Telefone fixo

Outro dia recebi uma informação confidencial e o sujeito me advertiu:

– Cara, cuida com o que vais fazer com isso!

– O quê? Qualquer coisa eu sumo e ninguém me acha.

– Cara, eu te acho pelo Google, é só querer.

Depois dessa conversa, refleti sobre o quanto era difícil encontrar uma pessoa há duas ou três décadas. A primeira vez que me interessei por uma menina, o único jeito possível de fazer contato era segui-la, depois da escola. Isso não era lá muito difícil. O complicado era ficar escondido da mãe dela, que logo percebeu o gurizote de óculos no encalço.

Certa vez, quebrei a cara: a mãe de uma pretendida me conhecia de vista, pois trabalhava no mesmo hospital que a minha mãe. E deixou vazar no cafezinho: “Os nossos filhos se gostam!”. Aí sofri bullying em casa: “Com namoradinha, hein Marcelo?!”.

Depois aprimorei o método de contato. Com a chegada do telefone aos bairros interioranos, dava pra saber quais casas tinham o aparelho, pela simples observação da fiação – seria um indício que este cronista viria a ser um engenheiro eletricista?

Caso não soubesse o endereço, bastava saber o sobrenome da menina, então, era só procurar na lista telefônica pelo número que tivesse os dígitos iniciais do bairro. Se tivesse dois “Duartes” com telefone naquele bairro, aí tinha que aprimorar a pesquisa e descobrir o nome dos pais. Essa combinação era infalível. Depois era só ficar ligando, até ter a sorte de ela atender. Caso fosse outra pessoa, era só dizer que era engano. Ou desligar na cara! Confesso que utilizei mais esta última.

Li em uma crônica da Martha Medeiros que era muito constrangedor receber os telefonemas dos garotos, porque era o pai que atendia e a chamava forçando uma voz autoritária, para amedrontar os candidatos. E que ela era obrigada a ficar ali, diante de todos, dando respostas monossílabas e sendo observada pela família, pois os telefones fixos ficavam na sala da casa, eram sinônimo de status e objetos decorativos – o lá de casa era vermelho.

Depois de ler o texto, fiquei com a consciência pesada, pois sempre estive na posição confortável de estar sozinho, enquanto fazia minhas abordagens. Agora, devo passar por mal-educado, quando ligo para alguém não gasto muito tempo com as saudações, vou direto no “Podes falar?”. Deve ser um jeito inconsciente de acertar essa conta antiga, dando opção para a pessoa sinalizar que “não”, que ligar em outro horário seria melhor.

Semana passada estive em São Paulo e fiquei com preguiça de procurar uma cafeteria com boa recomendação e de sair para longe do hotel. Acionei o “locais nas imediações” e acabei tomando um café ruim. Na maioria das vezes a praticidade não vale tanto a pena assim. É melhor gastar um tempinho investigando, como se fazia no passado.

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Marcelo Lamas é cronista. Autor de Indesmentíveis. Segundo seus colegas de trabalho, se tivesse nascido animal, seria um cachorro perdigueiro.
@marcelolamasbr
marcelolamasbr@gmail.com

Foto: Marcelo Lamas / Cafeteria @bellocacau

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