, inserindo UM RAMO DE CAFÉ. Como a FIFA não permitia o uso de patrocínio nos uniformes, essa foi a forma encontrada para garantir a verba publicitária do IBC (Instituto Brasileiro do Café), que buscava ampliar a divulgação da bebida no mercado internacional.

Não tenho visto aquela expectativa pelo começo dos jogos. Acredito que depois que a bola rolar, quem ainda não pegou sua camisa verde-amarela, vai correr lá no armário. Ninguém vai querer ficar de fora da festa.

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Marcelo Lamas é cronista e autor de “Indesmentíveis”. Foi jogador de futebol das categorias de base do Farroupilha / RS e coleciona camisas de futebol.
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Fotos: Acervo/CBF

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Cafés conversados

Toda cidade tem seus cafés conversados, aqueles em que o café é o motivo para um bom papo; ou uma há conversa que precisa de um lugar para acontecer.

O cronista Paulo Mendes Campos (1922-91) dizia que muitos relacionamentos terminavam em “cafés engordurados”, daqueles tradicionais, que em cidades mais antigas chegam a ser centenários.

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O escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) frequentou por vinte anos o mesmo lugar em Montevidéu, o Café Brasilero, fundado em 1877. Ele sentava em uma mesa próxima à janela e dali fazia a observação social que depois seria explorada em seus textos, alguns redigidos ali mesmo, na companhia de uma xícara de café com leite e duas medialunas (croissant).

Galeano costumava dizer: “Devo tudo aos cafés de Montevidéu, porque não tive educação formal(…). Neles aprendi a arte de viver e de narrar”. Além da literatura e dos cafés, ele era apaixonado futebol. Na época da Copa do Mundo, afixava uma plaquinha em frente sua casa, escrita de próprio punho: Cerrado por Fútbol. Era um aviso para não ser importunado por transeuntes enquanto assistia aos jogos.

Recentemente, adquiri um livro póstumo em espanhol que reúne as crônicas acerca do esporte escritas pelo autor e espalhadas ao longo de sua obra, traduzido no Brasil pela L&PM com o título “Fechado por motivo de futebol”, preço sugerido de R$ 39,90.

Marquei minhas férias para as próximas semanas. Pretendo assistir aos jogos, colocar a leitura em dia e tomar bons cafés.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”.
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Um ano, @Umcafezinho

Há um ano ocupo este espaço no @UmCafezinho. Quando me propus a ingressar no projeto, sugeri à Fernanda – idealizadora e editora – que a coluna se chamasse “Papo no cafezinho”, o que não seria uma simples alusão ao site, mas a situação propriamente dita, aquela quotidiana, da conversa enquanto degustamos um café.

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Depois de publicar as primeiras crônicas em @UmCafezinho, percebi que estava conectando minhas vivências ao universo inesgotável do café, relacionando minhas experiências à bebida dos brasileiros e nesses papos falamos que o café pode ser com açúcar, melhor se este açúcar for um quindim ou qualquer outro docinho para acompanhar – exceto aquele chocolatinho mentolado para disfarçar o café de má qualidade. Também falamos que o café pode não ser recomendado pelo seu médico e que, por sorte, há vários outros “doutores” por aí. E dissemos que o café corporativo pode ser bom, mas geralmente é ruim, entre muitas outras considerações.

É um excelente desafio encarar uma página em branco quinzenalmente buscando levar ao leitor alguns minutos de distração do seu mundo e – paradoxalmente – de concentração naquela historinha, contando sempre com a ajuda de uma pequena dose de cafeína.

Ao longo de mais de duas décadas colaborando com jornais, revistas e sites, houve várias mudanças na minha forma de pensar e de escrever, mas uma coisa não mudou: ao lado, sempre houve uma xícara de café.

Obrigado a todos pela companhia e um brinde, advinhe com o quê?

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Marcelo Lamas é cronista e conta com uma “personal café”, a coffee lover Ingrid, que o acompanha nas incursões pelo mundo da bebida e é a primeira revisora dos textos aqui publicados.
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Atendimento ao cliente

Faz tempo que me sinto incomodado com o atendimento invasivo de alguns estabelecimentos comerciais. Mais de uma vez, caminhando pelos corredores de alguns shoppings centers, observando as vitrines, quase bati de frente com vendedores que pularam de dentro das lojas, como peixes saltando do aquário ou como aqueles vendedores de rua, embora estes últimos estivessem no exercício da função de abordar – e quem vai até este tipo de comércio está ciente disso.

