Vício

O sujeito chegou perto do meu posto de trabalho e mandou:

– Bem acompanhado, hein? Está saindo com a viciadinha?

– Ãh!?

Antes que esse diálogo acabasse, alguém o chamou para atender um telefonema e a conversa ficou inacabada.

Fiquei assustado com a acusação feita pelo sujeito, mas não quis voltar ao assunto para não parecer desinformado. Naquela noite que saí com a Ingrid, ela disse que não bebia álcool e pediu um suco de melancia. Qual vício seria? Certeza que era ilícito!

Quanto a mim, tinha omitido a coleção de camisas de futebol. Se soubesse disso, talvez a gata tivesse me desclassificado. Preferi falar da perseguição às livrarias e bibliotecas, o que contaria mais pontos para a conquista, pois a conheci numa livraria, sentada, empunhando uma xícara e sorrindo pra mim (ou de mim), acompanhada de uma amiga em comum.

Cheguei a pensar em puxar conversa com meu colega e descobrir o vício dela, mas resisti, pois tínhamos combinado um happy hour.

Curioso e preocupado, após as formalidades das saudações, mal tínhamos sentado, fui direto:

– Nem falamos de vícios no sábado, né?

Ela deu um sorriso amarelo e rebateu:

– Vícios?

– Sim, vícios! Eu, por exemplo, coleciono camisas de futebol. E você, é viciada em que?

– Ahmmm… Até pegam no meu pé por causa disso…

– Sério! E o que é?

– Café!

– Café? E café pode ser vício?

– Pode sim! Além de apreciar a bebida, coleciono tudo que há a respeito: xícaras, bules, embalagens vazias, latas, quadros, revistas, livros, fotografias, coadores, guias e até minha caricatura na parede feita com café.

No dia seguinte, chequei com meu colega, se o vício era mesmo a bebida que só perde para água em consumo. Ele confirmou! Sendo sabedor de que era algo lícito, dentro de semanas, atamos um namoro sério.

Com a convivência estou descobrindo um mundo novo, desconhecia até as válvulas para apreciar os diferentes aromas de cafés nas prateleiras dos supermercados. Quando viajo a trabalho, não deixo de procurar um café regional para apreciarmos seja feito no coador de pano, sifão, aeropress, prensa francesa ou na Hario V60.

Aos poucos estou me familiarizando com os termos dos “Coffee Lovers”. Estou treinando o meu paladar, até o distinto café do jacu experimentei – e só depois ela me contou a origem. Fizemos algumas viagens para atestar as sugestões e a minha avaliadora particular é bem rigorosa com o tratamento que os baristas dão aos grãos.

Frequentamos semanalmente um cinema que tem uma ótima loja de cafés ao lado. Ainda não sei se ela me acompanha porque pegou gosto pelos filmes – outro vício meu – ou se vai por causa do espresso que tomamos antes da sessão.

Outro dia, conversávamos sobre o futuro e combinamos: se tiver matrimônio, os convidados serão agraciados com um bom café no cardápio.

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Marcelo Lamas é cronista há 20 anos. Autor dos livros Indesmentíveis, Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora e Arrumadinhas. Aqui, escreve quinzenalmente, sempre às quintas-feiras. E-mail: marcelolamas@globo.com

Foto: Pixabay

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