Há uma rede de lojas cujos vendedores usam um vocabulário padronizado em todas as unidades, mesmo em estados diferentes:

  • “Boa tarde fera!” – quando se está sozinho;
  • “Boa tarde casal!” – quando se está acompanhado;
  • “Boa tarde família!” – quando há uma criança junto.

Essa “falsidade” é até tolerável. O problema é que eles o obrigam ao contato físico. Esticam a mão na sua direção, forçando a sinestesia. Já fiz o teste, entrando na loja com as mãos ocupadas. Mas tive que jogar tudo para o lado esquerdo, para que pudesse apertar a mão do rapaz e não deixá-lo constrangido, afinal, ele foi orientado assim – e é fiscalizado, acredito. Quando disse “só vou dar uma olhadinha”, ele ficou numa marcação homem-a-homem, no meu encalço.

No nordeste, há uma loja em que os vendedores ficam sentados. A primeira vista causa estranheza, porém eles o deixam a vontade para fuçar nos produtos e quando você precisa de auxílio é só chama-los. Sinto-me mais confortável assim.

No meu intervalo de almoço vou até uma padoca buscar um expresso com leite. Estou há dias quebrando a cabeça para dar uma sugestão que agilize a vida de quem vai até lá só para tomar @umcafezinho, pois a fila é a mesma de quem foi chamado pela senha e ainda precisa tirar dúvidas sobre as maravilhas que estão no balcão. Por ora, a qualidade do café tem feito valer a pena esperar.

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Marcelo Lamas é especialista em marketing e negócios, já ministrou cursos de atendimento ao cliente e técnicas de negociação. Foi professor universitário e instrutor do Sebrae. Autor de “Indesmentíveis”.
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A escrita e a gastronomia

A primeira experiência escrita do mestre de todos os cronistas, o gaúcho Luis Fernando Verissimo – grifado assim, sem acentos – não deu muito certo. Conta ele, que o editor do jornal o escalou para ser o responsável pelas previsões astrológicas, numa época em que o acesso a este tipo de informação era restrito.
 O escritor bolou um plano – quase – perfeito. Criou previsões genéricas e as embaralhava entre os signos e os dias da semana. Ele só não contou com a hipótese de que alguém do signo de virgem quisesse saber o que estava previsto para o seu namorado(a) aquariano(a) naquele dia. E que ao ler, a pessoa veria a mesma previsão do seu próprio signo, lida na manhã anterior. E que ela teria o jornal velho ali na lixeira, para comprovar a farsa.

O editor não desistiu do jovem jornalista e o escalou para fazer notas gastronômicas, nas quais o “gordinho” avaliaria os restaurantes da redondeza. Naquele espaço limitado, no rodapé da página de variedades, os leitores perceberam o talento de LFV para os textos curtos – o pai Erico Verissimo (1905-1975) já era consagrado com suas narrativas longas, como “O tempo e o vento”, e foi o primeiro autor brasileiro a viver de escrever.

Naquele começo, Luis Fernando Verissimo já atestava a máxima do seu amigo Mario Quintana (1906-1994): “Os verdadeiros poemas estão nos pequenos anúncios de jornais”.

Lembrei desta história quando atualizava meu curriculo literário (carta de condolências, discurso de formatura, estatuto de time de futebol, manual de instrução, procedimento de benzedeira, entre outros) e precisava incluir “receita gastronômica”. Em 2015, participei de um concurso de receitas saudáveis. Ganhei o prêmio. Quando postei a foto do enorme diploma, com meu nome impresso, recebi várias manifestações e cumprimentos pelo feito. Alguns – bem chegados até – comentavam que desconheciam este meu “dom”.

Acontece que nem sei ligar o fogão. O concurso era feito através de um formulário a ser preenchido, não precisei executar a receita. Também não sei se alguém o fez, pois a disputa foi numa cidade onde estava eu de passagem. Mantive sigilo quanto minha inaptidão na cozinha. Deixei que pensassem que eu tinha algum outro predicado, além de cronista insistente e de lateral direito do time da família.

Adiante, anotei na minha listinha de pendências a obrigação de fazer um curso sério de culinária. Quando comecei as pesquisas sobre as opções que São Paulo oferecia, cruzei com um curso sobre cafés, e por ora, é este o diploma que faz companhia ao da receita premiada e aos dos cursos literários na minha pastinha.

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Marcelo Lamas é cronista e taurino. Autor de “Indesmentíveis”, “Arrumadinhas” e “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
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Gordinhos assumidos

Desde o final do ano passado resolvi mudar minha qualidade de vida. Embora soubesse que a base seria uma boa alimentação aliada aos exercícios frequentes, fui em busca de orientação profissional.

Na primeira consulta com a coach, perguntou se eu tinha ido a pé: “Não!”, respondi. E pela cara que ela fez entendi o recado. Depois perguntou o que eu poderia fazer no dia seguinte, ou seja, não era para esperar a segunda-feira. Pensei: “Amanhã? Já? Não dá pra fazer nada!”. Ela ficou me olhando nos olhos, com aquele sorriso permanente dos coachs. Eu não podia deixa-la sem resposta: “Posso fazer exercícios e cortar as bolachas”.

Contei minha história de amor com elas e a orientadora já me aconselhou a me livrar das bolachas e não(!) comer tudo primeiro e começar a dieta depois. Levei todo o meu estoque para o pessoal do trabalho. Quando alguém reclamava de fome, eu entregava um pacote de bolachas. Por alguns dias, fui considerado a melhor pessoa do mundo.

Atualmente participo de um grupo com encontros semanais cujas camisas têm a estampa: “Emagrecimento Saudável”. Particularmente não gostei do nome, mas deve ter algum efeito subliminar. Parece-me sinônimo de “Gordinhos Assumidos” (GA). Mas o que importa é que o projeto tem sido muito importante como aprendizado, reeducação e principalmente com o convívio e compartilhamento de experiências.

Com as restrições sugeridas – porque ninguém é obrigado – pude perceber a quantidade de pessoas / páginas gastronômicas que sigo. Não passo fome cumprindo o plano alimentar, mas passo muita vontade vendo aquele monte de comida na timeline. Vou ter que deixar de seguir algumas dessas gordices.

No último encontro do “GA”, nossa nutricionista – que já foi apelidada de Barbie – recomendou o desafio de cortar totalmente o açúcar. Alguns colegas indagaram: “Mas até no café?”. E a resposta foi “Sim! Até no café!”. Por sorte, o cronista aqui já tinha adotado esse hábito seguindo broncas familiares e dicas de baristas.

O difícil foi cortar os docinhos que acompanhavam os cafezinhos, sempre na proporção de um para um.

PS: Na véspera da Páscoa, nossa coach enviou para o grupo uma sugestão de ovo trufado, daqueles para comer de colher: Era a foto de um mamão papaia, cortado ao meio e cheio de linhaça e aveia por cima. Providenciei um igualzinho e o comi pensando em um Kit-Kat.

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Marcelo Lamas é cronista e relata o cotidiano desde 1994. Autor de “Indesmentíveis”, “Arrumadinhas” e “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”. Em 2015 descobriu que é hipertenso e recebeu ordem médica: “Não deixa teu peso subir”.
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marcelolamasbr@gmail.com

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Combustíveis

Conversava com meu pai sobre a alta dos preços quando ele – que mora em outro estado – me questionou:

– Quanto está a gasolina aí?

Respondi na soberba:

– Não sei! Aqui tem uma máfia do combustível, não faz diferença pesquisar. Só paro, abasteço, pago e vou embora. É uma questão de necessidade, não tem o que fazer.

O velho respondeu:

– Hum! Sei.

Emendei:

– Pai, tem duas coisas que não pergunto o preço: gasolina e café.

E a conversa ficou por aí.

************

No final do ano passado, minha tese foi colocada à prova. Fiz uma viagem de carro a Montevidéu. Cheguei ao destino na noite de Natal. O hotel que escolhi estava com os serviços restritos, incluindo o café-bar.

Saí para dar uma volta pelo centro à procura de um café. Quando cheguei ao marco zero, a Praça Independência, vi um hotel enorme do outro lado da rua. Daqueles de rede internacional, com um luminoso indicado haver um cassino no seu interior.

Fui até lá, passei pela porta giratória e perguntei para a recepcionista se ali havia uma cafeteria. Ela disse “Sí”, e sinalizou que ficava após um grande saguão.

Segui até lá, pedi um expresso (Illy), uma medialuna (croissant) e um doce que parecia uma flor. Matei o que estava me matando. Paguei com o cartão e voltei para o meu hotel.

Semanas depois, já de volta ao Brasil, recebi a fatura do cartão de crédito. Além de ficar assustado com o valor do litro da gasolina comum na faixa dos R$ 6 no país vizinho, também torci o nariz ao ver a conta daquele cafezinho da noite do Natal, em torno de R$ 100.

Agora, sei de bate pronto o preço de ambos. Com relação ao café natalino, seguramente por ser uma commodities, a culpa não foi da bebida. Bem, caso tenha sido, o que importa é que os grãos eram especiais e que a (o) barista caprichou na extração.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de “Indesmentíveis”, “Arrumadinhas” e “Mulheres casadas têm cheiro de pólvora”.
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Telefone fixo

Outro dia recebi uma informação confidencial e o sujeito me advertiu:

– Cara, cuida com o que vais fazer com isso!

– O quê? Qualquer coisa eu sumo e ninguém me acha.

– Cara, eu te acho pelo Google, é só querer.

Depois dessa conversa, refleti sobre o quanto era difícil encontrar uma pessoa há duas ou três décadas. A primeira vez que me interessei por uma menina, o único jeito possível de fazer contato era segui-la, depois da escola. Isso não era lá muito difícil. O complicado era ficar escondido da mãe dela, que logo percebeu o gurizote de óculos no encalço.

Certa vez, quebrei a cara: a mãe de uma pretendida me conhecia de vista, pois trabalhava no mesmo hospital que a minha mãe. E deixou vazar no cafezinho: “Os nossos filhos se gostam!”. Aí sofri bullying em casa: “Com namoradinha, hein Marcelo?!”.

Depois aprimorei o método de contato. Com a chegada do telefone aos bairros interioranos, dava pra saber quais casas tinham o aparelho, pela simples observação da fiação – seria um indício que este cronista viria a ser um engenheiro eletricista?

Caso não soubesse o endereço, bastava saber o sobrenome da menina, então, era só procurar na lista telefônica pelo número que tivesse os dígitos iniciais do bairro. Se tivesse dois “Duartes” com telefone naquele bairro, aí tinha que aprimorar a pesquisa e descobrir o nome dos pais. Essa combinação era infalível. Depois era só ficar ligando, até ter a sorte de ela atender. Caso fosse outra pessoa, era só dizer que era engano. Ou desligar na cara! Confesso que utilizei mais esta última.

Li em uma crônica da Martha Medeiros que era muito constrangedor receber os telefonemas dos garotos, porque era o pai que atendia e a chamava forçando uma voz autoritária, para amedrontar os candidatos. E que ela era obrigada a ficar ali, diante de todos, dando respostas monossílabas e sendo observada pela família, pois os telefones fixos ficavam na sala da casa, eram sinônimo de status e objetos decorativos – o lá de casa era vermelho.

Depois de ler o texto, fiquei com a consciência pesada, pois sempre estive na posição confortável de estar sozinho, enquanto fazia minhas abordagens. Agora, devo passar por mal-educado, quando ligo para alguém não gasto muito tempo com as saudações, vou direto no “Podes falar?”. Deve ser um jeito inconsciente de acertar essa conta antiga, dando opção para a pessoa sinalizar que “não”, que ligar em outro horário seria melhor.

Semana passada estive em São Paulo e fiquei com preguiça de procurar uma cafeteria com boa recomendação e de sair para longe do hotel. Acionei o “locais nas imediações” e acabei tomando um café ruim. Na maioria das vezes a praticidade não vale tanto a pena assim. É melhor gastar um tempinho investigando, como se fazia no passado.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis. Segundo seus colegas de trabalho, se tivesse nascido animal, seria um cachorro perdigueiro.
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Foto: Marcelo Lamas / Cafeteria @bellocacau

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